Nas idas e vindas ao Centro de Referência, decidi, a partir de conversa com meu orientador, manter contato com Carmen para saber de sua disponibilidade em participar na pesquisa como minha interlocutora. Conhecera Carmen há cinco anos, em um contexto que, para fins de guardar o seu anonimato não poderei me referir aqui. Por um lado, tinha a preocupação que essa relação anterior atrapalhasse a atividade de pesquisa, por outro lado, imaginava que esse mesmo aspecto poderia facilitar a colaboração daquela que se tornaria minha principal interlocutora.
Retomei o contato com Carmen através de ligação telefônica. Falei brevemente da minha condição de mestranda e da proposta da pesquisa. Imediatamente ela se dispôs a participar como uma de minhas interlocutoras. Na mesma semana, em uma noite de quinta-feira, realizamos nosso primeiro encontro na clínica onde atendo como psicoterapeuta. A escolha do local aconteceu em função da proximidade com nossas casas e da facilidade em reservar uma sala no horário noturno. Os outros encontros acabaram acontecendo nesse mesmo local, pois era janeiro, mês que os(as) profissionais costumam gozar férias, e, consequentemente, foi relativamente fácil o acesso às salas, inclusive aos finais de semana. Precisávamos intensificar nossos encontros, uma vez que os prazos para realização do trabalho de campo estavam extrapolados e, além disso, Carmen, que estava de férias, retomaria suas atividades profissionais na primeira semana de fevereiro.
Nosso (re)encontro foi marcado por um abraço e pela expressão de gratidão de minha parte pela disposição de Carmen em dialogar sobre meu Projeto de Pesquisa. A gratidão foi mútua, pois, ao indagar, na nossa última conversa, sobre como tinha se sentido em nossos encontros e agradecer sua colaboração, Carmen também se mostrou grata a mim e expressou o desejo de que o “dar voz” a sua experiência com o abuso sexual da filha, por meio desse estudo, colabore com outras mulheres em situação semelhante, conforme demonstra no depoimento a seguir7. Assim, penso que a reciprocidade foi um dos aspectos determinantes na decisão de Carmen em se tornar minha interlocutora.
[...] e assim, é muito bom contribuir pra uma coisa dessas, porque as pessoas têm muita vergonha de falar nisso, entendeu? E as crianças são abusadas e ficam caladas? E é assim que se resolvem as coisas? É, assim, né?! E a gente sabe que quando uma criança é abusada e não é trabalhado, muito provavelmente essa criança se tornará um abusador, num é isso? Num pode, né?! E as mulheres não podem ficar carregando essa culpa. Veja, eu sou culpada, eu não cuidei bem dos meus filhos... Veja, é um horror, é um martírio, Virgem Maria! Como se não bastasse todo o trabalho doméstico, num achar todo o trabalho doméstico à toa (risos), ainda mais carregar... Porque é um peso, é um peso, viu? Um peso, um peso. Eu me lembro que era uma canseira... Sei lá o que era aquilo. Quando eu consegui tirar aquilo literalmente a gente tira um peso das costas, assim. A gente respira, olha o mundo diferente, porque é um horror.
Eu também me sinto agradecida, porque veja, é como eu lhe disse, é uma dor inútil que eu espero que ninguém sinta isso, né?! Mas, já que eu tive essa dor, que pelo menos sirva de alerta pras outras pessoas, né?! Como foi aquela coisa absurda daquela menininha de 9 anos de idade que era abusada pelo padrasto e engravidou de gêmeos. O que é aquilo? Que tragédia, pelo amor de Deus. Aí foi naquela confusão que Dom José excomungou (risos) todo mundo.
Nesse primeiro encontro, seguido de mais quatro, que totalizaram sete horas e cinco minutos, gravados com prévia autorização de Carmen, retomei a proposta da pesquisa, detalhando os objetivos e a metodologia, bem como o que me movia a realizá-la e, imediatamente, ela confirmou a disposição manifestada no contato telefônico em se tornar minha colaboradora. Decidi iniciar a pesquisa naquela mesma noite e após a leitura do Termo de Consentimento Livre, solicitei a Carmen falar sobre sua história de vida, do modo que achasse melhor e começando por
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Por questão de sigilo retirei do depoimento o trecho em que Carmen se refere ao motivo que a faz sentir grata a mim.
onde quisesse. Nessa mesma noite, dissolveu-se o receio de que o contato prévio que tive com ela e a filha gerasse confusão de lugares e atrapalhasse a atividade da pesquisa. Permaneceu, entretanto, a preocupação com a possibilidade de a fala sobre o abuso sexual sofrido por sua filha Helena desencadear sofrimento em minha interlocutora.
Desde o nosso primeiro encontro, Carmen me interpelou em relação à proposta da pesquisa e a acontecimentos atuais de minha vida familiar, sobre os quais ela soube por pessoas comuns à nossa convivência. Além disso, fui alvo de suas “mangações”, em pelo menos uma ocasião, quando ao iniciar a gravação de nossa conversa equivoquei-me em relação à data do nosso encontro e ao seu nome fictício, ocasião em que ela, às gargalhadas, comentou: “todo psicólogo é desorientado”.
Por iniciativa de minha interlocutora, geralmente o início e o final das entrevistas eram marcados por conversas relacionadas a assuntos que não se limitavam ao foco da pesquisa que, via de regra, guardavam relação com fatos cotidianos, acontecidos nos intervalos de nossas encontros: a caminhada na praia por orientação médica, a ida à festa na casa de um amigo, o reencontro com colegas do curso que não pôde dar continuidade, o resultado do vestibular da filha...
Essas particularidades de nossa relação e os posicionamentos assumidos por Carmen confirmam, a meu ver, a compreensão de Wagner (2010) de que não somos apenas “nativos”, somos todos, “nós” e “eles”, “antropólogos”, ou seja, a experiência criativa de atribuir sentido ao outro não é exclusividade de quem pesquisa, aqueles que são estudados também pensam e buscam dar sentido a sua presença entre eles. Assim, ao olhar para Carmen ela me olhava e também fui “inventada” por seu olhar.
Testemunhar uma experiência de abuso sexual na própria família e, posteriormente, trabalhar com mulheres cujas filhas foram violentadas sexualmente, permite-me afirmar que o meu objeto de estudo é familiar, ou seja, é culturalmente e socialmente próximo, no sentido que é empregado por Gilberto Velho (1978). Embora compreenda que sempre existe uma relação de implicação do(a)
pesquisador(a) com o objeto de estudo, adentrar esse caminho foi desafiante e tenso, pelo menos por causa de dois riscos. O primeiro era de centrar a pesquisa no meu próprio “umbigo” e não criar condições de distanciamento que possibilitassem a produção de um material denso, capaz de potencializar a produção de conhecimento no campo de estudo no qual estou situada. O segundo risco era de absolutizar as noções já concebidas sobre “quem são as mães de crianças violentadas sexualmente” e sobre os modos como elas se posicionam na cena do abuso sexual.
Dado que toda pesquisa implica riscos e que a minha decisão não foi a de escapar do caminho inicialmente desenhado, mas mergulhar em suas águas, buscando suportar a desestabilização e desorganização que trilhá-lo suscitava, eu fui convocada a aceitar a recomendação feita pela professora Roberta Campos (2013) de “estranhar o familiar”, quando, em sala de aula, comentei sobre minha familiaridade com o meu “objeto” de pesquisa. Segundo Velho (1978), “estranhar o familiar” só é possível quando somos capazes de confrontar intelectual e emocionalmente diferentes versões e interpretações a respeito de um mesmo acontecimento ou situação. Nessa perspectiva, “estranhar o familiar” não significa necessariamente torná-lo exótico, mas vê-lo “como uma realidade bem mais complexa do que aquela representada pelos mapas e códigos básicos nacionais e de classes através dos quais fomos socializados” (VELHO, 1978 p. 3,).
Em decorrência desse movimento de “estranhar o familiar”, fui desafiada a reconhecer que minha versão é uma em meio a tantas outras existentes a respeito do tema que estudo e a cultivar a abertura para me deixar ser interpelada sobre meus pontos de vista, de modo a não tomá-los como verdades absolutas.
A experiência de conhecer minha interlocutora antes da realização da pesquisa não tolheu a minha capacidade de estranhá-la. Mesmo conhecendo vários aspectos de sua trajetória de vida e dos modos como ela se posicionou no acontecimento do abuso sexual da filha, eles ganharam outros sentidos em função da especificidade da natureza da atividade de pesquisa. Ademais, aspectos tocados por Carmen na pesquisa não foram mencionados anteriormente e o inverso também aconteceu.
Todavia reconheço: “estranhar o familiar” foi atravessado por tensões. Por exemplo, quando julguei que determinados pontos de vista, compartilhados por Carmen antes da pesquisa e que poderiam fortalecer posicionamentos teóricos meus, foram pouco abordados por ela nos nossos diálogos. Essa situação me faz refletir sobre como eu imaginava, a priori, ser conhecedora do que iria me deparar no trabalho de campo, e, deste modo, assumi, ainda que não intencionalmente, uma postura metodológica, mencionada por Silva (2008), de tentativa de estagnação e de controle do caos da vida para observá-la, registrá-la e analisá-la, como também de tomar a teoria como modelo a partir do qual as pessoas são confrontadas. Em contrapartida a essa perspectiva, o autor pondera que não é possível o pesquisador(a) assentar-se em um lugar para simplesmente observar os processos de subjetivação - processualidades abertas, afetáveis e afetantes - e apreender todo o movimento em sua amplitude e profundidade. Há, o(a) pesquisador(a), que vivê- los, que se deixar ser afetado(a) pelo que investiga e exercitar pensar a partir do movimento próprio da vida o devir, movimento trágico de criação e de destruição, confluindo uma dupla afirmação: o pensamento afirmando a vida, a vida ativando o pensamento.
Sentir na própria carne que minha interlocutora “pôs em xeque” meus referenciais teóricos, evocando que a minha compreensão sobre ela não estava dada a priori, foi ao mesmo tempo condição e afirmação de que não ficamos aprisionadas à nossa relação anterior, posicionando-nos em novos lugares, segundo a especificidade da natureza da atividade de pesquisa. Ademais, fui desafiada a liberar-me de olhar para o que estava vivendo em campo com “óculos” através dos quais vinha mirando Carmen e outras mulheres/mães com as quais eu já tinha me relacionado profissionalmente em decorrência de suas filhas terem sido abusadas
sexualmente. Isso não significou negar a influência que minha experiência anterior
exerce sobre o meu estudo, mas relativizá-la. Cardoso de Oliveira (2000) defende que a relativização é uma atitude epistêmica, por meio da qual o(a) pesquisador(a) escapa da ameaça de ver o mundo com lentes etnocêntricas.
Em diversas ocasiões fui “tocada” pela fala de Carmen, especialmente quando ela compartilhou sua disponibilidade para adoção, a dor de ter três dos seus
quatro filhos abusados sexualmente e a culpa pela violência cometida contra Helena. Além disso, fui surpreendida com a afirmação de que sua filha mais velha também fora abusada pelo pai.
Minha interlocutora mostrou-se sempre disponível a conversar sobre sua história de vida, em torno da qual se debruçava longamente, falando de forma rápida, alta e animada. No nosso terceiro encontro, quando ela iniciou a narrar o
abuso sexual de Helena, sua voz baixou de volume e pela primeira vez mobilizou-se
mais emocionalmente, chorando. Ainda assim, não foram raras as vezes que ao abordar esse assunto ela se deu a rir em uma manifestação, para mim, que a experiência com a violência da filha não lhe roubou a “veia cômica”. Ressalto, nem sempre foi possível romper com os procedimentos tradicionais de entrevista, centrados em perguntas e resposta, mas quando isso acontecia o diálogo fluía facilmente.
Mesmo quando extrapolávamos o horário de término de nossos encontros, Carmen seguia a conversa. Apenas no penúltimo encontro, depois de um dia sobrecarregado com as atividades profissionais e os cuidados com os(as) filhos(as), mostrou-se sonolenta e finalizamos a entrevista mais cedo. Além disso, ela mostrou- se compreensiva em retomar a narrativa de acontecimentos de sua história de vida compartilhados no nosso primeiro encontro, cuja gravação em parte foi perdida, em virtude da minha pouca habilidade com os equipamentos eletrônicos.
Carmen também não se furtou em afirmar de forma humorada: “graças a Deus!”, com o meu comentário de que estávamos chegando ao fim de nossos encontros. Quando, aos risos, retruquei “graças a Deus, é?!”, ela imediatamente, às gargalhadas, afirmou: “é pro seu trabalho caminhar, né, criatura?!”. Senti que era tempo mesmo de nos despedirmos.