A integração profissional era a sequência esperada para um jovem diplomado. Bastava seguir as etapas sucessivas contempladas pelas instân- cias responsáveis pela socialização e integração social. A vida activa e a sua integração constituíam um espaço e tempo bem delimitados. A temporali- dade social do processo de integração tendia a coincidir com as classes de idade, se bem que reproduzindo a selectividade a partir da origem social, do nível e natureza de estudos, da localização geográfica, entre outros factores, tal como uma análise interna ao sistema de ensino procurou, desde cedo, demonstrar. Mesmo aceitando que aquela integração profissional conhecia também dificuldades, o que nos interessa destacar é que hoje esse processo de integração no mercado de emprego apresenta como traços específicos o seu alargamento no tempo e a sua flutuação no emprego.
Transformada em problema político, económico, social e científico – com rasgos de mediatização crescente – a inserção profissional dos jovens, em geral, parece submeter-se a uma operação de alquimia simbólica. A pro- liferação de dispositivos legais, de estratégias de flexibilidade e de pressões profissionais que se instalam no reconhecimento dos diplomas e respectivos saberes (re)produzem uma crescente heterogeneidade e hierarquização de estatutos sociais por referência à relação entre trabalho e emprego: jovens «estáveis», «precários», «estagiários», «formandos», «sem qualificação», etc. As pressões no sentido de uma «empregabilidade permanente» do jovem deslocam a análise da inserção, que se tinha focalizado, até então, na análise da (des)articulação educação-emprego, para os comportamentos, atitudes e saberes a possuir como que se tal definisse um potencial traba- lhador a inserir ou a não inserir. A fluidez das competências requeridas, das práticas e modalidades de gestão da mão-de-obra, permitem estratégias diversificadas de negociação no momento de recrutamento. Compreen- dem-se, assim, as relações de força entre os intervenientes neste processo no sentido de definição das suas competências e saberes. Por exemplo, a importância psicológica e social dos estágios que lhes permitem «formular um projecto» e se «responsabilizarem» nem sempre corresponde conse- quentemente a empregos económica e profissionalmente satisfatórios. Parece que, novamente, o ‘olhar’ se orienta para uma individualização do processo de inserção.
Por sua vez, os que não possuem um emprego são, igualmente, objecto de uma redefinição conceptual. Não se trata mais de um inactivo, situado nas margens do emprego, mas de um inadaptado, isto é, de alguém que apresenta um handicap social. A falta de qualificações, as dificuldades de inserção profissional, são identificadas como incapacidade, inaptidão, sinó- nimo de «inempregabilidade». Estes, para acederem ao emprego, precisam
de se sujeitar a um trabalho mais ou menos longo de «readaptação» social e profissional, sendo, em última instância, esta a própria causa da sua não empregabilidade. As consequências em termos da orientação da interven- ção dos poderes públicos são claras na exposição dos eixos de intervenção do Programa Operacional do Emprego, Formação e Desenvolvimento Social (POEFDS) aprovado no III Quadro Comunitário de Apoio para Portugal. As suas linhas estratégicas são expressivas da conversão do pro- blema de inserção em «promoção da empregabilidade» de grupos sociais com escassa qualificação e com maiores riscos de desemprego de longa duração e do papel «facilitador» da transição da escola para a vida activa. Esta redefinição do desempregado é solidária com uma visão do mundo que separa os «incluídos» e «integrados» dos «excluídos» e social- mente marginalizados, para além dos que se encontram numa relação precária de emprego. As «vítimas» e os seus «défices» monopolizam nova- mente a atenção. São sobretudo as lógicas que se apresentam sob a noção de ‘empregável’ que nos permitem compreender os requisitos indispen- sáveis para que se torne legítima socialmente a própria noção de «desem- pregado» e de «desemprego».
A precarização e flexibilização da mão-de-obra e a externalização dos custos de produção (com recurso à subcontratação) têm permitido que se legitime uma fragmentação social crescente. Às oposições clássicas entre os operários e burgueses, a composição social apresenta outras fragmentações assentes na luta pela classificação de ‘inseridos’ no mercado de emprego: entre jovens (o acesso ao primeiro emprego) e activos adultos que receiam perder o seu lugar de trabalho; entre homens e mulheres que têm de parti- lhar em conjunto soluções – parte delas ainda por inventar – para novos papéis familiares e profissionais; entre os trabalhadores nacionais e os imigrantes, etc.
Tal como se depreende, a origem destes processos de diferenciação social que se manifestam na entrada na vida adulta não se localiza exclusiva- mente no mercado de emprego. Muitos destes processos, que o atravessam, têm a sua origem nas dinâmicas familiares, educativas e produtivas. Ou seja, estas diferenciações sociais ‘sofrem’ de outras especificidades que encontram o seu fundamento na família e na posição social, na escola (e tipo de instituição) e nas orientações vocacionais privilegiadas e diferen- ciadas. A dinâmica do sistema produtivo utiliza, (re)produz e transpõe para a esfera do trabalho e do emprego esses processos, reforçando-os (perpe- tuando-os) ou criando novos processos de diferenciação que modelam e estruturam as relações sociais.
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RESUMO
O presente texto pretende discutir alguns dos problemas e tendências no campo da inovação tecnológica em Portugal, bem como os seus impactos na sociedade em geral. A questão das tecnologias, isto é, da presença ou ausência de inovação tecnológica, está sempre estreitamente ligada às suas implicações sociais, antes, durante e depois das suas aplicações práticas. Deste modo, o sistema produtivo e a sociedade em geral serão inter- pretados a partir das suas múltiplas interdependências, prestando particular atenção aos determinantes sociais capazes de explicar as capacidades de inovação tecnológica ou a sua ausência. Partindo das recentes tendências de globalização económica e dos seus impactos sobre o mercado de trabalho e a indústria, o artigo centra-se nas questões da transformação organizacional e transformações no sistema produtivo, procurando iden- tificar e analisar algumas tendências de estagnação e potencialidades inovadoras que a sociedade portuguesa tem enfrentado nas últimas décadas. As dificuldades e os exemplos bem sucedidos, as capacidades de assimilação e as experiências negativas reflectem as lógicas contraditórias que atravessam a nossa sociedade. Mas, apesar dos progressos verificados nos domínios da produção científica, do sistema educativo e dos diversos programas estatais de incentivo à inovação nas empresas, a presença de sistemas
* O presente texto é uma versão condensada do estudo Impactos Sociais e Organiza-
cionais da Tecnologia, que decorreu no âmbito do projecto «Evolução das Qualificações e
Diagnóstico das Necessidades de Formação», realizado no INOFOR – Instituto para a Inovação na Formação/Ministério do Trabalho e da Solidariedade, e coordenado por Isabel Salavisa Lança e Ana Cláudia Valente. O autor agradece a autorização que lhe foi concedida para a publicação deste artigo.
** Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Centro de Estudos Sociais.
Sociedade e Cultura 3, Cadernos do Noroeste, Série Sociologia, Vol. 16 (1-2), 2001, 187-207