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Factorisations avec un facteur commun

Givón (2001, p. 302) afirma que a falta de uniformidade entre as línguas, quanto à marcação morfológica da modalidade, deve-se ao fato de as modalidades serem gramaticalizadas diacronicamente através de uma grande variedade de domínios-fonte. Todavia, ao contrário da imprevisibilidade natural em relação à marcação morfológica da modalidade, a distribuição das principais modalidades através de contextos gramaticais é de certa forma previsível e universal, sendo que os principais contextos gramaticais apresentados por Givón (2001, p. 302), estão aqui sintetizados em modalidade em verbos e advérbios; modalidade e tipos de oração; modalidade nas orações adverbiais

irrealis – conforme descrevemos a partir da próxima subseção –, pois são contextos mais relacionados ao uso do FS.

Para o autor, os tipos oracionais que tradicionalmente são agrupados dentro do irrealis possuem coerentemente traços em comum, conforme Givón (1995, p. 167):

 Eles tendem a ter uma projeção de futuro.  Eles permitem uma interpretação não-

referencial de SNs sob seu escopo.

 Tendem a se agrupar dentro de dois amplos grupos submodais: epistêmico e deôntico- avaliativo.

 Não importa se epistêmico ou deôntico, todos eles tendem a envolver interação de baixa certeza e, portanto, ansiedade.

 Ao contrário do realis, eles tendem a envolver grande flexibilidade de perspectiva modal na interação com o interlocutor.

Isso posto, passamos a descrever de forma concisa os meios/formas de codificação do irrealis na língua.

3.3.2.1 Modalidade em verbos e advérbios

Ao abordarmos a modalidade em verbos e advérbios, cumpre inicialmenteenumerarmos os principais itens verbais de irrealis inerente, que são: querer, gostar, sonhar, pensar, acreditar, achar, desejar, pretender, conseguir, poder, precisar, necessitar, dentre outros (Givón, 2001, p. 304). Em seguida, também vale partirmos da distribuição da modalidade entre os tempos e os aspectos, sintetizada a partir de Givón (2001, p. 304), conforme o quadro seguinte:

Quadro 5 – Distribuição da modalidade entre tempos e aspectos

Fonte: Givón (2001, p. 304)

Por fim, no que concerne aos advérbios, Givón (1995, p. 117) afirma que lançam um escopo irrealis sobre a proposição a que se vinculam os advérbios epistêmicos, como: talvez, provavelmente, possivelmente, supostamente, certamente, presumidamente. Por exemplo: Provavelmente ela assistiu ao show.

3.3.2.2 Modalidade e tipos de oração

Entram, nessa categoria, os seguintes subgrupos: (i) complementos oracionais (orações objetivas diretas): verbos de modalidade e auxiliares modais; verbos de manipulação; verbos de percepção-cognição-enunciação; (ii) orações relativas; (iii) atos de fala não-declarativos; (iv) orações adverbiais. O primeiro deles não será tratado aqui, visto não estar relacionado aos contextos oracionais de uso do FS. Quanto aos outros, vejamos:

a) Orações relativas

As orações relativas que modificam nomes (SN) referenciais (definidos ou indefinidos) ficam sob o escopo da pressuposição, a menos que algum operador nãofato intervenha. O único caso em que as relativas caem sob o escopo do irrealis é quando elas forem restritivas e o seu nome (head noun) for modificado, segundo Givón (2001, p. 310):

 Non-Ref head noun

Ex: I know of no woman who came in late. (Eu não sei de nenhuma mulher que chegou atrasada).

MODALIDADE TEMPO ASPECTO

Fato Passado

Presente Perfeitoperfeito progressivo

Habitual Repetitivo

b) Atos de fala nãodeclarativos

Certos atos de fala, tais como comando, pedido, exortação, estão relacionados a eventos futuros, por isso são irrealis. Quanto mais manipulativos eles forem, mais associados ao submodo deôntico- avaliativo do irrealis, segundo Givón (2001, p. 312). Como ilustração, temos:

Comando: Apague a luz!

Pedido: Você poderia apagar a luz?Exortação: Vamos apagar a luz.

Perguntas sim/não (yes/no question): Ela apagou a luz?

c) Orações adverbiais

As orações adverbiais subordinadas tendem a vir sob o escopo de pressuposição, irrealis e negação. De acordo com o autor, as adverbiais com típico escopo irrealis são:

 Oração adverbial temporal:

Ex: Quando você CONSEGUIR um empréstimo, eu venderei meu carro.

 Oração adverbial condicional:

Ex: Se você CONSEGUIR um empréstimo, eu venderei meu carro.

 Oração adverbial de finalidade (purpose):

Ex: Para você conseguir um empréstimo, eu vou ter que assinar.

Dentre os tipos oracionais apresentados, destacamos os contextos de orações adverbiais, pois é nessas construções que encontramos frequentemente dados do FS no português, por isso elas são o tópico da próxima subseção.

3.3.2.3 A modalidade nas orações adverbiais irrealis

Descrevemos com mais aprofundamento a caracterização de Givón (1995; 2001) para as adverbiais condicionais irrealis e certas

adverbiais temporais (when-clauses) que se comportam semelhantemente àquelas condicionais, por serem contextos que cabem o uso FS em português.

Givóndivide as orações adverbiais condicionais em condicionais contrafactuais e condicionais irrealis. Nas contrafactuais, o valor de verdade é firme e negativo. Esse tipo de condicional envolve estados ou eventos que podem ter ou teriam tido um valor de verdade – se outros estados ou eventos fossem verdadeiros. Mas, desde que esses outros estados ou eventos sejam de fato nãoverdade, então a proposição condicional também não será verdadeira. Por exemplo: If she had known, she would have done it. (GIVÓN, 2001, p. 332).

Já as orações condicionais irrealis caem sob o escopo da modalidade nãofato. Mais do que outras orações irrealis, elas não têm valor de verdade. Além disso, a verdade delas depende da verdade das orações principais associadas a elas, as quais, via de regra, não têm valor de verdade também. Geralmente condicionais irrealis têm uma futuridade implicada à própria oração principal, que vai aparecer marcada tanto pelo futuro como por um modal ou por outro operador irrealis, apresentadas em Givón (1990, p. 829):

a. Modal: If you finish on time, you can have this (Se você terminar em tempo, você poderá ter isto. ) b. Futuro: If she comes, you will see her.

(Se você vier, você a verá. )

b. Imperativo: If you see him, please tell him that.. . (Se você vir ele, por favor, conte a ele que.. . )

c. Pedido indireto: If she comes, I would like to know (Se ela vier, eu gostaria de saber. )

e. Marcador de certeza: If she comes, then I think we’re in good shape

(Se ela vier, então eu penso que nós estamos em boa forma. )

Observe-se que todos esses exemplos descritos pelo autor, quando transferidos para o português, requerem o verbo no FS nas prótases, confirmando a expectativa de que esses contextos contemplam os usos do FS.

Ainda segundo Givón (1984, p. 830), em muitas línguas, condicionais irrealis são marcadas identicamente em adverbiais temporais, como ‘when-clauses irrealis’, tanto que a sutil diferença entre elas é inferida pelo contexto. Tal sobreposição também é possível em inglês, como no exemplo When you bring to me, I’ll pay you. Numa interpretação condicional dessa sentença, o falante tem baixas expectativas epistêmicas em relação à verdade eventual da oração condicional, enquanto numa interpretação temporal, o falante tem maior expectativa quanto à verdade da proposição.

Esse primeiro olhar sobre os contextos adverbiais temporais e condicionais é relevante, posto que, no capítulo 5, quando discutirmos os resultados encontrados, será visto que uma das hipóteses relaciona graus de certeza epistêmica do falante em adverbiais à marcação gramatical do futuro e do subjuntivo, ainda de acordo a visão de Givón (op. cit).

Por último, vale ressaltar que a distinção realis e irrealisse sustenta principalmente dentro da perspectiva givoniana, sendo questionada por autores, como Bybee et al. (1992), em alguns aspectos, principalmente no que tange ao fato de essa distinção binária ser raramente realizada em uma língua através dedistinção morfológica. Contudo, Givón defende sua visão, afirmando, sobretudo, que a modalidade não é uma categoria mental discreta, binária e simples, diferenciada em termos morfológicos, mas sim uma megacategoria complexa, sendo o irrealis uma dimensão escalar dessa categoria e, “como tal, ela se intersecta com uma multidão de outros códigos gramaticais semânticos e categorias pragmáticas.” (Givón, 1995, p. 167).

Na verdade, essa diferença entre a visão de Bybee e Givón para a modalidade se justifica em termos de proposta central de cada autor. Enquanto Bybee (1985) volta seu trabalho à análise dos domínios conceituas, como tempo, modo, aspecto e modalidade através da comparação entre forma e função, ou seja, com um olhar mais semântico, inclusive através de um banco de dados interlinguístico de base morfológica (GRAMCATS), Givón (1984; 1995; 2001) prioriza o que denomina de estudo da gramática, sintaxe no discurso multiproposicional.

A discussão entre os dois olhares para a modalidade mostra-se interessante nessa tese, pois se relaciona à diferença entre o tratamento dado à modalidade que adotado no anterior (REIS, 2010) e no presente estudo: naquele, realizamos uma análise dos contextos discursivos de uso do FS investigando todos os itens e construções irrealis, através de

uma abordagem mais alargada. Nele buscamos, sobretudo, relacionar a função/significado do FS à expressão de cada modalidade: epistêmica, orientada ao agente e orientada ao falante, no enunciado composto principalmente pela construção subordinada que abriga o dado de FS. Sobre essa questão, tratamos melhor na seção a seguir.

3.3.3 A expressão das modalidades nos enunciados com o futuro