O segundo anel, denominado como envolvimento com a tarefa, é compreendido como um tipo de motivação intrínseca. Pesquisas recentes têm comprovado que a motivação intrínseca, ou seja, a fascinação pessoal e engajamento em atividades pelo seu valor próprio é uma característica primordial para a manifestação do talento específico em qualquer domínio. É assim condição para um trabalho distinto e original (ALENCAR; FLEITH, 2003; PASSOS et al., 2014; RENZULLI, 2005).
Nas últimas décadas, em relação aos talentos, observou-se como condição para a sua emergência uma maior ênfase a aspectos não cognitivos do indivíduo, como por exemplo,
suas atitudes, seus valores, seus interesses e motivações. Aliado aos traços de personalidade, os fatores motivacionais têm sido considerados um componente primordial da produção criativa. Eles dizem respeito a um impulso para a realização, desejo de descoberta e de dar ordem ao caos, sendo a mola mestra que leva o indivíduo a se dedicar e a se envolver profundamente no trabalho com prazer e satisfação (ALENCAR; FLEITH, 2003).
O segundo anel, envolvimento com a tarefa, refere-se à motivação refinada, energia focalizada exercida na tarefa em questão, resolução de um problema particular ou ação específica aplicada à área de interesse. Define-se, ainda, como o esforço aplicado do indivíduo em determinado projeto ou situação-problema da qual ele participa ativamente de forma comprometida e, consequentemente, alcança níveis elevados de desempenho. Esses termos são normalmente utilizados para descrever o envolvimento com a tarefa: motivação, persistência, perseverança, trabalho árduo, prática, dedicação, autoconfiança e crença positiva na própria habilidade diante dos desafios, resolução de problemas diante de determinadas atividades do seu interesse (PASSOS; VALLE-RIBEIRO; BARBOSA, 2014).
A interação entre a motivação intrínseca e extrínseca é essencial no processo de desenvolvimento do talento. A motivação intrínseca é interna, parte de dentro do indivíduo para fora. É aquela que pode levar o sujeito a buscar mais informações, aprofundar-se sobre a uma área específica do seu interesse, arriscar, romper com estilos de produção de ideias usuais e contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias. A motivação interna se relaciona ao valor inerente em si mesmo para o alcance da solução de problemas. Quando bem engajado, problemas são compreendidos, pela pessoa, como desafios, que busca soluções próprias espontaneamente, saídas, sendo impulsionada a lançar-se com total entrega a elas, invadida por imenso prazer quando a solução é alcançada (ALENCAR; FLEITH, 2003).
São características da motivação intrínseca as habilidades de autorregulação e o senso de autoeficácia. Ou seja, o talento se desenvolve através dos valores e crenças individuais e de motivações internas. Evolui das predisposições internas do indivíduo, daquilo que por ele é valorizado. Um jovem talentoso pode inventar uma nova peça teatral; pintar um quadro ou elaborar um conceito científico pelo simples prazer intrínseco envolvido na tarefa. No tipo de motivação intrínseca, o ato inventivo e criador é um fim em si mesmo e não um meio. O líder, sob essa perspectiva, serve voluntariamente diante de uma tarefa em que esteja intrinsecamente motivado, pelo simples prazer de liderar um grupo (ALENCAR; FLEITH, 2003; AMABILE, 1997).
A liderança, como uma dança, flui, faz e se refaz, constrói-se em prol e na interação com o outro. Entretanto, é importante destacar que o talento não é resultado
exclusivo de motivações intrapessoais, mas emerge da interação do indivíduo com o ambiente, o contexto sociocultural, que poderá contribuir em maior ou menor grau para a identificação, inclusão, valorização e liberdade de expressão dos diversos talentos (ALENCAR; FLEITH, 2003).
A motivação extrínseca se caracteriza como aquela que impulsiona o indivíduo a se envolver em uma tarefa com o objetivo de alcançar alguma meta externa, como, por exemplo, a recompensa salarial e o reconhecimento dos gestores. A pessoa pode ser estimulada a estudar, criar e engajar-se na tarefa por necessidade de bens materiais, como por exemplo, a promoção no trabalho e aumento salarial. Ou, ainda, pode dedicar-se também por necessidade de status ou afiliação. Em todos esses casos, a necessidade individual é meramente extrínseca (ALENCAR; FLEITH, 2003; AMABILE, 1997).
A motivação restrita a fatores externos, quando buscada em excesso, pode trazer algumas consequências limitadoras da personalidade, como: bloquear o processo de manifestação da criatividade e do talento; gerar um estilo de liderança passiva, por esperar estímulos evocados por pessoas, eventos ou elementos do ambiente; limitar a habilidade de uma pessoa se ultrapassar, extrapolar os seus limites e desenvolver-se (ALENCAR; FLEITH, 2003; BERGAMINI, 1994; 2008).
A motivação, quer seja interna ou estimulada pelo ambiente externo, constitui uma condição essencial para a manifestação do talento de liderança em qualquer área geral, como a intelectual, ou específica, como a científica, social e artística. Porém, infelizmente, apenas um número relativamente pequeno de jovens sabe combinar esses motivadores intrínsecos e extrínsecos, esforçando-se para alcançar um elevado nível de especialização ou realização criativa. Por isso que ambientes educacionais e práticas de ensino enriquecedoras são importantes para o desenvolvimento dos talentos (FELDHUSEN, 1986, 1988).
Diante do exposto, a motivação é um elemento que não pode ser desconsiderado na avaliação educacional diagnóstica da liderança juvenil em sala de aula. Logo, é necessário o envolvimento de incentivos intrínsecos e extrínsecos, para que a motivação do aluno não desapareça e ele veja sentido naquilo que está fazendo no ambiente escolar (ALENCAR; FLEITH, 2003; FELDHUSEN, 1986, 1988; PASSOS, 2013).
Vejamos alguns traços de personalidade comuns nos estudantes motivados: fazem muitas perguntas; demonstram curiosidade; costumam consultar os adultos sobre determinados assuntos; apreciam debates e discussões sobre determinados temas; dedicam espontaneamente a maior parte do seu tempo livre no aprofundamento, pesquisa de atividades extracurriculares ou realizando atividades relacionadas ao tópico do seu interesse. Buscam,
muitas vezes, além de explorar, criar (ALENCAR, FLEITH, 2001; DAVIS, 1997; RENZULLI, REIS, 1997; VIRGOLIM, 2014).
Com o objetivo de avaliar o envolvimento com a tarefa dos estudantes, Renzulli (1986) propõe a observação dos seguintes indicadores: comportamentos, nível de interesse, motivação e empenho pessoal durante a realização das tarefas que o indivíduo se propõe fazer.
Renzulli e Reis (1997), no processo de observação dos mais motivados, sugerem a indicação daqueles alunos que se destacam dos demais pelo interesse incomum por alguma matéria, disciplina ou tópico estudado. Para facilitar a identificação do comportamento diante das tarefas propostas, os autores propõem que os professores utilizem um roteiro de
observação. De posse do referido instrumento, o professor anota o comportamento dos seus
alunos diante de um conteúdo ou assunto abordado, sua criatividade, motivação ou envolvimento incomum frente a uma atividade proposta. Esse instrumento facilita uma visão geral do estudante, os assuntos de seu maior interesse e suas áreas fortes, nível de desempenho em determinada área, formas de aprender, interesses gerais e específicos, no contexto escolar e fora dele.
Apesar dos estudos comprovarem que a motivação é um indicador para a identificação do talento, no que se refere à avaliação focada exclusivamente na dimensão “envolvimento com a tarefa”, verifica-se que são insuficientes os estudos que investigam esse aspecto. Apesar da escassez, podemos citar o estudo de Passos e Barbosa (2011), que avaliaram características de altas habilidades/superdotação junto a um par de gêmeos idênticos no Ensino Fundamental através da Escala de Avaliação da Motivação para
Aprender, fundamentada teoricamente no Modelo dos Três Anéis e nas Portas Giratórias,
ambos idealizados por Renzulli (1990) e Renzulli et al. (1981). Apesar de válido, as autoras concluíram que o instrumento utilizado se mostrou limitado, devido a avaliar a motivação apenas voltada para as tarefas escolares.