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OECD 2006 RECOMMENDATION ON CROSS-BORDER CO-OPERATION IN THE ENFORCEMENT OF LAWS AGAINST SPAM

Nas pessoas com dificuldades visuais, principalmente nos casos de ausência de visão, os outros sentidos adquirem maior importância.

A audição assume um papel fundamental em contexto educativo e em orientação e mobilidade (OM). Por exemplo, é, fundamentalmente, o sentido da audição que permite o acesso ao computador com recurso ao leitor de ecrã.

Os estudos efetuados há já alguns anos não permitem estabelecer diferenças entre pessoas com cegueira e videntes na capacidade para distinguir sons. O maior rendimento notado nos primeiros, nomeadamente nas tarefas de vigilância e deteção de sinais, deve-se a um maior grau de concentração auditiva, face à falta de estímulos visuais. Assim, como notam Blanco & Rubio (1993: 93), «...o maior contacto com a estimulação auditiva ambiental faz com que os cegos treinados em mobilidade prestem mais atenção às variações de frequência ou intensidade que se produzem nas fontes sonoras.»

Verifica-se depressa, num ambiente de relações informais, por exemplo, que as pessoas com cegueira têm muito maior facilidade de identificação de vozes humanas do que as videntes. Além disso, mostram-se capazes de conservar por vários anos a memória dessas vozes, como já tivemos ocasião de comprovar pessoalmente, embora tal capacidade varie muito de indivíduo para indivíduo. Não é uma particularidade percetiva, mas, antes, fruto do treino do funcionamento de outros mecanismos percetivos, em que a atenção e memorização seletivas desempenham papel principal. Ainda assim, a chamada, em tempos, «visão facial» ou «sentido do obstáculo» continua a surpreender e a ser objeto de investigação.

Conhecemos apenas uma pessoa com consciência desse “sentido”. Transcrevemos o diálogo estabelecido sobre o assunto (Apêndice 6: A2b).

A – Quando entras numa sala, sem som, pela primeira vez, tens perceção do seu tamanho?

E2 – Tenho.

A – E porque é que isso acontece? E2 – Ai, isso não sei.

A – Não sabes! E2 – Não.

A – Mas, sabes que nem toda a gente tem? E2 – Não sei.

A – Mas, não fazes ideia nenhuma, então, porque é que isso acontece? E2 – Não faço ideia.

O diálogo sobre a aproximação a uma porta é também digno de nota: A – Quando te aproximas de uma porta tens noção da sua existência e do seu tamanho?

E2 – Depende. Às vezes, tenho; outras vezes, não.

A –Portanto, se a conheceres, tens, mas, se não a conheceres, também tens, às vezes?

E2 –Não sei, nunca fiz assim a experiência. Acho que… assim… não sei. A – Então, com a pergunta seguinte talvez já saibas melhor.

A – Sabes, sem lhe tocar, se está aberta ou fechada? E2 – Sei.

A – E porque é que sabes? E2 – Não sei.

Por vezes, apercebia-se dos automóveis estacionados, mas também desconhecia a razão pela qual isso acontecia.

A observação direta permitiu-nos admitir a possibilidade de se orientar por ecolocalização, pois foi possível observar que, havendo silêncio à sua volta, se apercebia da existência de paredes em espaços conhecidos e/ou desconhecidos

antes de lhes tocar. No entanto, nem sempre detetava com antecedência obstáculos constituídos por colunas de secção cilíndrica, como acontecia no átrio da escola, um espaço só em parte conhecido, fazendo-nos crer que a audição se encontra envolvida neste processo e que o tato, no caso das portas e dos automóveis, poderá estar, de algum modo, também implicado, pois é possível que se aperceba de minúsculas variações de temperatura e pressão. Importa referir que se trata de um caso de cegueira congénita e sem perceção luminosa.

No entanto, tivemos ocasião de, na mesma altura, observar um aluno com cegueira congénita a andar de bicicleta perto da casa onde desde sempre tinha vivido, mas, na altura, relacionámos essa capacidade com o facto de andar num espaço muito amplo e sem obstáculos, conhecido desde a infância, pelo que ficámos surpreendidos, mas, confessamos, não explorámos devidamente a situação como merecia.

A este propósito, relembramos o interesse que têm despertado reportagens com Daniel Kish, com cegueira desde os treze meses de idade, apelidado de “Batman”, que é capaz de se orientar por ecolocalização em circunstâncias inesperadas.22 Com cliques emitidos pela língua, consegue, de perto, detetar um poste com 2 ou 3 centímetros de espessura; a 5 metros, reconhece automóveis e arbustos; é capaz de identificar construções... A andar de bicicleta, chega a emitir cliques duas ou mais vezes por segundo. É interessante e convincente a analogia feita por Kish (1995) com a luz:

[…] "echolocation" is an aspect of auditory perception which may be broadly defined as the ability to perceive echoes. On the surface, such an ability may seem unremarkable and of little use – largely because echoes are not commonly believed to convey much information. Popular conception holds echoes to be a specialized phenomenon unique to specific circumstances such as firing a gun in the mountains, or calling out in caves and tunnels. But this is like saying that light reflects only from mirrors and highly polished surfaces.

Na realidade, não é só a conceção popular a ter esta ideia, porque temos memória de nos ter sido ensinado em Física que o eco só era percetível quando o som de frequência audível pelos humanos era emitido a mais de 17 metros da

superfície que o refletia. Quer dizer, o ser humano detetaria dois sons separados por 0,1 segundos, ou seja, para a velocidade do som no ar (340 m/s), esse tempo representaria 34 metros. Assim, estando o obstáculo a menos de 17 metros (ida e volta, totalizando 34 metros percorridos pela onda acústica) não perceberíamos a diferença entre o som que emitimos e o som que recebemos e o eco não aconteceria, apesar da onda ter sido refletida.

Kish admite a possibilidade de a capacidade de ecolocalização ter sido mais utilizada pelos humanos antes da existência da iluminação artificial. O seu Grupo – World Acess for the Blind23 –, sob o lema «our vision is sound, our method is

science, our results change lives» já ensinou a ecolocalização a quase mil estudantes com cegueira em mais de trinta países.

As implicações das zonas do cérebro envolvidas no processo foram estudadas por Thaler, Arnott & Goodale (2011). Os resultados sugerem que as áreas implicadas no processamento dos «click-echoes» são normalmente dedicadas à visão e não à audição. Estudo mais recente (Thaler, Milne, Arnott, Kish & Goodale, 2014) indica que as pessoas com cegueira se mostram mais sensíveis às reverberações acústicas do que as pessoas com visão, mas a ecolocalização pode estar mais enraizada nas capacidades de perceção humana do que se pensava e, por isso, os cérebros «of blind echolocation experts» podem capitalizar esta capacidade a seu favor.

Em língua portuguesa, algumas explicações sobre este ainda pouco esclarecido assunto podem ser encontradas em Moura e Castro (1998), mas é certo que a aprendizagem da ecolocalização se encontra muito longe de fazer parte, em Portugal, da educação dos alunos com cegueira e das preocupações dos seus professores.

Uma súmula das várias explicações surgidas e de recentes investigações sobre ecolocalização em pessoas com cegueira e normovisuais pode ser lida em Kolarik et al. (2014).

Um estudo mais recente com interesse para a Orientação e Mobilidade é o de Schenkman, Nilsson & Grbic (2016), indicando que, diferentemente do que

tradicionalmente se pensava, uma espécie de “olhar acústico” semelhante ao de animais usando ecolocalização pode também existir nos seres humanos.

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