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Synthèse des essais expérimentaux réalisés lors des travaux de thèse : essais

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A.10 Résultats expérimentaux sur bagues instrumentées

2.1 Synthèse des essais expérimentaux réalisés lors des travaux de thèse : essais

Quem nos resgatará da seriedade? Julio Cortázar

27 de Julho, 7:15 hs.

Sonho que converso com Iris Murdoch no terraço vazio de um grande edifício abandonado, sobre um lago, ao fim da tarde. Compreendo que se trata do convento de O sino, que li há anos atrás. Falamos de Platão e do existencialismo – Murdoch dedicou um livro à polêmica questão da expulsão dos poetas que tem lugar em A República e foi uma das primeiras comentadoras inglesas de Sartre. Apesar de que morreu apenas em 1999, parece pertencer a um mundo há muito tempo desaparecido.

– Não se equivoque – diz-me – Aqui o fantasma é você. * * *

“O fantasma é um afogado no rio do tempo sucessivo que consegue assomar-se um instante à superfície antes que o trague a corrente, só um instante, pois não é próprio do fantasma durar, estender-se no tempo. Pode voltar, isso sim. E alojar-se assim, sem transformação alguma, no ânimo. E tampouco é isso o que pede; se permanece é para pedir outra coisa, a única coisa que pode salvá-lo: ser fixado num instante perene.”

* * *

Acordo e, sem sair da cama, quase às cegas, tomo o primeiro livro que encontro sobre a mesa de cabeceira – O dicionário do diabo, de Ambrose Bierce, o amargo, numa tradução de Rodolfo Walsh que publicara o Centro Editor de América Latina em 1972 (devo ter mais cuidado com os livros que deixo à mão!).

Na breve nota introdutória, brincando com um conhecido aforismo de Cioran, Horacio Achaval afirma que, nos seus melhores momentos, uma ratazana parece ter-se infiltrado no seu cérebro para sonhar nele.

Essas palavras põem-me a dançar. 27 de Julho, 7:40 hs.

Madrid arde. O apartamento, que fora razoavelmente acolhedor e silencioso durante o inverno, agora, por força do calor, aberto ao pátio interno do prédio, converteu-se num lugar sofrível. Agoniada, a gente não consegue dormir e exterioriza a sua frustração de formas estridentes. Ontem pela noite, os vizinhos ao lado estiveram fritando croquetes até as quatro da manhã. A noite anterior, alguém decidiu lavar as escadas às três da manhã. Como se não fosse suficiente, alguns andares foram subalugados a turistas, que só parecem ganhar vida de madrugada, dando lugar a festejos rapsódicos e barulhentos, que conferem à música a qualidade incivil que Kant lhe atribuía.

Saio da cama e tomo uma ducha rápida. A biblioteca conta com um poderoso equipamento de ar condicionado. Quero estar aí à primeira hora (abrem às nove). Deixei reservados alguns livros que aguardo ler com impaciência. Também conto com passar a limpo as notas que tomei durante as últimas semanas. Sinto-me com forças renovadas e, pela primeira vez em muitos anos, com a sensibilidade à flor de pele. Produziu-se em mim algum tipo de mudança, ao mesmo tempo profunda e imperceptível, que começa a permitir-me estar sozinho e em paz, as duas coisas simultaneamente. Isso é importante porque cheguei a temer que nunca acontecesse, que me estivesse vedado, e que a viagem até aqui tivesse sido somente uma perda de tempo – ou, pior, a perda de S.

Enquanto tomo o café, leio algumas páginas do diário de Katherine Mansfield – “Ai de mim! Não voltarei a andar descalça pelos bosques selvagens nunca mais!” –, mas o deixo antes de ser tomado pela melancolia. É melhor não abusar até ter o estômago cheio.

27 de Julho, 8:25 hs.

A cidade já afeta o êxodo do verão. O que habitualmente se vive com urgência, de repente vive-se com tranquilidade. Por que, se é possível que seja assim durante um mês, não pode ser assim sempre?

Subo pela rua da Montora até Sol e aí, pela de Carretas até à praça de São Jacinto. Caminho colado às sombras, porque o sol é abrasador apesar da hora. Não me sentia tão bem há muito tempo. No fundo, tudo o que precisava era um pouco de solidão – voltar a estar sozinho como na infância, alheio a tudo o que o mundo em que vivemos considera grande e importante (Rilke). A luz, o ar, os cheiros, as pessoas que caminham ao meu lado e os carros na rua, tudo parece possuir uma qualidade única que

quer ser apreciada. Levo a vista de uma coisa à outra: as frutas lustradas que expõe em cuidados caixotes de madeira uma mercearia junto à saída do metrô, um polícia com a sua moto passando uma multa de trânsito a uma caminhonete de entregas mal estacionada, os reflexos dos vidros das janelas trocando mensagens em código. Quando passo debaixo da copa de uma árvore, estico o braço tanto quanto me é possível, procurando o contato fugaz das folhas, como se fosse uma criança fascinada pelo mundo.

São sensações que tinha esquecidas. Claro que, com a memória das sensações, também afloram as lembranças que tornaram necessário o seu esquecimento. O prazer que me produzem nem sempre sobrevive ao mal-estar que suscitam em mim as histórias às que alguma vez estiveram associadas. Se pudesse ter o primeiro sem ter que suportar o segundo!

* * *

Faz alguns anos, em Lisboa, acompanhei um pequeno seminário de lógica dialógica oferecido por Shahid Rahman. Apesar da origem indiana, Rahman passara a sua infância e a sua adolescência em Bahía Blanca, a minha cidade natal; o seu pai fora reitor da universidade até o golpe de 76, depois do qual renunciara – o meu pai, que então era funcionário administrativo na mesma universidade, recordava ter trabalhado com ele. Essa circunstância não nos aproximava muito, mas me animou a falar com ele com liberdade.

No último dia, jantando num restaurante da baixa, lhe confessei que, apesar de que o seu trabalho era sem dúvida muito valioso, me contrariava que uma pessoa brilhante como ele desperdiçasse o seu talento na formalização de tautologias, havendo tanto para descobrir no mundo. Respondeu-me que em parte tinha razão, que na verdade a lógica aspira a tocar as estrelas e só alcança, com muito trabalho, a roçar os ramos mais baixos das árvores, mas que, ainda assim, sentir esse contato insignificante podia ser algo profundamente comovedor.

Desde que tenho consciência, não deixei nunca de procurar o segredo de umas poucas coisas elementares. O fiz sempre sem método, tateando, porém ainda não me foi dado a sentir um só contato da verdade, como se me houvessem deixado sozinho num quarto do qual removeram todos os móveis. Jamais pretendi tocar as estrelas, apenas assomar-me à

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