Na introdução do Manual do Jornalismo Esportivo (2006), Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel partem de uma definição simples e direta desse campo da atividade profissional.
Jornalismo é jornalismo, seja ele esportivo, político, econômico, social. Pode ser propagado em televisão, rádio, jornal, revista ou internet. Não importa. A essência não muda porque sua natureza é única e está intimamente ligada às regras da ética e do interesse público. (BARBEIRO e RANGEL, 2006, p.13).
Nessa mesma linha, Alcoba (2005) afirma que o jornalista esportivo é, antes de tudo, um jornalista – a diferença em relação aos outros profissionais é que ele é especializado em esportes. Enquanto jornalista, um repórter esportivo deve seguir os mesmos princípios técnicos e deontológicos que orientam a rotina profissional dos repórteres de outras editorias como política, economia, polícia ou geral. E esses princípios precisam ser respeitados, segundo o autor, principalmente frente à primeira particularidade desse campo de atuação: o
63 “O profissional do jornalismo tem licença para gritar e vociferar durante uma transmissão, animar os
preconceito que acompanha os jornalistas esportivos desde que o esporte se tornou uma editoria específica nas redações de rádio, jornal, televisão e, mais recentemente, de internet:
Los primeros periodistas deportivos fueron tomados como periodistas de segunda, ya que el área que trataban estaba al alcance de cualquier pluma y cualquiera podía llevar a cabo la realización de esa información. El nuevo género periodístico no podía compararse con el de las otras secciones fundamentales de un medio de información: Internacional, Nacional, Local, Economía (…) Para escribir sobre esos asuntos era preciso una preparación y educación política, mientras que para comunicar y difundir el tema deportivo era innecesaria64. (ALCOBA, 2005, p. 65).
Jornalista esportivo, Paulo Vinicius Coelho (2008) situa a origem desse preconceito no Brasil no início do século, quando a imprensa especializada sequer havia dados os seus primeiros passos. Uma vitória no esporte não poderia ganhar as manchetes; era algo inimaginável para uma época que ainda não sentia os efeitos diretos da espetacularização. O início desse processo, aliás, pode ser claramente percebido quando se divide o desenvolvimento do jornalismo esportivo brasileiro em três etapas principais: a do romance, que vai dos primórdios da imprensa esportiva à década de 70; a da realidade, que abrange os anos 80 e 90; e do infoentretenimento, a partir do início do século XXI e em curso atualmente.
A primeira etapa, quando o jornalismo esportivo ainda tentava se constituir enquanto campo profissional, é marcada pelo romance e pela literatura. Expressões como “até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé” (in BARBEIRO e RANGEL, 2006, p. 107), de Armando Nogueira, ou relatos nada objetivos como os de Mário Filho – “Telê joga os noventa minutos. Dito assim, parece simples. Todo jogador joga noventa minutos. Seria assim não fosse Telê. Telê é o ponteiro dos segundos. Não para nunca!” (in COELHO, 2008, p. 17) – eram encontrados frequentemente nos jornais. Devido à presença de artifícios da literatura nas matérias dessa primeira fase do jornalismo esportivo, o compromisso com a objetividade muitas vezes era deixado de lado. Na descrição do terceiro gol do Brasil na Copa do Mundo do Chile, em 1962, Nelson Rodrigues relata que “Djalma Santos pôs a bola na área e Vavá, com seu peito de aço, meteu a cabeça nela, fazendo 3 x 1” (in COELHO, 2008, p. 18). De acordo com Coelho, o goleiro Schroiff falhou no lance e, mais do que isso, Vavá chutou com o pé direito. Embora tentassem constituir um campo profissional, os primeiros jornalistas esportivos deixavam a desejar justamente no valor base dessa atividade: o compromisso com a verdade dos fatos. Ao romancear a narrativa, eles privilegiavam o fictício, e não o real.
64 “Os primeiros jornalistas esportivos foram tomados como jornalistas de segunda, já que a área da qual
tratavam estava ao alcance de qualquer caneta e qualquer um poderia realizar a tarefa de informar sobre esporte. O novo gênero jornalístico não poderia ser comparado com outras editorias fundamentais como Internacional, Nacional, Local, Economia (...) Para escrever sobre esses assuntos era preciso uma preparação e uma educação política, enquanto que para comunicar e divulgar o esporte, essa preparação não era necessária” (tradução livre).
Em um segundo momento, nos anos 80 e 90, a imprensa esportiva retoma o compromisso com a precisão das informações e passa a adotar a objetividade em seus relatos. Coelho ilustra essa segunda fase do jornalismo esportivo citando a carreira do atacante Ronaldo Nazário que, segundo ele, poderia ser transformada em um roteiro de filme. O jogador estreou na seleção aos 18 anos, foi o melhor do mundo, sofreu uma convulsão às vésperas de uma final de Copa (em 1998), chegou a ser considerado inapto para o futebol após uma lesão, se recuperou, conquistou um título mundial e entrou para a história do esporte. E a imprensa, que outrora retraria a vida do atleta com a dramaticidade do estilo literário, optou pela precisão. “(...) ninguém escreveu uma única crônica sobre a incrível proeza do Ronaldo. Toda a imprensa estampou os feitos do Fenômeno, em relatos repletos de... realidade! Realidade demais para uma história tão irreal” (COELHO, 2008, p. 22).
Por fim, a partir dos anos 2000, no contexto da popularização da internet e da concorrência com a agilidade dos meios digitais, mais uma vez o jornalismo esportivo de televisão, rádio e jornal teve que se reinventar. A objetividade, a precisão e o rigor na aplicação dos critérios de noticiabilidade deram lugar à preferência pelos fatos omnibus de Pierre Bourdieu (1997); a espetacularização passou a ser o principal atributo dos acontecimentos na escolha das notícias em potencial. Começava, então, especialmente na televisão, a era do jornalismo esportivo do infoentretenimento. O objetivo já não era buscar, apurar, redigir e divulgar as informações, mas, sim, divertir, distrair e entreter o telespectador.
De acordo com Bernal (apud MONTÍN, 2008), essa fase da atividade profissional é permeada por elementos sensacionalistas. No artigo Periodismo Deportivo y
Sensacionalismo: Motivos para la Reflexión, a autora identifica cinco aspectos do jornalismo
esportivo praticado neste início do século XXI: o excessivo espaço dedicado ao futebol; o superdimensionamento dos acontecimentos; a utilização de um vocabulário superlativo que, muitas vezes, tende à agressividade; a capacidade de exaltação e demolição de personagens; e a inclusão de aspectos que nada tem a ver com a prática esportiva profissional de competição.
Bernal ressalta que essas características revelam a intenção de se criar um novo “consumidor-espectador”. “Se le intenta inculcar el principio de desmovilización y
desresponsabilización política como parte de la lógica del sistema65”, afirma (BERNAL apud
65“Se tenta incutir o princípio de desmobilização e de desresponsabilização política como parte da lógica do
MONTÍN, 2008, p. 166-167). “Resulta evidente que no estamos cargando las tintas de
manera exclusiva sobre el fútbol, sino que este se convierte en un elemento más de la espetacularización de los medios en la actualidad66”, acrescenta a autora. Nesse processo de mercantilização do jornalismo esportivo, a percepção do que é notícia não passou incólume.