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OCTOBRE- OCTOBRE-1916

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ANNEXE K° 462

AU 31 OCTOBRE- OCTOBRE-1916

A companhia dos livros é a mais segura. Não se compara às outras (de homens e de mulheres), mas apresenta a vantagem de estar sempre ao nosso alcance. (Michel de Montaigne in A paixão pelos livros, p. 63) Como deve ser a atitude de um promotor de leitura, de um professor ou de um leitor-guia à frente de um grupo? Em 2008 transcorrem 60 anos do falecimento de Monteiro Lobato, este grande promotor da leitura e do livro que o Brasil teve a felicidade de possuir. Nós, professores, podemos buscar em sua obra infantil um modelo a seguir, na figura de Dona Benta. (Vera Maria Tietzman Silva in Literatura Infantil Brasileira: um guia para

professores e promotores de leitura, p. 35)

Lobato foi um homem de livros e letras. As biografias sobre ele feitas, como Monteiro Lobato: vida e obra, de Edgard Cavaleiro, ainda na década de 50 do século XX, poucos anos após a morte do escritor ou Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, de Carmen Lúcia Azevedo, Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta, em 1997, resultado de extensa pesquisa dos autores sobre a vida agitada do escritor, editor e empresário ou ainda Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, de 2000, de Marisa Lajolo, relatam que o pequeno Lobato adorava passar o tempo na biblioteca de seu avô, o visconde de Tremembé, pai de sua mãe, a folhear e, depois de alfabetizado, a devorar a imensidão de livros que compunha o acervo. A biblioteca, também escritório do avô, parecia-lhe uma sala encantada com volumes grossos, alguns ilustrados, dos mais diversos assuntos. Todos caíam em suas mãos e eram folheados prazerosamente. Conforme lembra Cavalheiro (1955a, p. 23), “era preciso tirá-lo a força da biblioteca”, ou ainda Azevedo, Camargos e Sacchetta (1997, p. 27): “Seu espaço preferido era a biblioteca do Visconde, na casa da Rua XV de Novembro, junto ao Largo do Teatro, em Taubaté, onde passava horas folheando a Revista Ilustrada e o Journal des Voyages”, ou ainda Lajolo (2000, p. 13):

Nas visitas à casa do avô —conta mais tarde— fascina-o a biblioteca: os livros, em particular os ilustrados, seduzem-no ainda mais do que a figura do imperador Pedro II, que conhece como hóspede do avô numa das últimas viagens imperiais a São Paulo.

E podemos também lembrar das próprias palavras do autor em carta a Godofredo Rangel, em 20/01/1904, publicada em A Barca de Gleyre, volume 1:

A biblioteca de meu avô é ótima, tremendamente histórica e científica. Merecia uma redoma.[...] Há uma coleção do Journal des Voyages que

foi meu encanto em menino. Cada vez que naquele tempo me pilhava na biblioteca de meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava (LOBATO, 1956a, p. 50-51).

Mais tarde, já na capital paulista, cuidando de seus exames para o Instituto de Ciências e Letras, fará sua incursão pelos jornais escolares, publicando pequenos textos de sua autoria, resultado de suas leituras juvenis. Lera muito na biblioteca do avô, inclusive os exemplares de Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Cruzoé e todo o Júlio Verne.

Cursando Direito, no Largo São Francisco, dedica-se muito mais à literatura do que à ciência jurídica. Já residindo no Minarete, uma espécie de república de jovens, Lobato, junto com colegas de curso, funda o que chamam de Cenáculo e passa a produzir textos para um jornal de Pindamonhangaba, cujo nome será o mesmo da moradia dos jovens: “O Minarete”. Nele, Lobato vê seus primeiros textos, assinados por vários pseudônimos, fazerem sucesso de público. Anos mais tarde, ao publicar Cidades Mortas, recuperará muitos desses textos e os reescreverá. Em dissertação de Mestrado, defendida em 1998, intitulada Quem conta um conto... aumenta, diminui, modifica: o processo de escrita do conto lobatiano (1998)25, Milena Ribeiro Martins, em um dos capítulos

do trabalho, estuda, de forma detalhada, as muitas modificações que Lobato introduziu nesses textos antes de publicá-los em livro.

Em 1904, forma-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, mas pouco exercerá o cargo de advogado. Volta a Taubaté e se isola na casa do avô. Lê muito e escreve muito também. É dessa época (especificamente de 1903) o início da correspondência com o amigo mineiro Godofredo Rangel. Já nas primeiras cartas anuncia ao amigo o tempo que passa lendo: “Leio, leio interminavelmente, meus olhos já estão cansados. [...] Quando Lamartine me cansa, mudo-me para Zola [...] Farto de Zola, pulo para Michelet [...] vou então para Renan” (LOBATO, 1956a, pp. 40-41).

Em 1907 seguirá para Areias, onde passará aproximadamente quatro anos e meio. Nesse período, são as leituras de literatura que lhe consomem a maior parte do tempo, além das aquarelas às quais também se dedica e das

25 Disponível em http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000136478, acesso 09/11/2016.

cartas à noiva, com quem se casaria em 1908. Descobre, dentre tantos nomes, Nietzsche, Dostoiewsky, Tolstoi e ficará fascinado pelos textos de Machado de Assis. Todos lhe marcarão profundamente as ideias e muito falará deles para Rangel em sua correspondência assídua, conforme exemplos a seguir:

A Plebe, só ela, com o seu fatras democrático e religioso, a expluir vulgaridade e chateza. Eu vingo-me lendo Nietzsche, lendo o teu Goncourt, lendo até Kant e Hartman. Vingo-me quebrando a cabeça nos enigmas insolúveis, Eu, Não-Eu, Sujeito-Objeto, Imperativos Categóricos, Inconscientes, coisas de Schelling, de Lotze, de Fitche – ideias-múmias, como diz Nietzsche [...] (Carta a Godofredo Rangel de 02/04/1907, LOBATO, 1956a, p. 158).

[...] Também trouxe o Ana Karenina, que te recomendo como obra prima. Quanto mais leio Tolstoi e Stendhal, mais os tenho como dois picos supremos. [...] O Ana Karenina, que li agora, ponho-o junto de Guerra e Paz, Lírio no Vale de Balzac e Le Rouge et le Noir de Stendal. Como é grande Tolstoi! Grande como a Rússia (Carta a Godofredo Rangel de 03/05/1909 e de 27/06/1909, respectivamente, LOBATO, 1956a, p. 237; 245).

Em Areias—cheguei ontem—reenceto a velha prosa, mas faço-o enervado por um livro de gênio, o Crime e Castigo de Dostoiewsky. Que coisa grande e informe é a literatura russa! Dum livro francês sai- se como dum salão galante onde todos fazem filosofia amável e se chocam adultérios. Dum livro inglês sai-se como dum Garden-party onde há misses vestidas de branco, zero peito e olhos de volubilis da bem azul. Dum livro alemão (alemão moderno, porque nos grandes antigos não é assim) sai-se contente [...]. Mas sair dum livro russo é sair dum pesadelo! (Carta a Godofredo Rangel de 31/08/1907, LOBATO, 1956a, p. 193).

[...]

Não conheço melhor modelo que Machado de Assis. Camilo ainda me choca, é muito bruto, muito português de Portugal e nós somos daqui. Machado de Assis é o clássico moderno mais perfeito e artista que possamos conceber. Que propriedade! Que simplicidade! Simplicidade não de simplório, mas do maior dos sabidões. Ele gasta as suas palavras como um nobre de raça fina gasta a sua fortuna e jamais como o parvenu, o upstart, que começou vendeiro de esquina e acabou comprando um título de barão do papa (Carta a Godofredo Rangel de 30/08/1909, LOBATO, 1956a, pp. 263-264, grifos do autor).

Os anos passados em Areias proporcionam a Lobato muito trabalho com leitura e escrita. Como é pouco o tempo dispensado à advocacia e como a vinda de mais um filho, Edgard, traz necessidades financeiras novas, Lobato se dedica à escrita de artigos para jornais da capital paulista para aumentar a renda doméstica. Escreve intensamente e começa a receber por esses textos. Também descobre na tradução de artigos do New York Times para os mesmos jornais de São Paulo outra fonte de renda. Descobrirá que a tradução sempre lhe será importante para desafogá-lo em momentos de crise.

Em 1911, morre o avô visconde e Lobato sairá de Areias para assumir a administração da fazenda Buquira. Os sonhos de voltar a São Paulo ficam mais distantes. Nesses anos, a leitura torna-se mais rareada. Reclama muito a Rangel, mas sempre que possível lembra ao amigo o desejo por escrever um livro, no caso, um livro infantil. Em carta de 19/08/1912, dirá: “Colecione as ideias do Nelo [filho de Rangel], suas agudezas e ingenuidades. Dará matéria para um livro que nos falta. Um romance infantil –que campo vasto e nunca tentado!” (LOBATO, 1956a, p. 330). Serão anos muito difíceis, inclusive para lidar com os trabalhadores da fazenda, com quem acaba por se desentender. Não entende por que motivos esses homens queimam a terra para começar uma nova plantação. Incomodado, escreve um artigo chamado “Velha Praga” que publica, em novembro de 1914, no jornal O Estado de São Paulo. Na sequência, em dezembro do mesmo ano, publica “Urupês”, texto que dá continuidade a essa discussão. Ambos os textos farão parte da composição de Urupês, obra de 1918. Estamos em 1914, e esses artigos seriam o começo de seu grande sucesso como escritor.

Decide vender a fazenda e voltar para a capital paulista. Com o dinheiro arrecadado com a venda do imóvel realiza o sonho de comprar uma revista, a Revista do Brasil, para a qual já escrevia com assiduidade. Isso ocorre em 1918. Logo em seguida, torna-se seu editor chefe. Com ela, Lobato torna-se cada vez mais um escritor conhecido e, como editor, fará uma revolução nunca vista na forma de vender livros, será um avant la lettre do marketing. Sobre esse assunto, podemos compreendê-lo a partir da tese de doutorado de Cilza Bignotto (2007), intitulada Novas perspectivas sobre as práticas editoriais de Monteiro Lobato (1918-1925)26, em especial, a segunda parte do trabalho.

Entendemos que a “revolução editorial” perpetrada por Lobato diz respeito ao sucesso, em poucos anos, da Editora da Revista do Brasil. Nela, o escritor e editor abriu espaço para muitos escritores novatos publicarem suas obras e passou a tratar o objeto “livro” como produto de consumo, preocupando-se com a sua linguagem, a presença de capas muitas vezes coloridas e atraentes e com uma bem cuidada apresentação gráfica. Além disso, dedicou tempo para criar

26 http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000410260, acesso em 09/11/2016.

uma política de distribuição e venda de seus livros pelo Brasil afora, atitude inovadora para seu tempo.

Publica, em 1918, Urupês, em livro, ainda pela editora da Revista do Brasil. A obra será composta por vários contos que haviam sido publicados anteriormente, de forma esparsa, em jornais. O primeiro milheiro esgota-se um mês após a edição e muitas outras edições sucederão à primeira de forma espantosamente rápida, conforme nos informa Cavalheiro (1955a, p. 207): “Tiragens sucederam-se a tiragens, e o milheiro inicial multiplicou-se com grande espanto para todos”. E de 1919 a 1924, Lobato funda e dirige várias editoras, conforme nos lembra Bignotto (2007, p. 227): “a Olegário Ribeiro, Lobato & Cia. (1919), a Monteiro Lobato & Cia (1920) e a Cia. Graphico-Editora Monteiro Lobato (1924)”. Em 1925, após a falência da Graphico-Editora Monteiro Lobato, nasce a Companhia Editora Nacional, do capital de Lobato e de seu sócio Octales Marcondes. Fundam assim “a pioneira das grandes editoras modernas brasileiras” (LAJOLO, 2000, p. 59). Essas informações podem ser encontradas no capítulo 5, “As editoras de Monteiro Lobato”, da tese acima citada, de Bignotto.

A partir desse momento, Lobato nunca mais se afastará dos livros: será um homem das Letras.

Parece ter descoberto, de fato, sua vocação e se torna um marco na literatura brasileira, em especial, na literatura infantil, cuja estreia ocorre em 1920 com a publicação de A menina do narizinho arrebitado. Em 1921, acrescenta alguns novos episódios ao texto, altera o título para Narizinho Arrebitado e escreve a Rangel em 9/2/1921: “Mando-te o Narizinho escolar. Quero tua impressão de professor acostumado a lidar com crianças. Experimente nalgumas, a ver se se interessam. Só procuro isso: que interesse às crianças” (LOBATO, 1956a, p. 228).

A crianças gostam e Lobato consegue vender cerca de aproximadamente 50.000 exemplares para o Governo do Estado de São Paulo distribuir nas escolas públicas como leitura para os estudantes mirins. Uma façanha editorial para a época.

Nesse momento, podemos dizer que começa o grande projeto de leitura de Lobato para a infância brasileira e que o faria tornar-se o “pai” da nossa literatura infantil com a constituição da saga do Sítio do Picapau Amarelo: livros para ler e comer, como proporia Emília em A Reforma da Natureza (1941). Livros para ficar na vida das crianças e para fazer com que elas quisessem morar no Sítio de Dona Benta, conforme lembra ao amigo Rangel em carta de 7/5/1926, quando pensa em se dedicar apenas à literatura para crianças:

Ando com ideias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n´Os Filhos do Capitão Grant (LOBATO, 1956b, pp. 292-293).

Após Narizinho, Lobato aproveita o mercado consumidor e produz outras obras infantis que, a partir de 1931, comporiam Reinações de Narizinho. Direciona sua preocupação para o público leitor e descobre que a literatura não era cultuada como prazer pelo povo brasileiro, o que em muito contribuía para a sua dupla preocupação: com a formação de um público leitor crítico no Brasil e com as vendas de suas obras. No texto “Os Livros Fundamentais”, presente em A Onda Verde (1921), afirma que, enquanto a literatura não mudar suas temáticas, será praticamente impossível despertar o gosto no brasileiro pela leitura de um livro:

E assim será enquanto a literatura for entre nós planta de estufa – desabrochada entre flores como as quer, a elite, e enquanto a pedagogia for a própria arte de secar as crianças com o didatismo cívico, criando, logicamente, o irredutível horror à leitura, que caracteriza o brasileiro. (LOBATO, 2008, p. 98).

Ao mesmo tempo em que percebe que no Brasil se lê pouco, também necessita vender seus livros e, por isso, deseja conquistar ao máximo o gosto do público leitor. Acredita que as políticas de incentivo à leitura deveriam atingir toda a população, inclusive a de baixa renda e que a literatura não poderia ser um luxo da elite brasileira. Defende a democratização da leitura, quer que seus livros sejam lidos por todas as classes sociais. Deseja aumentar as vendas de seus textos e, por isso, torna-se, deliberadamente, o primeiro “marqueteiro” deles e começa a pensar em uma maneira de contribuir para isso a partir do momento em que vê sua obra infantil de estreia ser adotada pelo governo

paulista em todas as escolas públicas do Estado. Vemos isso em carta de 21/05/1921 a Rangel:

O meu Narizinho, do qual tirei 50.500—a maior edição do mundo!— tem que ser metido bucho a dentro do público, tal qual fazem as mães com o óleo de rícino. Elas apertam o nariz da criança e enfiam a droga e a pobre criança ou engole ou morre asfixiada [...]Faz de conta que é Gelol. “Dói? Gelol”. E preparo outros: O Saci e Fábulas, este com silhuetas em negro do Voltolino. Nunca imaginei que 50.500 fossem tanta coisa! [...] O problema agora é vender, fazer que o público absorva a torrente de narizes (LOBATO, 1956b, p. 230).27

Embora produzindo ainda literatura para adultos, torna-se o escritor de nossas crianças com projetos e preocupações de cunho pedagógico-didático (embora não se considerasse um pedagogo) e estético28. Desde que se torna

editor da Revista do Brasil publica nela artigos de colaboradores com teor pedagógico, como nos lembra, em sua tese de doutorado sobre Monteiro Lobato e Paul Faucher, Tâmara Maria Costa e Silva Nogueira de Abreu:

Enquanto dirige a Revista do Brasil, Lobato publica artigos e resenhas sobre o problema da educação nacional, além de noticiar publicações e textos traduzidos sobre pedagogia, psicologia, higiene, escotismo, escola pública, a guerra, entre outros temas em voga (ABREU, 2009, p. 37).

Em 1927 muda-se para os Estados Unidos, nomeado adido comercial, e lá acaba por conhecer Anísio Teixeira (famoso futuro defensor do Movimento da Escola Nova29), que estudava no Teachers College da Universidade de

Columbia, com quem trava forte amizade. As discussões com Teixeira em torno da educação no Brasil são fundamentais para a literatura de cunho pedagógico

27 A citação nos mostra também o desejo ardente por vender o seu Narizinho.

28 É possível, a partir das cartas infantis enviadas a Lobato, de 1944 a 1947, e hoje reunidas no Arquivo Raul de Andrade e Silva, identificar, como fez Marco Antônio Branco Edreira, em seu artigo “Monteiro Lobato e seus leitores: livros para ensinar, ler para aprender”, trechos em que os remetentes agradecem ao escritor por terem não somente se divertido com a leitura dos livros, mas também, e muitas vezes, primeiramente, aprendido sobre determinado assunto escolar bastante difícil que os textos lobatianos esclareceram de

forma prazerosa. Disponível em

http://www.rbhe.sbhe.org.br/index.php/rbhe/article/view/206, acesso em 03/10/15. Acrescentamos o trabalho de doutorado de Raquel Afonso da Silva, intitulado Entre livros

e leituras, um estudo de cartas de leitores (2009), defendido na Unicamp. Nele a

estudiosa também se debruça no acervo de cartas infantis de Lobato existente no IEB e procura estudar práticas leitoras a partir desses textos.

29 De acordo com Abreu (2009, p. 46), A Escola Nova, “movimento de ideias sobre a educação que envolveu intelectuais, profissionais de diversas áreas e esferas sociais, desenvolveu-se e ganha sua maior força entre as duas guerras mundiais, quando ocorrem os seus grandes congressos internacionais, manifestos e iniciativas de educadores e simpatizantes do escolanovismo em nível internacional”.

que Lobato produzirá na década de 1930. Foi ainda Lobato o responsável por apresentar Anísio Teixeira a Fernando Azevedo, com quem o escritor da saga infantil já mantinha contato.

Lourenço Filho, grande difusor das ideias do movimento escolanovista no Brasil, “uma ponte mediadora das trocas internacionais efetivadas entre esses intelectuais no Brasil e no exterior” (ABREU, 2009, p. 46), tinha sido diretor da Revista do Brasil, ao lado de Lobato, de junho a dezembro de 1919. Tal fato também demonstra que Lobato tomara contato com esse movimento antes de conhecer Anísio Teixeira e, ao conhecê-lo e ouvir suas ideias, imagina que ele seria o nome que faltava à Escola Nova no Brasil.

Após o retorno de Anísio Teixeira ao país, o escritor, com ele, mantém correspondência até 1948, quando falece. O amigo sempre era lembrado como grande debatedor de ideias educacionais e parece que Lobato viu nele a possibilidade de que a educação brasileira pudesse ser melhorada. Vejamos trecho de carta de Lobato a Fernando de Azevedo30, grande educador também,

a quem apresenta Anísio Teixeira, que entregaria a Azevedo pessoalmente a missiva lobatiana:

Por ocasião da volta de Anísio para o Brasil, Monteiro Lobato escreveria ao seu amigo Fernando de Azevedo esta missiva bem expressiva do que fora o encontro entre ambos: “Fernando. Ao receberes esta, pára! Bota pra fora qualquer senador que esteja aporrinhando. Solta o pessoal da sala e atende ao apresentado, pois ele é o nosso grande Anísio Teixeira, a inteligência mais brilhante e o melhor coração que já encontrei nesses últimos anos da minha vida. O Anísio viu, sentiu e compreendeu a América e ele te dirá o que realmente significa esse fenômeno novo no mundo. Ouve-o, adora-o como todos que o conhecemos e adoramos e torna-te amigo dele como nos tornamos eu e você. Bem sabe que há uma certa irmandade do mundo, em que os irmãos, quando se encontram, reconhecem-se. Adeus. Estou escrevendo a galope, a bordo do navio que vai levando uma grande coisa para o Brasil: o Anísio lapidado pela América. Lobato” (VENÂNCIO FILHO, 1986, pp. 7-8).

Em carta de Lobato a Anísio, datada provavelmente de 1932, escrita possivelmente de São Paulo31, o escritor, deixando de lado um pouco de suas

ideias petrolíferas, decide consagrar o domingo à educação, e escreve ao amigo:

30 Carta presente também no texto NUNES, Cassiano. Monteiro Lobato e Anísio Teixeira: o sonho da educação no Brasil. São Paulo: Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, 1986b, p. 4. 31 Informação, contida em nota de rodapé, dos autores Aurélio Vianna e Priscila Fraiz, organizadores da obra Conversa entre amigos: correspondência escolhida entre Anísio Teixeira e Monteiro Lobato.

Comecei a ler o manifesto. Comecei a não entender, a não ver ali o que desejava ver. Larguei-o. Pus-me a pensar –quem sabe está nalgum livro do Anísio o que não acho aqui—e lembrei-me de um livro sobre a educação progressiva [A educação progressiva, uma

introdução à filosofia da educação, 1932] que me mandaste e que se

extraviou no caos que é a minha mesa. Pus-me a procurá-lo. Achei-o. E cá estou, Anísio, depois de lidas algumas páginas apenas, a procurar dar berros de entusiasmo por essa coisa maravilhosa que é a tua inteligência lapidada pelos Deweys [John] e Kilpatricks [William Heard]! Eureca! Eureca! Você é o líder, Anísio! Você é que há de moldar o plano educacional brasileiro. Só você tem a inteligência bastante clara e aguda para ver dentro do cipoal de coisas engolidas e não digeridas pelos nossos pedagogos reformadores. Acho que antes de reformarem qualquer coisa ou proporem reformas ‘os mais adiantados e ilustres’

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