Geralmente a história da humanidade é apresentada de forma linear, em que o tempo aparece como inerente ao homem e não como algo construído por ele. A escola atua regulando o controle do espaço e do tempo para a produção de sujeitos destinados a uma sociedade orientada por uma lógica de mercado capitalista e para uma crescente exigência de formação de competências.
O conceito de tempo é básico no estudo da geografia e da história, respectivamente, pois nessas duas dimensões é que as relações sociais humanas se travam, transformando a natureza, produzindo cultura, construindo a história. O tempo é um conceito difícil, e sua abrangência depende da realidade natural e social, ou seja, o tempo é produto cultural.
Na tessitura de uma organização social, o NEI Carianos, como contexto de ação e reação, organizado e reorganizado28 antecipadamente pelos adultos do passado ou do presente em presença, constitui-se em um espaço sociopedagógico, espacial e temporal e, por isso
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Entendida como uma nova organização, melhoramentos e inovações dos materiais e objetos já existentes no contexto, sejam estes ocorridos diariamente ou com tempo maior de duração, ocorridos durante o ano letivo.
mesmo, diferente da casa, da família29, da igreja; é um espaço dotado de dimensões identificáveis que permite a todos os seus integrantes, adultos e crianças que ali se encontram diariamente pelo período de 4 a 6 horas, compreender e reconhecer uma rotina de acontecimentos previsíveis e possíveis que orientam suas ações no cotidiano da instituição, favorecendo uma melhor comunicação entre a criança e seus pares, criança e adultos e adultos entre si.
A pesquisa realizada no NEI Carianos, uma Instituição Educacional instituída e instituidora de atividades em tempos e espaços definidos atividades essas entendidas aqui como “dimensões delimitadoras e proponentes de significados; marcadores externos que intervêm na estruturação dos encontros cotidianos” (FERREIRA, 2002, p.118), mas que não são determinantes do sentido, possibilita assim compreender os processos de relação e interação que se constroem e perpassam a ordem institucional adulta estabelecida e a ordem social vivida pelas crianças,
Dessa maneira, para falar do aqui no NEI Carianos recorro às noções de espaço não somente apoiada em termos topográficos e geométricos, mas também na sua força geradora de sentidos para aqueles que nele habitam. O aqui de crianças e adultos que se cruzam e se alinham, definindo espaços e fronteiras que legitimam e identificam a identidade do lugar do Grupo IV, na qual as relações gestarão e fortalecerão a identidade desse grupo dentro da instituição como um todo, assim como a de outros grupos, crianças e adultos, que se identificarão enquanto outros, tendo como referência outros espaços dessa instituição.
Sabendo que as formas simbólicas e concretas dos espaços se concretizam no e pelo tempo, isto é, que as relações e interações que ocorrem no espaço necessariamente acontecem numa determinada fração de tempo, têm uma duração, então falar do agora do NEI Carianos “é dar conta da dimensão materialmente temporal desses espaços, uma vez que pela sua manutenção e estabilidade, ruptura e descontinuidades se constituem em signos visíveis e reconhecidos da ordem social instituída (FERREIRA, 2002, p.119).
Isto quer dizer que o jeito como a professora e auxiliar organizaram, previram e ativaram – ou não – o funcionamento do parque ou da sala se constituiu num enorme cenário30e palco dos diversos encontros sociais que ali irá ter ou teve este grupo de crianças,
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A Educação Infantil, dadas as particularidades do desenvolvimento da criança dos 0 a 6 anos, cumpre duas funções complementares e indissociáveis, cuidar e educar, complementando os cuidados e a educação realizados na família
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Este enorme foi empregue em relação ao tamanho das salas desse e dos outros grupos da instituição, não que o parque seja de fato muito grande.
entre elas, com as professoras e auxiliares e com as crianças de outros grupos. Para Ferreira (2002, p.119)
[...] será a sua padronização, previsibilidade e regularidade que sedimentadas em rotinas espaço-tempo, permitem a inferência dos sistemas de regras sociais denotativos de uma dada ordem social adulta – a ordem institucional. Por essas mesmas razões, o modo como esta organizada a sala do JI será, ao mesmo tempo, incubadora e recurso que na gestação e afirmação de rotinas da cultura de pares, permitirá explicitar uma ordem social instituinte entre as crianças.
No caso brasileiro, a ordem instituída tem como referência documentos oficiais, tais como os Subsídios para Credenciamento e Funcionamento de Instituições de Educação Infantil. Esse documento ressalta a importância da organização dos ambientes da creche e pré-escola para o desenvolvimento das crianças e dos adultos que nela convivem, porém aponta ser o uso que ambos fazem desses espaços que determina a qualidade do trabalho: “Sejam creches, pré-escolas, parques infantis, etc., em todas as diferentes instituições de Educação Infantil [...] o espaço físico expressará a pedagogia adotada” (BRASIL, 1998, p.83). Outro documento, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1999), levando em conta os diversos projetos e atividades a serem desenvolvidas, preconiza que o espaço físico na Educação Infantil deve ser organizado de acordo com as necessidades e características de cada faixa etária. Um dos “indicadores importantes para a definição de práticas educativas de qualidade em instituição de Educação Infantil” (BRASIL, 1999, p.146) é a qualidade e a quantidade de objetos, brinquedos e móveis presentes no ambiente, que também são considerados poderosos instrumentos de aprendizagem. Também nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 1999), o uso do espaço físico aparece associado às propostas pedagógicas como um dos elementos que possibilitam a implantação e o aperfeiçoamento das diretrizes (art. 3º, VII).
Sabemos da centralidade do espaço na educação em instituições de Educação Infantil. Na verdade, o espaço físico não apenas contribui para a realização da educação, mas é em si mesmo uma forma de educar. Conforme afirma Frago referindo-se ao espaço escolar, ele não é apenas um “cenário” onde se desenvolve a educação, e neste caso também o cuidado, mas sim uma “forma silenciosa de ensino” (FRAGO, 1998, p.69)
Iniciamos então o percurso do espaço e do tempo seguindo as rotas do cotidiano, buscando reconstruir a realidade social do NEI Carianos a partir do espaço físico, local visível, vislumbrando chegar ao espaço vivencial, lugar onde se experienciam múltiplas relações, lugar vivido e (re)construído no tempo e no espaço no decorrer do ano letivo, para
chegar ao entendimento de como o NEI Carianos se torna um lugar de práticas sociais, ou seja, um espaço do qual os atores coletiva e individualmente se apropriam, interpretam-no e o dotam de sentido, ultrapassando a análise do local. Depois me detenho na análise das relações estabelecidas e experienciadas nesse lugar, entendendo-o como revelador das relações sociais que aí se dão de forma sincrônica e diacrônica .
Se esta concepção de local chama para as “luzes da ribalta” o aqui dos espaços significativos da existência, também a consideração do tempo, esse maravilhoso escultor dos agora, cinzela a significação do “sempre” e do “mesmo” inscritos na banalidade de “todos os dias” e dos momentos esquecidos onde nada de novo se parece passar, de tão familiares e corriqueiros (FERREIRA, 2002, p. 121).
É nessa familiaridade construída na e pelas relações sociais que, com o passar do tempo e a sucessão dos dias se tecerão cenários (des)conhecidos, que permitem a existência de uma cotidianidade. A vida cotidiana do NEI Carianos flui nas relações em que adultos e crianças compartilham significados, reafirmados, renovados ou transformados a partir das diversas ações dos diferentes atores envolvidos e participantes dos enredos tramados no cotidiano da instituição. “Captar então, o que se passa no local e no cotidiano implica retratar da realidade, o certo e o incerto, o objetivo e subjetivo, rotina e improvisação, aquilo que nela é único e transitório, ao mesmo tempo que dela se extrai o essencial da forma, a tipicidade” (PAIS, 1993, p.106).
Abordar o lugar é pois integrar não só o tempo e o espaço, mas também os materiais, os objetos, as pessoas, as ações, as interpretações, as explicações e as palavras, a fim de que se possa entendê-lo de uma certa maneira numa pluralidade de maneiras, considerando que ela muda de substancia e consistência no dia-a-dia. Isto porque, de acordo com os pontos de vista e os interesses, usos comuns ou não, diferentes e até mesmo contraditórios, o lugar se torna apropriável: ao mesmo tempo em que faz agir, é modificado e (re)estruturado pelos diferentes atores que ali atuam, inclusive a pesquisadora.
A ordem institucional definida ou não pela professora e auxiliar de sala previamente à chegada das crianças que lhe servem de enquadramento, seja este temporal, espacial ou de princípios e valores, será analisada a partir dos modos como se organizam os espaços e os tempos, como também pelos modos como as crianças vivem/convivem em seu cotidiano, procurando dar visibilidade ao sistema de regras estruturantes do NEI e do Grupo IV.
A explicitação dos principais horários do NEI, assim como a da planta da sala de referência do Grupo IV se fazem necessárias para a contextualização do grupo, mesmo que o
objeto de estudo seja apenas uma fração do seu tempo e espaço, mais especificamente o tempo e o espaço do parque.
Na tentativa de retratar como se articulam o tempo e o espaço, os seus diferentes significados, os declarados e os não declarados pelas crianças e adultos no transcurso das relações e interações sociais ocorridas durante esta investigação, apresento primeiramente, como ponto de partida, a descrição dos espaços internos edificados – a área intramuros limitada por parede e teto –para chegar ao espaço e tempo externos, não edificado – área intramuros não limitada por paredes e teto. Intrinsecamente, ambos fazem parte dos espaços e tempos visíveis do NEI Carianos.
3.2 A adaptação do espaço físico e a transformação em lugar de criança – “os daqui e os