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Les opérations d’initiés

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2. La communication d’informations par le conseil d’administration

2.2. Les opérations d’initiés

A linguagem é entendida aqui como prática social, portanto, o foco estará sempre nos usos e efeitos que essa linguagem produz, ou seja, em seu caráter performático. A comum separação entre coisas e significados não se encaixa na abordagem empregada neste texto. Entendendo a linguagem a partir dessa perspectiva, o sujeito se constitui, existe na linguagem.

Com base no giro linguístico19 (RORTY, 1990), é possível pensar todas as ações

humanas no mesmo plano. Isso é possível mediante a consideração de que não existe uma operação de fala que não seja também uma ação. Como é tratada no mesmo plano que as demais ações humanas, a linguagem também é reguladora das ações (IÑIGUEZ, 2004). Nessa perspectiva, quando alguém fala, não expressa um significado, e sim está fazendo algo (AUSTIN, 1962).

Desse modo, a presente pesquisa inscreve-se em uma abordagem construcionista em psicologia social, a qual tem buscado estudar as práticas discursivas e a produção de sentidos no cotidiano. A expressão “práticas discursivas” parece ser utilizada por Spink (2004) para enfatizar o papel da linguagem nos contextos de interação social, partindo do pressuposto de que a linguagem é uma prática social, uma ação. Na abordagem das práticas discursivas, postula-se que os conteúdos se associam em diferentes formas, em função do contexto nos quais estão inseridos, uma vez que “os sentidos são fluídos e contextuais” (p.42). Tal perspectiva, baseada no construcionismo, implica a análise dos aspectos performáticos da linguagem, bem como suas condições de produção.

O construcionismo entende o discurso sobre o mundo não como uma imagem ou meio de mapear esse mundo, mas como um mecanismo de trocas sociais. A pesquisa de

19 Expressão usada para designar mudança que ocorreu na filosofia e nas ciências humanas e sociais cujo

estímulo passou a ser o papel da linguagem. IBANEZ, T. G. O “giro lingüístico”. In: n L. IÑIGUEZ, Manual de Análise do Discurso em Ciências Sociais (p 50-104). Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

base construcionista social interessa-se pelo estudo dos processos pelos quais as pessoas relatam, explicam, narram, ou seja, como as pessoas falam do mundo em que vivem. Baseada em uma concepção não empirista da ciência e das suas formas de investigação, a perspectiva construcionista surge como uma possível saída para a crise paradigmática na qual se encontram as ciências sociais e humanas. Tem suas origens a partir de discussões embasadas em um debate antigo entre empiricistas e racionalistas. Entretanto, o construcionismo busca ultrapassar o dualismo com o qual ambas as teorias estão comprometidas, e localiza o conhecimento nos processos de intercâmbio social (GERGEN, 1985). Dessa forma, a sua investigação difere do enfoque tradicional por transferir o foco da explicação dos processos de conhecimentos internos à mente para a exterioridade da interação humana.

A linguagem passa a ser entendida enquanto constituinte de práticas sociais que podem ser utilizadas no processo de investigação sobre a produção de conhecimento em psicologia, colocando em segundo plano o estudo da mente individual. A linguagem é entendida como uma atividade compartilhada. Assim, sua análise deve enfatizar o relacionamento entre as pessoas, e não o indivíduo, como produtor da linguagem e do entendimento. Dessa forma, é por meio dos momentos interativos, criados a partir das relações entre as pessoas, que se poderá compreender como são construídas as suas crenças, seus significados e valores sobre o mundo e sobre si mesmas.

A noção de práticas discursivas refere-se aos processos de ressignificação, de ruptura, de produção de sentidos, o que corresponde aos momentos ativos do uso da linguagem, nos quais convivem tanto a ordem como a diversidade.

Para compreender a produção de sentidos no cotidiano, faz-se necessário focalizar as práticas discursivas que se processam nas interações cotidianas ou, mais precisamente, na dialogia. Em outras palavras, as práticas discursivas referem-se às diferentes maneiras a partir das quais estamos, por meio do discurso, ativamente produzindo realidades psicológicas e sociais (DAVIES; HARRÉ, 1990, p.03)

Desse modo, o conceito de práticas discursivas está relacionado com o uso da linguagem em ação. Pode-se dizer que as práticas discursivas se referem às formas pelas quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em suas relações sociais cotidianas, ou seja, são as formas como as pessoas se constroem na linguagem.

Nessa perspectiva, a linguagem é considerada uma prática social e as pessoas se produzem na linguagem. Portanto, ao se focalizarem as práticas discursivas nas quais

são performadas masculinidades no Juizado de Violência contra a Mulher, buscamos compreender como são posicionados e como se posicionam os diferentes atores envolvidos nesse cenário.

Vale ressaltar que, em nossa perspectiva, as pessoas se constituem na linguagem, focalizamos assim na dialogia em detrimento da individualidade ou da condição de sujeito. O conceito de “pessoa”, como defendem Spink e Medrado (2004), está no jogo das relações sociais, constantemente inserida em processos de negociação, desenvolvendo trocas simbólicas em um espaço de intersubjetividade, ou mais precisamente, interpessoalidade. Assim, a produção de sentidos pode ser entendida como concomitante à produção de pessoas, em constantes jogos de posicionamentos.

2.2.1. Jogos de Posicionamentos

A noção de posicionamentos baseia-se na discussão trazida por Davies e Harré (1990) para o cenário de uma nova psicossóciolinguística, cujos estudiosos tinham a preocupação de entender mais a influência da linguagem na subjetividade das pessoas. Dessa forma, a noção de posicionamentos possibilita uma compreensão da dinâmica e da fluidez da linguagem, até então cristalizada, estática e ritualística, de acordo com o conceito de papéis.

Os seres humanos são caracterizados tanto pela identidade pessoal continuada como pela descontinuidade da diversidade pessoal. Trata-se de uma mesma pessoa posicionada de formas variadas numa conversação. Embora variadamente posicionada, nós podemos querer dizer que esta mesma pessoa experiencia e demonstra aquele aspecto do self que está envolvido na continuidade de uma multiplicidade de “selves” (p.04).

O posicionamento é um processo interativo e pode acontecer de o que uma pessoa diz posicionar a outra ou de nos posicionarmos. Contudo, não se trata de algo necessariamente intencional (melhor seria dizer consciente). Essa defesa adota que a vida das pessoas é uma produção continua do self.

Os posicionamentos implicam a passagem pelas várias narrativas articuladas às práticas discursivas, que por sua vez possuem vários sentidos por atravessarem várias linhas históricas. Assim, é pertinente a ideia de Davies e Harré (1990) de que

Quem somos é sempre uma pergunta aberta com uma resposta mutável dependente das posições disponíveis nas praticas discursivas nossas e

dos outros e, dentro dessas praticas, das histórias através das quais fazemos sentido de nossas vidas e da dos outros. As histórias – ou se preferirem, as representações sociais – estão localizadas em um número de discursos distintos e, portanto variam dramaticamente em termos da linguagem utilizada, dos conceitos, das questões e dos julgamentos morais aí relevados e das posições disponíveis ai dentro (p.46).

A partir da relevância dada à interação, é possível um mundo fluído de múltiplos posicionamentos embasados em múltiplas narrativas. Faz-se necessária a aceitação das múltiplas narrativas presentes nas práticas discursivas, visto que uma mesma conversação pode destacar múltiplas teorias sobre os objetos focados. Analisar tais narrativas, na tentativa de compreendê-las, parece solicitar a aceitação da argumentação que abrange os múltiplos posicionamentos do eu que organizam os argumentos.

Butler (2008) contribui para a compreensão dos jogos de posicionamentos com sua noção de “matriz de inteligibilidade” a partir da qual gênero é a matriz que permite o sujeito identificar a si e ao outro, pois lhe permite uma certa inteligibilidade de seu lugar e atuação no mundo; logo identidades são efeitos de práticas discursivas, da linguagem em uso. Além de que, a análise das relações de gênero requer que consideremos a noção de pessoa inserida no universo simbólico de suas relações (SARTI, 2004).

2.2.2. Performances

O termo performance faz referencia tanto ao conceito de performático de Butler (1997) como à arte de atuar. Em inglês performance significa atuação, desempenho, rendimento. Seria possível entender que performances são atividades desenvolvidas por pessoas e/ou grupos na presença de outros. Interessa a noção de performance como não original, sendo sempre a cópia da cópia (KLINGER, 2007).

Em seu texto sobre os atos de fala performativos, Butler (1997) trata da teoria geral da performatividade linguística. Entende-se que essa discussão ajuda a identificar como são performadas masculinidades no cenário do juizado. A linguagem executa uma ação e essa teoria sustenta que o conteúdo de determinados discursos (no caso as narrativas produzidas no juizado) só pode ser entendido a partir da ação que a linguagem executa.

A performatividade estaria presente nos usos que uma figura de poder exerce em determinados atos de fala. Ao se considerar a fala como uma conduta, a enunciação é vista como altamente eficaz, não como uma forma de representação do poder, mas como o próprio poder. A autora fala sobre a linguagem do ódio (do discurso racista) e sua legitimação pelo Estado. É possível estender suas considerações para as narrativas produzidas no cenário da pesquisa e que só existem mediante a ratificação do Estado, mais precisamente a partir de uma Lei que diz o que vem a ser violência contra a mulher e a julga enquanto crime.

O poder atribuído à Lei é de uma absoluta agência, performatividade e transitividade com os que a solicitam e com os que julga. Não existe a violência (enquanto crime) no sentido pleno do termo, até que um tribunal a julgue enquanto tal. O que existe em uma audiência é uma denúncia que será julgada, e ai, sim, é possível determinar (sentenciar) se houve um crime de violência conjugal ou não. Então, é o Estado (com seu poder) que determina e qualifica o que levou aquele casal ao juizado (BUTLER, 1997).

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