O interpretivismo é algo bastante desenvolvido no pensamento de Dennett, especialmente na década de 1980, quando a influência de seu professor Quine se faz bastante presente e suas ideias estão próximas às de Davidson. As raízes dos interesses filosóficos de Dennett, contudo, começam a se estabelecer duas décadas antes, quando se torna importante para ele compreender o mental de modo compatível com as ciências empíricas e a partir de suas bases evolutivas.
Eu comecei a pensar seriamente sobre a evolução da mente humana quando eu era um estudante de pós-graduação em filosofia em Oxford em 1963 e não sabia quase nada sobre evolução nem sobre a mente humana. Naqueles dias, não se esperava dos filósofos que soubessem sobre ciência, e mesmo os mais ilustres filósofos da mente eram amplamente ignorantes dos trabalhos em psicologia, neuroanatomia, e neurofisiologia. (DENNETT, 2017b, p. XV, tradução nossa)
Dennett envereda pela trilha recém aberta do naturalismo. Para muitos, naquele momento, a filosofia precisa se aproximar da ciência para compreender a mente e qualquer outro aspecto da realidade a partir de seu papel na natureza. Desde então, o pensamento dele sempre esteve em diálogo com o que vem sido produzido nas ciências cognitivas. Atualmente, segundo o autor, há centenas de jovens filósofos com formação interdisciplinar em ciências cognitivas, assim como há estudantes de ciências filosoficamente orientados.
Outro ponto do pensamento de Dennett que se estabelece desde seus primeiros livros é a ideia de que a mente se estuda a partir da adoção de uma determinada postura perante
111 Aqui, surge uma dúvida para a qual não se procura aqui uma resposta: é possível pensar em um processo evolutivo aplicado a um contexto diferente do biológico, mas que não envolva um replicador discreto e estável?
alguém ou algo: a postura intencional. A mente, no fim das contas, se revela sob uma perspectiva de terceira pessoa, a perspectiva do intérprete. Não é possível tratar de algo que não possa ser estudado por uma perspectiva objetiva, segundo o autor. É nesse sentido que ele desenvolve o método heterofenomênico. Sua teoria do mental também se enraíza no holismo das atitudes proposicionais e na indeterminação de Quine, levando-a de modo bastante radical.
A teoria dos sistemas intencionais de Dennett considera como intencional qualquer sistema cujo comportamento possa ser explicado ou previsto com sucesso por meio da atribuição de intencionalidade. Há várias ordens de intencionalidade. Nós somos sistemas intencionais de quarta ordem, no mínimo, pois precisamos disso para podermos nos comunicar pela linguagem articulada culturalmente aprendida dos humanos. Mas há sistemas intencionais de ordens inferiores. É importante frisar que Dennett recusa qualquer distinção entre intencionalidade original e derivada. Para Dennett, atribuímos intencionalidade aos outros da mesma forma como atribuímos a nós mesmos, e é assim que criamos a consciência tipicamente humana.
O termo “consciência” ganha algumas concepções diferentes ao longo do trabalho do autor, isso vai depender da distância a partir da qual a pesquisa é feita. Olhando para o sujeito muito de perto, chega-se a um ponto de vista inacessível ao próprio sujeito. Daí, os conteúdos conscientes são aqueles que se tornam disponíveis para manifestação comportamental, quer o sujeito tenha condições de falar sobre eles, quer não.
Afastando-se um pouco, contudo, Dennett pensa que o sujeito humano é capaz de construir uma narrativa acerca de seus estados internos. É uma espécie de ilusão que se cria quando o sujeito olha para dentro adotando os hábitos cognitivos que vinha usando para lidar com o mundo externo. Então, em outra concepção do termo, a consciência é constituída de narrativas do sujeito acerca de seus estados internos. Essas narrativas também são interpretadas pelo interlocutor daquele sujeito. O sujeito diz algumas coisas sobre si, mas só as pode dizer para alguém que precisará interpretar aquele discurso. No fim das contas, a interpretação do discurso do sujeito acerca de seus estados internos está sujeita à indeterminação.
A terceira concepção de consciência está bastante atrelada à segunda. Aqui, a consciência é compreendida como uma espécie de nicho ecológico criado pelos memes para sua reprodução. De acordo com Dennett, a cultura promove uma mudança na nossa arquitetura mental, criando a ilusão do usuário. Esse ambiente teria favorecido o próprio
processo de evolução cultural e a criação de “eus” humanos altamente expandidos e voláteis, mas com a aparência de integração.
As três concepções não são incompatíveis, isso depende da distância tomada em relação ao sujeito para que se possa estudá-lo, pois o nosso sistema cognitivo, para Dennett, funciona por meio de edições e o resultado final é uma espécie de integração de inúmeras informações fragmentadas recebidas por nós a todo instante, em uma velocidade muito maior do que aquela que somos capazes de monitorar. É por isso que criamos histórias aparentemente integradas para o que somos nós e o que são os outros sujeitos. Nós precisamos de uma distinção entre dentro e fora, ainda que ingênua, pois isso é importante para que possamos nos aproximar do que nos parece bom e nos afastar do que nos parece ruim. Isso foi importante para nossos ancestrais e, na concepção de Dennett, contribui para a formação da ilusão da consciência.
Aparentemente, contudo, há uma incompatibilidade entre a memética e alguns aspectos do interpretivismo. O interpretivismo é uma posição que olha para a mente e a linguagem, não para todos os aspectos da cultura. Porém, a mente a linguagem estão sujeitas ao holismo no pensamento dennettiano. Sendo assim, ao menos os memes relativos a esses aspectos da cultura também se sujeitariam a esses dois fatores. Mas o que são os memes senão entidades replicadoras? E, quando se trata da mente, como isolar essas entidades das redes complexas formadas pelas atitudes proposicionais? O problema da memética é que ela fica muito volátil se não conseguimos isolar os replicadores da cultura. Mas se a mente é cultural e está sujeita ao holismo, isso nunca será possível. Nesse sentido, a memética provavelmente carrega promessas que não poderá cumprir.