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5. A importância do jogo no desenvolvimento da criança com Trissomia 21

O artigo 31º da Convenção Internacional dos Direitos da criança consagra “à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística.” O jogo deve constituir um momento rico em oportunidades para se estabelecerem interações sociais positivas. Trôster e Brambring (1994, cit. por Nunes, 2001), consideram que o modo como a criança se compromete com a atividade (o seu envolvimento ativo, o divertimento manifestado por ela e a exploração e descoberta da mesma) é mais importante que a própria atividade. Assim, a criança deverá estar o mais ativa possível no processo do jogo para este ser interessante, significativo e constituir uma verdadeira experiência. Wassermann (1990) refere que as crianças, enquanto jogam, tratam variáveis, hipóteses, gerando investigações, exercem testes, observam e ordenam dados, tomam decisões e desenvolvem competências interpessoais. Este tipo de experiências cria o contexto favorável ao desenvolvimento do raciocínio e de inteligência conceptual, à aprendizagem de valores e ao desenvolvimento de um comportamento responsável em grupo. O jogo é orientado em grupos de aprendizagem em que as crianças cooperam umas com as outras, contribuindo principalmente para as investigações e os esforços criativos de cada um. O jogo pode e deve estar presente nas atividades tradicionais, apelando à imaginação e à criatividade. Este pode e deve, ainda, estar presente na aprendizagem da linguagem, da numeração, da medição e na apreensão do mundo em que vivemos. De referir a existência de diferenças entre vários tipos de jogos, criando, consequentemente, oportunidades aos professores de conhecerem melhor os seus alunos, pois, quanto mais rico for o jogo, maior é o seu potencial para o desenvolvimento conceptual, para a existência de oportunidades criativas e de investigação, e para a observação de assuntos importantes. Winnicot (s.d, cit. por Vayer, Maigre & Coelho, 2003)

distingue dois tipos de jogos: - O jogo criativo (playing) que se exprime de acordo com a imaginação e a inspiração do momento, - O jogo que obedece a regras precisas (game), que têm funções diferentes: o jogo criativo é a condição indispensável para o desenvolvimento pessoal, o jogo regulado é um meio de desenvolvimento social. (p. 37).

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Também J. Piaget (s.d., cit. por Vayer et al., 2003), considera que o jogo desenvolve o Ser com base em dois modos adicionais: um modo espontâneo, que permite a expressão das capacidades individuais, e um modo psicossocial, em que a criança ajusta o seu conhecimento do mundo à realidade presente. Segundo Vayer et

al. (2003), o papel do adulto será também primordial, pois ele deverá adaptar-se às

circunstâncias e individualidades de cada criança, favorecendo as interações criança- ambiente através de atividades ou projetos resultantes da sua experiência advindas da iniciativa da criança ou do grupo. J. Piaget (1998, cit. por Caldeira, 2009), considera

o jogo essencial na vida da criança. Estabelece 3 tipos de jogo: de exercício, simbólico, e de regras; correspondendo estes a três níveis diferentes, caracterizados pelas formas sucessivas de inteligência (sensório-motora, representativa e reflexiva). Segundo ele, de início tem-se o jogo de exercício que corresponde à etapa sensório-motor, quando as acções ainda não são interiorizadas; não há distinção entre jogo e vida corrente, não há representação; a criança não tem a capacidade de evocar objectos, factos e fenómenos fora do seu contexto. Facilitam a aquisição da linguagem e das estruturas temporais. É aquele em que a criança repete uma determinada situação por puro prazer, por ter apreciado os seus efeitos. Por volta dos 2-3 anos e 5-6 anos, nota-se a ocorrência dos jogos simbólicos, que satisfazem a necessidade da criança de não relembrar só mentalmente, o acontecido, mas de executar a representação. O jogo simbólico é fundamental no desenvolvimento pensamento da criança, visto que é essencial a função simbólica, para a construção do espaço representativo, que termina no pensamento operatório concreto. O jogo de regras inicia-se com a etapa da actividade operatória concreta. A criança começa a construir uma coerência lógica, nos seus esquemas imaginativos e a realizar o processo “assimilação-acomodação”, perante as leis da lógica. Para aquele pedagogo, o jogo constitui-se em expressão e condição para o desenvolvimento infantil, já que as crianças quando jogam assimilam e podem transformar a realidade. (p. 41) Também para Gervilla (1997, trad. Própria, cit. por Caldeira, 2009),

o jogo constitui um meio de interacção da criança com o meio envolvente, que a leva a explorar, a conhecer, desenvolvendo ao mesmo tempo capacidades intelectuais, afectivas, sociais, pois “do ponto de vista biológico e tendo em conta que o nascimento dos centros nervosos não são estruturas com carácter definitivo,

a actividade lúdica ajuda à estimulação das fibras nervosas sendo assim um factor importante de evolução e desenvolvimento do sistema nervoso. (p.46)

O jogo constitui, assim, uma ferramenta pedagógica, impulsionadora do desenvolvimento cognitivo e social, podendo ser um utensílio de alegria através do qual as crianças têm prazer e fazem surgir a aprendizagem.

Imediatamente abaixo, podem verificar-se as vantagens e desvantagens do uso do jogo como recurso pedagógico.

Quadro nº 4 - Vantagens e desvantagens dos jogos como recursos pedagógicos

Fonte: Caldeira (2009, p. 57)

Segundo a Declaração de Salamanca (1994),

O princípio fundamental das escolas inclusivas consiste em que todos os alunos aprendem juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentem. As escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos adaptando-se aos vários

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estilos e ritmos de aprendizagem, garantindo um bom nível de educação para todos, através dos currículos adequados, de uma boa organização escolar, de estratégias pedagógicas, de utilização de recursos e de uma cooperação com as várias comunidades. É preciso, portanto, um conjunto de apoios e de serviços para satisfazer o conjunto de necessidades especiais dentro da escola. (pp. 11-12)

A Declaração de Salamanca refere que todas as crianças precisam de estar na escola, bem como serem respeitadas nos ritmos de aprendizagem, quer apresentem deficiência ou não. Esta Declaração valoriza o trabalho da escola e as relações estabelecidas entre as crianças. Menciona, ainda, a atenção que se deve prestar às crianças com Necessidades Especiais Educativas (NEE), salientando que todas elas têm direito à educação, devendo ser reconhecidas as suas necessidades para a promoção da sua aprendizagem. Assim, a escola precisa tomar atitudes para receber bem estas crianças, construindo adaptações estruturais e curriculares. As adaptações ajudarão o professor na sua ação educativa para o desenvolvimento global de todos os seus alunos, quer com NEE ou não. Com a nova legislação (Decretos-Lei nº 54 e nº 55, de 2018, de 6 de julho), a escola deve repensar o seu papel, elaborando e atualizando o seu projeto educativo, modificando os critérios de avaliação, atividades, contemplando a sua ação enquanto escola inclusiva. As escolas precisam, cada vez mais, de encontrar metodologias de ensino e recursos diferenciados, assegurando êxito no cumprimento dos objetivos curriculares propostos às crianças com NEE. Por vezes, estas crianças são vistas como incapazes de efetuar aprendizagens formais, pois, nalguns casos, têm uma capacidade de atenção e de motivação mais baixa devido ao défice na organização das experiências exploratórias. É fundamental que a deficiência de qualquer criança seja aceite, valorizada e considerada pelos seus colegas, pois faz parte da sua vida. A integração destas crianças dependerá das relações que têm com o grupo no qual estão integradas. O professor deve planificar as atividades pedagógicas, adaptando-as às necessidades das suas crianças, e programar a partir de atividades concretas, lúdicas e diversificadas, selecionando atividades de curta duração, tendo em conta o tempo de concentração destas, despertando, assim, o seu interesse e a sua motivação para a aprendizagem. Vigotski (apud ZAPPAROLI, 2012, cit. por Fantacholi, 2013), refere a importância de mostrar as potencialidades destas crianças

e não valorizar as suas dificuldades, pois devem ser estimuladas a interagir com o outro, a explorar o mundo e a expor a sua opinião e desejos. Segundo Nogueira (2015), A inclusão de alunos com NEE envolve o acesso a todos os serviços básicos e implica a construção de uma escola capaz de dar uma resposta educativa de acordo com as necessidades e particularidades de todos os alunos, o que provoca a necessidade de reorganizar espaços, ajustar e diversificar metodologias de trabalho, recursos técnicos e materiais específicos, assim como uma formação especializada de professores e demais técnicos, proporcionando condições plenas para o desenvolvimento destes alunos. (p.71).

Piaget (1962, 1976, cit. por Aguiar, 2003) considera que “(…) a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança, (…). Os jogos não são apenas uma forma de desafogo ou algum entretenimento para gastar energia das crianças mas meio que contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelectual.” (p. 83). Também Santos (1998, cit. por Aguiar, 2003) refere que “As atividades lúdicas podem contribuir significativamente para o processo de construção do conhecimento da criança. Vários estudos a esse respeito vêm provar que o jogo é uma fonte de prazer e descoberta para a criança.” (p. 85). Ainda Santos (1998, p.110, cit. por Moraes, 2015) afirma que a atividade lúdica

É uma necessidade do individuo em qualquer idade e não pode ser vista como diversão. O desenvolvimento do aspecto lúdico facilita a aprendizagem o desenvolvimento pessoal, social e cultural, colabora para uma boa saúde mental, prepara para um estado interior fértil, facilita processo de socialização, comunicação e construção do conhecimento. (p.6)

O mesmo autor (2000, p.34, cit. por Moraes, 2015), considera que “A atividade lúdica através do jogo é necessária e serve de estímulo para a interação, para o desenvolvimento ajudando na autoestima dos educandos, oportunizando uma aprendizagem prazerosa e significativa.” (p.5). Também Fonseca (1980, cit. por Carneiro, 2012), salienta que as crianças com NEE não devem ser privadas de qualquer experiência, havendo, no entanto, necessidade de garantir um meio estimulante para que possam criar, recriar e interagir no meio em que estão inseridas. Segundo Zapparoli (2012, p. 21, cit. por Fantacholi, 2013),

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as atividades lúdicas possuem grandes vantagens para o trabalho com a criança com deficiência, pois estas vivenciam muitas situações de fracasso no seu dia a dia, e o uso da ludicidade pode contribuir para aliviar as pressões em relação aos seus resultados. (p. 8).

O jogo, segundo Wassermann (1990, p. 41), é “o meio através do qual os conteúdos curriculares são aprendidos de uma forma inteligente e reflectida, e, uma vez que o jogo envolve sempre desafios ao pensamento dos alunos, o pensamento torna-se o meio de aprendizagem.” Assim, desde muito cedo, o jogo é importante na vida da criança, pois é considerado um meio de compreensão e de intervenção no processo cognitivo. Quando a criança brinca, ela explora e manuseia tudo aquilo que está à sua volta, construindo, desse modo, a compreensão da realidade em que está inserida, e que se amplia à medida que estabelece processos de abstração. O jogo é então reconhecido como meio de várias habilidades. Este proporciona diversos benefícios fundamentais, como a estimulação da aprendizagem pelo erro e a capacidade de resolver problemas, a aprendizagem da moral, inserindo a criança num grupo social (viabilizando, consequentemente, o conhecimento das regras e condutas sociais), e a estimulação à reflexão, ao interesse e à descoberta. O jogo tem a função de ser como um instrumento infalível para o desenvolvimento das diferentes capacidades (o desenvolvimento da capacidade indutiva, espacial e visual, o tratamento paralelo de informações dadas e a necessidade de maior concentração e atenção), contribuindo para a formação integral da criança. Oliveira (2003, cit. por Nogueira, 2015) refere que

Com a utilização dos jogos o professor pode propiciar aos alunos a vivência em equipe, desenvolver a criatividade e a imaginação, além de proporcionar oportunidades de auto- conhecimento, de descobertas de potencialidades, promover a formação da auto-estima e a prática de exercícios de relacionamento social. Mas, para isso ocorrer, deve estar convencido de que o jogo é um instrumento cognitiva e afetivamente significativo e que pode trazer enriquecimento das atividades pedagógicas. (p. 71).

Também Bogatschov (2001, cit. por Oliveira, 2003) alerta para a importância da utilização do jogo nas crianças com NEE, promovendo momentos benéficos à

aprendizagem que desenvolve a perseverança, cooperação, autonomia, organização e envolvimento com as atividades.

A seguir, podemos ver alguns aspetos positivos dos jogos educativos para trabalhar na Educação Especial:

Aspetos Positivos

Promoção do desenvolvimento da linguagem compreensiva e expressiva, da memorização do estímulo auditivo, da discriminação auditiva e visual e do processamento auditivo da informção

Promoção da inteligibilidade, utilizando a palavra escrita como suporte visual da palavra oral

Aumento do léxico e promover o desenvolvimento da gramática,

recorrendo a atividades baseadas no processamento e na memória visual Desenvolvimento da estimulação multissensorial

Desenvolvimento da lateralidade e orientação espacial Desenvolvimento da perceção visual:

Identificação de figuras geométricas Identificação de objetos

Reconhecimento de formas, padrões e formas Desenvolvimento da lateralidade

Desenvolvimento da motricidade fina

Quadro nº 5 – Aspetos positivos dos Jogos Educativos disponíveis para trabalhar na Educação Especial

Fonte: Nogueira (2015, p. 72)

Como podemos observar, a utilização de jogos educativos em crianças com NEE é decisiva para o desenvolvimento em vários domínios, envolvendo conceitos e estratégias que a escola, com todas as suas atividades, por vezes, não consegue criar.

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