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Observations adressées par courriels et retransmises par la DDTM 64

A comunicação constitui um fenômeno com o outro porque não há subjetividade isolada, sem ligação com uma alteridade. A comunicabilidade é uma relação entre Eu e Alter, que pode ocorrer no atrito, na mudança, na provocação entre eles, geradora de transformação em uma ou nas duas instâncias. Para a Teoria do Acontecimento Comunicacional, a comunicação é uma experiência de alteridade, porque é o resultado em mim, por exemplo, da ação do outro (uma pessoa em uma relação interpessoal, um livro, uma fotografia, um filme, uma reportagem, uma poesia, um tirinha de jornal etc.).

Além de Buber, Emmanuel Levinas38 teorizou a questão da alteridade e, juntos, podem ser considerados os difusores da filosofia do diálogo. “Outrem, como outrem, não é somente um alter ego. Ele é o que eu não sou”, afirma Levinas (1998, p. 113). O ser geral é chamado por ele de rosto, uma metáfora que não tem equivalência com uma face empírica, mas que atua como uma metáfora para a humanidade, os seres humanos participantes das relações.

Outro conceito-chave para entender a alteridade discutida por Levinas é o feminino, o equivalente à alteridade radical. Não se refere, no entanto, ao adjetivo que qualifica a mulher na língua portuguesa. O feminino, para Levinas (2008), é uma categoria abstrata, é quem recebe, acolhe e incorpora o outro ao abrir um espaço em sua autossuficiência, quebra a blindagem do Ego e permite que o Outro provoque e transforme. Acolher não é proteger. Tampouco entender, compreender, compartilhar as mesmas significações e ter pensamentos e atitudes semelhantes, mas sentir, estar junto. A alteridade é feminina porque envolve aceitação do outro, não o convencimento. A comunicabilidade é possível quando a instância do Eu acolhe o Outro, que lhe é estranho.

No acolhimento, o mistério persiste, porque não é mistura. “A sociabilidade no mundo tem esse caráter inquietante de um ser diante de outro ser, diante da alteridade.” (LEVINAS, 1998, p. 45) O que Alter significa ou elabora como significado permanece em mistério: “A socialidade no mundo é comunicação ou comunhão. Desentender-se é constatar que nada se tem de comum. [...] As pessoas não estão diante do outro, simplesmente; elas estão umas com as outras em torno de alguma coisa. O próximo é cúmplice.” (LEVINAS, 1998, p. 45).

Não há comunicabilidade possível que não perpasse a alteridade. “O que eu comunico constitui-se, pois, desde logo, em função dos outros” (LEVINAS, 2008, p. 205).

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A filosofia de Levinas é voltada à questão da ética e da existência, o que justifica ser classificado por alguns estudiosos como um teólogo e não como um filósofo. Em suas obras, Levinas questiona o ser, o rosto, o outro, o amor, Deus. Cintra (2009) reconhece em Levinas (1906-1995) uma tripla nacionalidade: judeu-lituano-francês. A explicação: o filósofo lituano tinha ascendência judaica e viveu na França. Sua obra sofreu influência de vários pensadores, como Husserl, Heidegger, Kierkegaard, Bergson e Buber. Juntamente com Martin Buber e outros pensadores da Escola de Frankfurt, fez parte do chamado socialismo judaico, utópico e romântico, do começo do século 20. Por isso, foi perseguido pelo nazismo. Cf. Poirié, 2007.

Comunicação, portanto, é estar junto, permitindo a participação de Alter, não no sentido de estabelecer trocas, mas de promover relações em que as instâncias Eu e Tu abrem-se uma para a outra. “Nós só podemos nos comunicar se nos abrirmos. Eu preciso esvaziar-me, abrir espaços, territórios em mim para acolher o outro. Caso contrário, não ocorrerá a comunicação, permaneceremos indiferentes ao outro e ele a nós.” (MARCONDES FILHO, 2008, p. 30). O Eu tem que criar um espaço interno, esvaziar-se, esgotar o Ego, deixar o Tu entrar. Enquanto o Ego permanece pleno, autossuficiente, o Outro não tem importância – é só um Isso - e não ganha espaço.

Ao contrário do Modelo de Shannon e Weaver39, a comunicação não é um circuito e se assemelha mais a um ato de substituição, sem que as duas relações (entre Eu e Tu e entre Tu e Eu) compartilhem o mesmo sentido. Logo, comunicação exclui a idéia de compreensão de sentidos, visto que o Eu, ao compreender, domina o Tu. Levinas (2008, p. 188) afirma que essa unicidade de sentido implicaria a “comunidade de gênero, que anula já a alteridade.” Se o contrário ocorresse, ou seja, se a instância de Eu se expandisse no sentido de dominar Alter, não haveria comunicação. Afinal, conforme Buber salienta, a dominação do Eu sobre o Tu corresponde à palavra princípio Eu-Isso, sem valor comunicacional, válido apenas como agente de conhecimento, domínio, informação.

A alteridade, para a Teoria do Acontecimento Comunicacional, é insondável, é um mistério observável, todavia não apreendido. Afinal, somos sistemas fechados, impenetráveis, as caixas-pretas de Luhmann40 (2006, 2005), e os objetos mantêm uma insondabilidade que lhes garante o mistério. Este é um componente eufórico para o conceito de comunicação, ligado ao despertar da atenção, da intencionalidade, porque é o diferente, a diferença, o atrator estranho para onde tende o movimento.

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Os engenheiros Claude E. Shannon (1916-2001) e Warren Weaver (1894-1978) propuseram uma fórmula para a comunicação no final da década de 40 que ficou conhecida como a Teoria da Informação ou Teoria Matemática da Comunicação. Segundo a fórmula, uma fonte de informação seleciona uma mensagem; o emissor a converte em sinais (código), que são transmitidos para um destinatário através de um canal e um receptor a decodifica. O ruído, na fórmula, é tudo o que interfere na transmissão da informação e dificulta a recepção. O modelo proposto considera a comunicação algo material e, portanto, possível de ser calculada e transmitida. Trata-se de uma fórmula que considera a comunicação como um processo linear, entre um ponto de partida (fonte) e um de chegada (decodificador ou receptor), negligenciando a interação e o componente semântico das mensagens, o que justificou as críticas a essa teoria. É um modelo ligado, sobretudo, às telecomunicações, porque criou uma fórmula para usar com maior eficiência possível os canais disponíveis, conseguindo transmitir mais informação, em menos tempo, com menos custos e sem ruídos. Mesmo assim, foi muito aplicado, durante o século XX, em diversas áreas como biologia, psicologia, lingüística etc. em diversos estudos ditos de comunicação. Cf. Marcondes Filho, 2002.

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O sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998) reconheceu a influência dos meios de comunicação sobre a sociedade e os sistemas sociais. A noção de sistema é um conceito-chave para entender sua teoria. Luhmann é seguidor de estudiosos que engendraram a Teoria dos Sistemas, filiados ao Funcionalismo Empírico e Teórico. Sistema pode ser definido como um todo organizado por elementos interdependentes que está rodeado por um meio exterior. Cf. Luhmann, 2006, 2005 e Marcondes Filho, 2002, 2004, 2009a.

Bauman (2004, p. 35) faz uso das palavras de Odo Marquard41 para lembrar o parentesco etimológico dos termos zwei e zweifel (respectivamente dois e dúvida). “Onde há dois não há certeza”. Como diz Lévinas, a alteridade é o absolutamente desconhecido, impenetrável, profundo mistério. Percebe-se que há um elemento incorpóreo no equívoco de que, na comunicação interpessoal, é possível “sentir” o outro e afirmar “eu sei como você se sente”. O que se tem é algo em comum, sensações homológas. Mas não o desvendamento de todo o mistério, a corporificação do outro.

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