A empresa Safiestela está dividida em três grandes partes. Uma das partes destina-se ao tratamento de água, no qual se controla todos os sistemas de água da produção. A parte do desmame é outra área, englobando a sala dos reprodutores, a sala de incubação, a sala de cultivo larvar, a sala de desmame e as salas de alimento
vivo (rotíferos e artémia). Todas as salas pertencentes ao desmame têm as medidas de segurança necessárias, nomeadamente pedilúvios e material próprio, para que não haja qualquer tipo de contaminação. A parte do desmame é, ainda, provida da sala de ração e de um laboratório. A outra grande área da Safiestela pertence à pré-engorda.
Cada uma destas três áreas têm equipamentos próprios, incluindo galochas e oleados, para evitar a transmissão de contaminações.
Reprodutores
Os reprodutores utilizados na piscicultura são capturados no meio natural, uma vez que produzem ovos viáveis e em maior quantidade, ao contrário dos reprodutores F1, ou seja, reprodutores descendentes de peixes em aquacultura (Imsland et al., 2003; Norambuena et al., 2013; Villanueva et al., 2014). Isto revela o principal problema na produção de linguados, pois não se consegue fechar o ciclo de produção, devido à perda de interesse que os machos revelam para com as fêmeas na época reprodutiva. Isto faz com que seja necessária a captura de peixes selvagens e posteriormente a sua aclimatização às condições da piscicultura, nomeadamente à alimentação inerte (Norambuena et al., 2013; Morais et al., 2014; Villanueva et al., 2014). Esta dependência da captura de exemplares selvagens é a maior ameaça da aquacultura de linguado senegalês, visto não ser possível a domesticação desta espécie.
Os reprodutores são capturados no meio selvagem e mantidos em quarentena num espaço separado do da produção (Morais et al., 2014). Os animais são inspecionados, com o objetivo de verificar se existem feridas que necessitem de tratamento. Para um melhor despiste de doenças é ainda recolhida uma amostra de sangue para posterior análise. A todos os reprodutores é colocado um chip para identificação do sexo dos animais. Nesta fase, inicia-se a habituação ao alimento inerte e ao contacto com as pessoas.
Finda esta fase, os reprodutores são transferidos para a sala dos reprodutores que é composta por quatro divisões diferentes, cada qual com 3 a 4 tanques. Cada sala corresponde a uma estação do ano, permitindo que a produção de ovos seja mantida durante todo o ano. Assim, a piscicultura pode contar com ovos viáveis todos os meses, conseguindo, assim, uma produção contínua de ovos. As diferentes estações do ano, que dão o nome às quatro salas dos reprodutores, identificam a época na qual os peixes irão dar ovos (Figura 4).
As desovas são induzidas pelo aumento gradual da temperatura da sala, até atingir 20-21°C. Com o aumento da temperatura verifica-se uma maior atividade dos reprodutores e um aumento da ingestão de alimento. As salas que não têm como objetivo a desova são mantidas a temperaturas inferiores a 16 °C, o que induz uma regressão das gonadas das fêmeas (Cañavate, 2005) e, consequentemente, à paragem da emissão dos ovos, à diminuição da quantidade de alimento inerte ingerido e menor movimentação dos peixes (Imsland et al., 2003; Villanueva et al., 2014). Aquando da emissão dos ovos, a salinidade da água deve ser mantida entre os 30 e os 35‰, uma vez que os ovos não conseguem flutuar a salinidades abaixo dos 30‰ (Dinis et al., 1999). O fotoperíodo da sala dos reprodutores é de 12L:12D, uma vez que os reprodutores apresentam maior atividade durante o dia e verificando-se perturbações na maturação das gónadas quando os indivíduos são colocados a fotoperíodos constantes (Cañavate, 2005; Morais et al., 2014). A fecundação ocorre, na maioria dos casos, durante a noite, daí que a recolha de todos os ovos seja feita de manhã (Villanueva et al., 2014).
Cada tanque possui uma relação de machos/fêmeas de 1:1, o que permite assegurar que se dá a fecundação. Esta relação de 1:1 é importante visto que a quantidade de esperma é inferior aos ovócitos expelidos pelas fêmeas, aumentando assim a probabilidade de todos os ovócitos serem fecundados (Cañavate, 2005; Villanueva, 2014).
Junto a cada tanque está inserido um coletor de ovos. Estes têm como objetivo armazenar os ovos que foram expelidos no tanque. Os coletores são colocados na saída da água dos tanques e possuem um filtro com malha de 500 µm, suficiente para não deixar passar os ovos, mas para que haja uma contante saída de água. É, ainda,
colocada uma pedra difusora a partir do fundo do coletor, o que proporciona a flutuação constante dos ovos.
O alimento a fornecer aos reprodutores é preparado nas instalações da piscicultura, de 2 em 2 dias, ou quando necessário. Para tal, é utilizada uma preparação de farinha, óleo de peixe e água, fornecendo as melhores condições nutricionais aos reprodutores, permitindo a melhor performance destes. O alimento é fornecido à mão, uma vez por dia, até à saciedade aparente, não havendo uma quantidade específica de alimento a fornecer. Esta quantidade será maior sempre que a temperatura aumente, já que esta induz um aumento do apetite. Em todos os casos, os reprodutores são alimentados à saciedade, sem que existam grandes desperdícios de ração. Caso se verifique que os indivíduos não estão a maturar da melhor forma, é fornecido mexilhão (Mytilus edulis) ou poliquetas (Hediste diversicolor), o que, juntamente com a ração que é fornecida, ajuda na maturação das gónadas (Dinis et al., 1999).
As atividades diárias desta zona da piscicultura centram-se na limpeza dos coletores e dos seus filtros; limpeza dos tanques dos reprodutores; preparação do alimento e sua distribuição pelos tanques; limpeza do material utilizado, assim como o chão e pedilúvio; medição da temperatura e do oxigénio de cada tanque; verificação dos permutadores de calor, tanto de aquecimento como arrefecimento, e o backwash dos filtros de areia. Durante a época de desova, verifica-se se os coletores contêm ovos, os quais são retirados para posterior incubação.