A Teoria da Categorização do EU de Turner – modelo mais perceptivo-cognitivo do que so-
cial – não supera a dominante individualista na compreensão dos elementos da identidade social, como dá continuidade e reforça a visão dicotómica do continuum individual-social. Parecerá pa- radoxal a proposta de um continuum redundar numa dicotomia; mas ver-se-á que esta reinter- pretação do modelo de Tajfel resulta na sua «radicalização psicológica» (Amâncio 1993, 298).
Carmencita Serino salienta que «A pesar de que hay una continuidad» entre a TIS e a TCEu, «también se introducen algunas novedades», a saber: a) descentrar da (anterior) importância dos
138 Futuramente abreviada por TCEu. 139
Cf. Turner (1987) com Hogg, Oakes, Reicher e Wetherell. Sobre a mesma, cf. Deschamps e Devos 1996; Amâncio 1993a; Montero 1996; Serino 1996; e Hogg 1992. Brewer, Fiske e Neuberg constatam que a TCEu não se restringiu à missão explicativa (inicial) das bases psicológi- cas dos grupos, tendo contribuído para a análise dos «processos de categorização na percepção social e na interacção».
componentes motivacionais; b) aprofundar, por explicitações das condições contextuais da categori- zação, o processo de categorização; e c) complexificar a leitura da comparação e da categorização (inter e intra-categoriais), a partir da noção de continuum de Tajfel (1996, 177 e ss.).
John Turner aprofunda o continuum interpessoal/intergrupal140 da análise da acção social
por Tajfel para, posteriormente, estabelecer correspondências: i) entre o pólo dos comportamentos interpessoais e diferenciação entre SI mesmo-OUTROS, e a identidade pessoal, o SELF; e ii) entre o
pólo dos comportamentos intergrupais e diferenciação entre grupos NÓS-ELES, e a identidade social.
A distinção entre os dois modos identitários é supostamente clara: a identidade pessoal refere-se às características de personalidade, intelectuais, físicas e singulares; os componentes da identidade social são, como ensina Lígia Amâncio, restringidos ao «conjunto das auto-definições em termos de catego- rias de pertença». Portanto, Turner talha a fissura entre as identidades social e pessoal.
Em boa verdade, a hipótese do continuum conduz a um verdadeiro impasse teórico: se a competição social distancia o indivíduo do pólo pessoal, contraditoriamente, neste modelo «l'identité personnelle peut s'acquerir (...) en dehors du champ des relations sociales, et cette forme d'identité remplace l'identité sociale elle-même.» (Lorenzi-Cioldi 1988,17).
Ao procurar dar conta das componentes psicológica e sociológica da identidade Turner distingue três «níveis da definição de si mesmo» quanto ao grau de abstracção:
1.º nível superior (muito abstracto): definição de si próprio como EU-SER HUMANO,
subjacente à comparação entre espécies;
2.º nível de categorização intermédio: descrição do EU como membro de um grupo (EU-
GRUPO DE PERTENÇA), fundando a comparação (intra-espécie) inter-grupal;
3.º nível subordinado de categorização: diferenciação EUINDIVIDUAL/OUTROS pela persona-
lidade ou características singulares individuais, baseando-se na comparação inter-pessoal.
Mas o centro da atenção do autor e colaboradores é o nível intermédio (EU-GRUPO DE PER- TENÇA), resultando a categorização ternária num «antagonismo funcional», sobretudo entre os segun-
do e terceiro níveis «en el sentido de que la emergencia de uno impide la emergencia del otro, y que
el grupo no puede producirlos simultaneamente».141No limite, tal relação significa que a identidade
social implica uma espécie de recomposição que dilui a identidade pessoal – a despersonalização: «Los câmbios hacia la identidad social producen la despersonalización de la percepción y del com- portamiento del yo» (Oakes, Haslam e Turner 1996, 114). Serino assinala que tal complexificação da relação entre as categorizações inter-categorial !diferença! e intra-categorial !semelhança! é uma
140 Em Tajfel estes extremos apriorísticos não eram definidos como reais mas como «continuum teórico/hipotético».
das novidades da TCEU porque, agora, a diferença e a semelhança são concebidas de modo mais
relacionado e interdependente. Contudo, a dominante psicológica vai a par do extremar da explica- ção dicotómica pois a interdependência entre semelhança e diferença é de modo invertido (1996, 181). Afinal, como diz Amâncio, a TCEU acaba por reforça a dicotomia individual/colectivo: «O
continuum interpessoal-intergrupo transforma-se numa oposição entre o self e o grupo (...) à qual corresponde uma oposição entre uma identidade pessoal (...) e uma identidade social» (1993, 298).
Da elaboração de Turner resulta, pois, «que nos encontramos prisioneros de una lógica dico- tómica que hace de la semejanza y de la diferencia, de la identidad social y de la identidad perso- nal, dos polos que son dependientes negativamente» (Deschamps e Devos 1996, 48). E fica a im- pressão de a pessoa não ser um actor social porque, quando se torna social fica a perder a sua indi- vidualidade pessoal: os grupos são, apenas, o meio de obter a positividade individual; e a relação inter-grupos pressupõe homogeneidade (perceptiva e comportamental) e despersonalização.
Procurando reciclar estes conteúdos para a Problemática da presente pesquisa, deduz-se que a TCEU tende a subscrever uma visão singular dos fenómenos designados por «pobreza» ! EU-INDI- VIDUAL/ OUTROS. No caso de uma eventual leitura social dos, ditos, «pobres», a TCEU arrumá-los-ia
aqueles numa categoria homogénea e geral ! EU-GRUPO DE PERTENÇA.
Mas há mais. Aplicando o princípio do metacontraste, a categorização subjectiva transforma
a distância entre os «pobres-individuais» e os «Outros-indivíduos-não pobres» ! EUINDIVIDUAL-E-
GRUPO DE PERTENÇA/ OUTROS ! em percepções e relações de diferença social. Neste sentido, a rela-
ção de diferença social «pobres»/ «não pobres» caracterizar-se-á (ao que parece, legitimamente para Turner), pela aversão, o desacordo e o conflito. Daí que esta teoria não avance pistas i) nem para a diversidade das experiências sociais (de desqualificação, ou não); ii) nem para o entendimento ! sub- jectivo e colectivo ! da aceitação relacional, e da própria transformação social, dessas condições-Ou- tras-de-não-pertença.
Parece que, à percepção-avaliação-configuradora de práticas individualistas-homogeneizado- ras, se alia uma percepção-avaliação configuradora de práticas de indesejabilidade-evitamento e, até, de exclusão sociais.
A finalizar esta 1.ª PARTE, fica-se com um duplo reforço reafirmativo: quer o da distinção
clássica entre os componentes pessoais e colectivos da identidade, quer o do princípio da mútua exclusão desses componentes, ou pessoais, ou sociais. E, subjacente àquela distinção e a este prin- cípio, assoma a visão do social exterior e coercivo face aos sonhos, desejos, sentimentos, necessi- dades, razões e práticas pessoais ! solução redutora, ao esquematizar a construção relacional dos sujeitos sociais em dois pólos, sobrevalorizando um deles.
«Vivemos no seio de fenómenos vagos, de coisas imprecisas e situações perpetuamente variáveis nas quais nos é necessário decidir, reagir ou agir, tomar posição. No entanto, por mais vagas que elas sejam, todas essas coisas surgem à nossa consciência como objectos conceptuais, damos-lhes nomes, e efectuamos sobre elas operações, mentais primeiro, práticas em seguida, à nossa conta e risco.(…) O mundo não é um laboratório onde os fenómenos se encontram decantados, isolados, controlados a bel-prazer do experimentador que com eles joga para descobrir uma verdade transcendente, incontestável, pois que depurada sob a forma de correla- ções fortes entre variáveis evidentes. Falamos de temperatura e julgamos o nosso bem-estar, falamos de justiça e julgamos dos nossos interesses, falamos do Bem e do Mal e pensamos em investimentos.».(Moles e Rohmer 1995, 9, sn ).
Se a Teia do Pessoal e do Social parece ter sido esventrada pelas análises sociológicas e psi- cológicas que ocuparam a 1.ª PARTE deste CAPÍTULO, a perspectiva sociológica da construção
social das identidades conta com vários críticos continuadores. Portanto, esta 2.ª PARTE dedica-se
à perspectiva sociológica, relacional e transaccional das identidades sociais. Para tal, seguir-se-á a reflexão relativa à modernidade tardia e à requalificação conceptual do Actor e do Agente sociais em Sujeito da Acção, com uma breve menção a estudos Psicossociais.
Na verdade, actualmente dispõe-se de formulações alternativas às duas críticas antes apon- tadas quer ao modelo psicológico-social da Identidade Social – esvaziamento social da própria noção, e dicotomia pessoal/ social – quer à visão sociologista das identidades. Tais formulações têm vindo a superar estes três limites, bem como outros dois obstáculos transversais às abordagens até aqui anali- sadas, e fulcrais para a presente pesquisa: a conceptualização das identidades sociais negativas e a concepção androcêntrica das identidades.
De entre as explicações alternativas, menciona-se, no ponto 1, como a hipótese da co-va- riação ilustra que o sujeito não escapa ao social. Nos pontos 2 a 6 detemo-nos na análise sociológica e aprofundada das variadas lógicas accionadas pelos Sujeitos sociais. Duas focalizações invocadas que convergem para a requalificação científica da compreensão ! formas de pensar ! dos sujeitos- cidadãos, investigadores ou não. Compreensão que pode, por seu turno, verter para a requalificação social das identidades construídas pela experiência da desqualificação relacional: ‘certas’ identi- dades, formas de ser, agir, sentir e sonhar na cultura contemporânea do risco e das oportunidades.