Marcos Alexandre Alves
3No presente trabalho se tem como objetivo majoritário elencar elementos da ética kantiana a partir de fragmentos de textos de comentadores como Sandel (2012), Vásquez (2010) e Cortina (2000), com o propósito de analisar a tese de que os direitos humanos são universais. Tomaremos como objetivo também explicitar como é possível desenvolver um diálogo crítico com alunos de 2º ano de ensino médio a partir de dilemas morais apresentado por Michael J. Sandel em sua obra “Justiça: o que é fazer a coisa certa.” E mais especificamente iremos analisar o capítulo 5 desta obra “O que importa é o motivo
”.
A proposta tem significativa relevância no momento em que a sociedade está imbuída de uma cultura utilitarista onde o respeito pela pessoa humana está sendo esquecido. Aonde as ações que a sociedade vem tomando na atualidade não tem como evidência o respeito pelo
eu
e nem pelooutro
, pois sempre há uma segunda intenção em qualquer atitude tomada.Em contraponto a isso se deve sustentar em um discurso kantiano é que uma ação eticamente correta e moralmente aceitável deve ter valor em si mesma. Nesse sentido, também deve ser vista a pessoa
1 Acadêmico do 6º semestre do Curso de Filosofia do Centro Universitário
Franciscano. Santa Maria, RS. Bolsista do subprojeto Filosofia PIBID/UNIFRA.
2 Acadêmico do 6º semestre do Curso de Filosofia do Centro Universitário
Franciscano. Santa Maria, RS. Bolsista do subprojeto Filosofia PIBID/UNIFRA.
3 Professor Doutor do Curso de Filosofia e Coordenador Institucional do Projeto
humana, a qual não deve ser considerada como um mero instrumento. Portanto, a pessoa humana é um fim e não meio.
Para que possamos entender do que se trata esse tema e sua repercussão na vida humana devemos nos dar por conta de alguns elementos essenciais tais como liberdade, autonomia, igualdade, dignidade humana e direitos universais do homem. Bem como é importante termos uma definição de ética. Segundo Cortina: “consiste la ética, a mi entende, em aquella dimensión de la filosofia que reflexiona sobre la moralidade es decir, en aquella forma de reflexión y la linguaje acerca de la reflexión y lenguaje moral [...]4”. Para Vásquez “A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano5”. Como podemos notar a ética, de modo simples, é a teorização do comportamento moral da sociedade.
A liberdade é algo essencial para que o indivíduo tenha uma vida digna, mas a pergunta é o que é liberdade? Kant dá uma importante definição do que não é liberdade, segundo Kant:
[...] quando nós, como animais, buscamos o prazer ou evitamos a dor, na verdade não estamos agindo livremente. Estamos agindo como escravos de nossos apetites e desejos. Por quê? Porque, sempre que estamos em busca da satisfação dos nossos desejos, tudo que fazemos é voltado para alguma finalidade além de nós6.
Analisando a afirmação do autor podemos notar que a liberdade implica nas simples coisas de nossa vida como, por exemplo, a escolha de um prato de comida, onde estamos condicionados aos nossos desejos, os quais não são verdadeiramente livres. Podemos entender que os conceitos elencados acima, a saber, liberdade, autonomia, igualdade e dignidade, estão relacionados entre si. Pois para Kant, um indivíduo só age livremente quando agir com autonomia, ou seja, a liberdade depende do desenvolvimento da autonomia do indivíduo.
4 2000, p.29.
5 2010, p.23.
Sandel apresenta uma proposta para que possamos entender do que se trata a autonomia ou agir de acordo com ela. O autor propõe uma forma de interpretação para o que Kant quer dizer quando fala em agir com autonomia:
[...] agir com autonomia é comparar o conceito de autonomia com o seu oposto. Kant inventa uma palavra para melhor definir esse contraste – heteronomia. Quando ajo com heteronomia, ajo de acordo com determinações exteriores. Eis um exemplo: quando você deixa cair uma bola de bilhar, ela não esta agindo livremente. Seu movimento é comandado pelas leis da natureza – nesse caso, a lei da gravidade7.
Assim como a bola de bilhar muitas vezes, os nos deparamos com a mesma situação. Usaremos outro exemplo para ilustrar que a autonomia tem relação com a liberdade. Suponhamos hipoteticamente que um pedreiro está no décimo andar de um prédio fazendo reformas na sacada. Por descuido se desprende dos cabos de segurança e cai, o que acontece com a bola de bilhar acontece com ele, ou seja, o pedreiro não exerce sua liberdade, pois na queda é comandado por algo que lhe é exterior, a saber, a lei da gravidade.
Segundo Sandel, nesse caso, se pedreiro por azar cair em cima de outra pessoa que ia passando pela rua e matá-la, o pedreiro não seria moralmente responsável pela morte da pessoa. Pelo fato de que, como já falamos nem a bola de bilhar nem o pedreiro que estão caindo tem liberdade para escolher cair ou não, a gravidade os comanda.
Portanto, se não existe a autonomia não existe também a responsabilidade moral. Pois não podemos acusar um indivíduo que age determinado por algo exterior a ele, se existe determinação não existe autonomia. Para Kant esse tema se apresentava com grande importância, pois se tratando de liberdade humana e a relação que ela tem com os direitos universais e dignidade humana que são tão abordados na atualidade.
7 SANDEL, 2012, p.141.
É importante destacar que Sandel (2012) propõe desenvolver um debate acerca de abordagens sobre a justiça, mais especificamente, a visão utilitarista dessa categoria. Nessa esfera, Sandel, propõe que “devemos definir a justiça e determinar a coisa certa a fazer e perguntando-nos o que maximizará o bem estar ou felicidade da sociedade como um todo8”. Partindo desse pressuposto de que a justiça deve estar pautada em uma visão utilitarista ferimos um elemento importante da Filosofia kantiana, pois uma pessoa não deve ser meio ou instrumento para nada, mas sim, como já dito, um fim em si mesma. Nesse sentido, o utilitarismo pode ser u problema para a sociedade porque,
Não se pode alcançar uma sociedade justa simplesmente maximizando a utilidade ou garantindo a liberdade de escolha. Para alcançar uma sociedade justa, precisamos raciocinar juntos sobre o significado da vida boa e criar uma cultura pública que aceite as divergências que inevitavelmente ocorrerão9.
Um segundo Sandel, a justiça é “dar às pessoas o que elas moralmente merecem, alocando bens para recompensar e promover a equidade10”. Então podemos notar que elementos como a justiça e a liberdade estão implicadas na conduta ética dos indivíduos. Nesse sentido, apresentaremos a proposta metodológica, a qual utiliza elementos e ética e moral, como justiça e liberdade, a partir de dilemas morais.
8 2012, p.137.
9 SANDEL apud HAGUETTE, 2012, p.140.
10 2012, p.138. Foi tratada por Aristóteles a definição de equidade que se trata de um
princípio ético e ideológico, de modo que a equidade corrige as insuficiências das leis. Para que possamos entender o princípio da equidade basta que a veja como o elemento que particulariza a lei. Nesse sentido, segundo Aristóteles: “o equitativo é justo e superior a uma espécie de justiça, embora não seja superior à justiça absoluta, e sim ao erra decorrente do caráter absoluto da disposição legal. Desse modo, a natureza do equitativo é uma correção da lei quando esta é deficiente em razão da sua universalidade” (ARSITÓTELES, 2006, p.125).
Dilemas ético-morais
O primeiro dilema moral que Sandel (2012) apresenta é sobre a falta de autonomia de um indivíduo. “
Pessoas e coisas
”:São 3 horas e seu colega de quarto na faculdade lhe pergunta por que você ainda está acordado meditando sobre dilemas morais envolvendo bondes desgovernados.
- Porque quero fazer um bom trabalho de ética.
- Mas para que você quer fazer um bom trabalho? - pergunta o colega.
- Para conseguir uma boa nota.
- Mas por que você se importa com boas notas?
- Porque quero arranjar um emprego em um banco de investimentos.
- Mas para que arranjar um emprego em um banco de investimentos?
- Para algum dia me tornar gerente de fundos
hedge
. - Mas para que você quer se tornar gerente de fundoshrdge?
- Para ganhar muito dinheiro.
- Mas para que você quer ganhar muito dinheiro?
- Para poder comer lagosta com frequência, algo que gosto de fazer. Afinal sou uma criatura senciente. É por isso que estou acordado até agora, pensando em bondes desgovernados. O exemplo que Sandel (2012), usa é perfeito para mostrar uma atitude de heteronímia, pois o indivíduo estava estudando sobre bondes desgovernados não pelo fato de que é importante e necessário estudar, não porque é importante saber a conjuntura ética que as
coisas contêm em si. Mas pelo simples fato de que o indivíduo X gosta de comer lagostas com frequência.
Esse problema apresentado por Sandel (2012), através do exemplo define um dos problemas que a sociedade enfrenta na atualidade, pois todas as ações que os indivíduos tomam são sempre em virtude de outra coisa. Nesse sentido, no tornamos instrumentos e não agentes eficientes das metas que almejamos.
O segundo exemplo que Sandel (2012) usa é do
comerciante
calculista e o Better Business Bureau.
Onde se pode notar que não há diferença, na maioria das vezes, entre inclinação e dever, isso acarreta uma inversão de valores. O trecho de Sandel, “A honestidade é a melhor política. E é também a mais lucrativa11”.Fica claro que um valor como a honestidade é mais um instrumento. Assim como o anúncio:
Honestidade. Ela é tão importante quanto qualquer outro recurso. Porque um negócio baseado na verdade, na clareza e no valor justo será sempre bem-sucedido. E é com esse objetivo que apoiamos o Better Business Bureau. Junte-se a nós. E lucre com isso12.
Com o anúncio podemos notar que a honestidade deveria ser algo com uma finalidade em si mesma. Pois em um discurso kantiano um valor deve ser zelado e praticado por que é certo, e não usar a honestidade como um jogo, instrumento ou ferramenta para se conseguir ganhar dinheiro, ou como diz o anúncio, lucrar com a honestidade.
Portanto, esses exemplos que Sandel (2012) são excelentes para se problematizar elementos de ética e moral. Bem como, tratar de temas tão essenciais que vem sendo esquecidos pela sociedade líquida em que vivemos. Onde a fluidez é perturbadora, é necessário levar em conta a
11 2012, p.145.
relação com os demais sujeitos e consigo mesmo. Por isso, o mais importante é fazer a coisa certa pelo motivo certo.
Considerações finais
A proposta tem significativa relevância no momento em que a sociedade está imbuída de uma cultura utilitarista onde o respeito pela pessoa humana está sendo esquecido, do mesmo modo que muitos valores como a honestidade são colocados como uma boa estratégia de negócio e marketing. Aonde as ações que a sociedade vem adotando na atualidade não tem como evidência o respeito pelo
eu
e nem pelooutro
, pois sempre há uma segunda intenção em qualquer atitude tomada.Por fim, em âmbito ético deve ser visto o ser humano como um fim em si mesmo, o qual não deve ser considerado como um mero instrumento. Portanto, a pessoa humana é um fim e não meio. Para que se consiga mudar essa perspectiva da sociedade é importante (re)pensar as atitudes cotidianas, o ponto de partida é a educação inicial, ou seja, na escola e no âmbito familiar. A proposta apresentada no presente trabalho é justamente levar para turmas de 2º anos esses dilemas éticos-morais que Sandel (2012) apresenta, com o intuito de levantar problemas acerca do tema.
Referências:
CORTINA, Adela. Ética sin moral. Madrid: Tecnos, 2000.
HAGUETTE, André. “Justiça. o que é fazer a coisa certa”. In: Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 43, n. 1, jan/jun, 2012, p. 139-141. Disponível em:
<http://www.rcs.ufc.br/edicoes/v43n1/rcs_v43n1res2.pdf>.
SANDEL, Michael J. Justiça. O que é fazer a coisa certa. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
VÁQUEZ, Adolfo Sánches. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.