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O professor moderador das Tertúlias Literárias Dialógicas chama-se Alexandre Monte24 e ele nos concedeu, em 2015, uma entrevista realizada, portanto, posteriormente à coleta dos dados, para que pudéssemos contextualizar melhor as atividades no âmbito em que foram desenvolvidas e para que compreendessemos, antes de concluirmos a Tese, alguns pontos que ainda estavam obscuros para nós e que nos indicavam que as atividades de Tertúlia Literária Dialógica poderiam não estar acontecendo de acordo com todos os parâmetros teóricos e metodológicos estabelecidos pelo CREA para a constituição de uma Tertúlia.

Era preciso investigar, pela visão de alguém que participou ativamente das atividades desde a sua implementação na escola, exatamente o contexto do trabalho desenvolvido. Nossa primeira dúvida era se os textos lidos eram realmente considerados clássicos. Também gostaríamos de compreender o papel do moderador e o quanto ele poderia interceder para a elaboração do conhecimento instrumental sem deixar que as atividades caíssem no erro da mera “roda de conversa”. Enfim, com todos os dados em mãos, tínhamos ainda que desvendar alguns elementos importantes para a contextualização tanto da Tese quanto das Tertúlias realizadas.

A entrevista gravada, entretanto, não foi transcrita por não a considerarmos um elemento do corpus, porém, trazemos à tona os principais pontos abordados pelo docente.

Pedimos a ele que falasse um pouco sobre as atividades de Tertúlia Literária Dialógica no momento em que os dados desta pesquisa foram coletados, comparando com o momento atual de desenvolvimento das atuações educativas de êxito e deixamos que o professor moderador falasse livremente sobre o que julgasse mais relevante, sendo que foram feitas poucas intervenções/perguntas por parte da pesquisadora. Em momento posterior (junho de 2016), apresentamos o registro da entrevista ao entrevistado para que ele verificasse se estava de acordo com o que estávamos escrevendo na Tese, ou seja, para que ele nos informasse se conseguimos registrar fielmente as suas ideias, sendo que o deixamos livre para retirar alguma parte ou acrescentar alguma informação ainda não dada que ele julgasse importante.

O professor começou a entrevista indicando a data de transformação da escola em Comunidade de Aprendizagem: em 2010, sendo que naquele ano poucas foram as mudanças sentidas na escola25 e as atividades pertinentes a essa transformação aconteciam de forma muito tímida, tanto naquele ano quanto nos seguintes, sendo que em 2013 (ano da coleta dos dados) elas foram mais recorrentes (as Tertúlias aconteciam em pelo menos três salas de aula).

Naquele ano de 2013 a escola não contava com uma pessoa trabalhando exclusivamente para pensar na implementação das Tertúlias, por isso, os professores de Língua Portuguesa da época acharam que seria mais fácil começar as atividades lendo contos. Na entrevista, o professor afirmou que em 2014 ele se afastou da sala de aula para trabalhar na função de apoio que, para a Secretaria Municipal de Educação da cidade, é o profissional que não assume aulas fixas, mas substitui a ausência de outros docentes. Sendo professor de apoio, a equipe gestora da escola conseguiu que ele ficasse responsável pela organização das Tertúlias na escola, o que foi um grande avanço. Podendo trabalhar quase que exclusivamente na implementação dessas atividades juntamente com a professora de Língua Portuguesa da escola, o docente moderador montava o calendário de leitura, sugeria os textos a serem lidos e providenciava as obras, sendo que na ocasião os estudantes do 9º ano já estavam lendo um livro clássico. A elaboração do calendário era/é importante para que a classe de alunos conseguisse ler toda a obra em um semestre, sem que o livro ficasse pela metade, enfim, seu

25 A ação mais concreta daquele ano de 2010 foi a inserção da transformação da escola em Comunidade de aprendizagem no Projeto Político Pedagógico da unidade escolar.

trabalho foi essencial para que essa atuação educativa de êxito deslanchasse a partir de 2015, contexto que infelizmente não presenciamos no momento da inserção em campo.

Voltando ao ano da coleta dos dados (2013), isto é, no início da implementação das Tertúlias Literárias Dialógicas na escola quando o moderador estava em sala de aula ainda como professor da turma, ele se propôs a realizar as atividades, tendo como um de seus objetivos ler bons textos de literatura de autores consagrados, como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Franz Kafka, Jorge Amado e outros, segundo suas palavras. Na ocasião da entrevista, o moderador afirmou que, na verdade, no início das Tertúlias não liam obras clássicas, embora muitos dos autores lidos tenham uma produção clássica; liam bons autores e, naquela época, ele e a equipe escolar tinham dúvidas sobre essas questões. O entrevistado esclareceu que nem tudo que determinado autor considerado clássico escreve é um clássico; às vezes é apenas determinada obra desse autor que é clássica. Essa reflexão só foi feita após a coleta de dados; os docentes foram amadurecendo durante o processo de execução das atividades, principalmente por meio das formações que a equipe do NIASE/UFSCar oferecia na escola. O docente moderador afirmou que aprendeu muito com essas formações.

Segundo seu relato, em momentos de formação como o mencionado, o corpo docente da escola também compreendeu melhor o papel do moderador. Os professores acreditavam que pelo diálogo igualitário todo mundo tinha o direito de falar o que quisesse, mas ficavam incomodados com algumas falas preconceituosas, por exemplo. Foi em uma ocasião como essa de formação que compreenderam que o moderador tem o papel fundamental de intervir para desconstruir, por argumentos válidos, algumas falas que iam contra a transformação social pretendida. Perceberam que o moderador não tem só a função de organizar as falas; ele pode, sim, interferir de forma dialógica e respeitosa, questionando os dizeres que comprometem a aprendizagem dialógica, perguntando quais são os dados que evidenciam determinado argumento, solicitando pesquisas sobre o assunto, incrementando o debate e estando atento para que as discussões não enviesem ou não se tornem um mero momento de autoajuda.

Ainda com relação aos clássicos, a equipe formadora do NIASE sempre deixou muito claro que se não se lê clássicos não se faz Tertúlia Literária Dialógica e isso foi deixando o professor moderador impaciente, no bom sentido, o que o fez mudar de atitude na

escolha dos textos a serem lidos. Foi assim que o 9º ano passou a ler A metamorfose, de Kafka; um clássico, de fato, da literatura universal. A partir dessa compreensão, a escola se mobilizou para conseguir os exemplares (um livro para cada aluno) com o apoio do NIASE e, desde então, tem lido obras dessa natureza e não apenas bons textos de bons autores.

Na ocasião da entrevista, o livro de Kafka já havia sido lido pelo 4º semestre consecutivo, sempre com avanços, por exemplo: no início o professor não conseguia fazer com que todos os educandos lessem o trecho selecionado em casa para posterior discussão dos destaques em sala de aula, de forma que muitas vezes a atividade se tornava mera roda de leitura. Percebendo esse enviesamento, o docente moderador, juntamente com a professora de Língua Portuguesa, fez uma formação com os alunos, retomando todos os princípios da aprendizagem dialógica, de modo que a atividade realizada com os estudantes não fosse outra coisa senão a Tertúlia Literária Dialógica.

Outro avanço mencionado na entrevista foi com relação à organização dos destaques. No início (época da coleta de dados), o moderador organizava a ordem das falas de acordo com a ordem de inscrição da pessoa que queria se manifestar. Hoje os destaques são feitos, em uma primeira rodada, de acordo com a sequência da narrativa, ou seja, se a última pessoa a se inscrever quisesse fazer um destaque sobre o título da obra ela seria, então, a primeira pessoa a falar. Após essa primeira rodada, um destaque puxa outro e o moderador vai organizando as falas por ordem de inscrição e por quantidade de destaques já realizados (de modo que não haja protagonismos). Além disso, antes se lia apenas contos, com o passar do tempo os gêneros se diversificaram: os alunos leram, além dos contos (que ficavam para 7º e 8º anos), crônicas (no 6º ano) e A metamorfose (no 9º ano), embora a dúvida se todos os textos lidos eram mesmo clássicos ainda persistisse na fala do entrevistado.

Outro fato importante mencionado é que antes as atividades eram mais fechadas, destinadas apenas às pessoas da escola. Hoje ela é aberta para a comunidade e voluntários participam desse momento, sendo que a programação do mês da Tertúlia é fixa, favorecendo a participação das pessoas de fora da escola.

Assim, com todas essas mudanças, hoje (2016) a Tertúlia Literária Dialógica está totalmente implementada na escola, em todas as turmas, juntamente com as demais atuações educativas de êxito; os próprios alunos já organizam as carteiras em roda e as

Tertúlias já fazem parte da rotina dos estudantes. No 8º ano, por exemplo, os participantes estão lendo Romeu e Julieta, de Shakespeare. Na entrevista, o docente moderador enfatizou que essa é uma proposta de que os alunos, em quase sua unanimidade, gostam e a consideram uma atividade importante para se ter na escola. O professor moderador assumiu que ainda há o que se aprimorar, principalmente na conquista de que todos os alunos tenham um contato prévio com o texto, lendo-o em casa e fazendo os destaques dos trechos antes das sessões de Tertúlia, entretanto, considerou que o que se fazia antigamente está bem diferente do que se faz atualmente, motivo este que faz da escola mais viva e dinâmica, com mais pessoas aprendendo de forma mais profunda, com mais qualidade, coletivamente e solidariamente.

3.7 O percurso da análise dos enunciados: grupo de discussão comunicativo e

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