Este ponto focaliza-se essencialmente na relação entre padrões de sono, características individuais associadas aos ritmos circadianos e desempenho académico de estudantes do ensino superior. São ainda referidos alguns estudos que, embora não tenham recolhido classificações académicas, contemplam outros aspectos estreitamente relacionados com o desempenho (e.g., resultados em determinadas provas cognitivas). Numa segunda parte, analisa-se ainda a possível associação de vários padrões de sono com aspectos do funcionamento psicológico, também estes pertinentes para uma melhor compreensão do sucesso do estudante do ensino superior.
Padrões de sono-vigília e desempenho académico de estudantes universitários
Como se referiu no capítulo de noções básicas, vasta literatura aponta fortemente para um papel do sono no desempenho e nas actividades cognitivas, nomeadamente nas ditas superiores. Contudo, as investigações que focam a relação do sono com o rendimento académico de estudantes nos seus contextos habituais parecem ser mais reduzidas.
No âmbito do ensino básico e secundário há alguns estudos interessados na relação entre os hábitos de sono de crianças e adolescentes e o seu rendimento académico (e.g., Bruni, Antignani, Innocenzi, Ottaviano & Ottaviano, 1995; Cortesi, Giannotti, Mezzalira, Bruni & Ottaviano, 1997; Giannotti & Cortesi, 2002; Giannotti, Cortesi & Ottaviano, 1997; Hofman & Steenhof, 1997; Meijer & Wittenboer, 2004; Roberts, Roberts, & Chen, 2001; Wolfson & Carskadon, 1998).
Em Portugal, os estudos neste domínio parecem ainda muito escassos. Podem referir- se os trabalhos de Clemente (1997: um estudo epidemiológico de caracterização do sono em quase 1000 crianças do 1º ciclo do ensino básico, que foca algumas relações com o funcionamento diurno e o desempenho académico), de Esgalhado (1995: um estudo que refere a relação entre parâmetros de sono e resultados num teste de matemática) e de Monte-Arroio et al. (2000: um estudo com mais de 700 estudantes do secundário, que averigua o papel do sono e de características dos ritmos circadianos no funcionamento académico).
Recentemente, Wolfson e Carskadon (2003) realizaram uma revisão crítica da literatura sobre sono e desempenho escolar existente na população estudantil adolescente, desde o 5º ano de escolaridade até ao 1º ano da universidade, identificando 15 estudos. Contudo, parece ainda não haver nenhum trabalho de revisão da literatura em estudantes do ensino superior.
Procurámos fazer um levantamento da literatura existente (publicações períodicas) acerca da relação entre padrões de sono-vigília e características individuais associadas aos
ritmos circadianos, por um lado, e o desempenho académico (traduzido nomeadamente por classificações obtidas), por outro, exclusivamente em estudantes do ensino superior.
Efectuou-se uma pesquisa bibliográfica sistemática, sem limite temporal inferior, em bases de dados como a Medline, Eric, Current Contents, PsycLIT e, mais recentemente, em recursos electrónicos como a Web of Science e a B-on, utilizando operadores boleanos para fazer combinações entre as seguintes palavras-chave: [1] sono / ritmos circadianos / tipo circadiano / tipo diurno + [2] estudante universitário + [3] média das classificações escolares / desempenho académico / desempenho escolar / rendimento académico / rendimento escolar / insucesso escolar81. O tipo de publicações seleccionado foram artigos de publicações periódicas. Os resumos encontrados por estes meios foram examinados para identificar os estudos relevantes. Os trabalhos posteriormente seleccionados foram também importantes fontes de outras referências. Consultámos ainda literatura que já possuíamos e respectivas secções de referências bibliográficas, de modo a localizar mais bibliografia de interesse. Consultaram-se também, de modo menos sistemático, outras bases de dados (e.g., BiblioSleepResearch, que abarca uma década de publicações na área do sono, de 1990 a 2000), que nos permitiram localizar mais algumas referências, embora na sua grande maioria sobreponíveis às já encontradas.
Esta pesquisa foi reveladora da escassez de trabalhos no contexto do ensino superior que avaliem a relação entre parâmetros de sono, tal como se manifestam no dia-a-dia dos estudantes, e as classificações académicas obtidas.
Os estudos prioritariamente seleccionados para o presente trabalho foram os que, simultaneamente: estudaram populações universitárias; referiam padrões de sono-vigília e/ou outros aspectos associados aos ritmos circadianos; apresentavam resultados acerca da relação das variáveis anteriores com as classificações escolares ou outros aspectos intimamente ligados ao desempenho académico. Referimos, adicionalmente, outros estudos que parecem pertinentes para a compreensão do funcionamento académico de estudantes universitários.
Seguindo os procedimentos descritos, foi possível identificar:
- Onze artigos que abordam de modo directo (constando no resumo e/ou título) o desempenho académico dos estudantes, tomando as classificações académicas como medida específica, tendo recolhido dados no ambiente natural em que os sujeitos estavam inseridos, sem manipulação dos padrões de sono, um dos quais (Ficker et al., 1999) centra-se exclusivamente no problema específico do ressonar (restantes: Gray & Watson, 2002; Howel, Jahrig & Powell, 2004; Jean-Louis et al. 1996; Johns et al., 1976; Kelly, Kelly & Clanton, 2001; Lack, 1986; Medeiros et al., 2001; Rodrigues et al., 2002; Shapiro et al., 1980; Trockel, Barnes
81 Respectivamente, na língua inglesa: [1] sleep / circadian rhythms / circadian type / diurnal type / morningness + [2] college / university student + [3] grade point average / academic performance / school performance / academic achievement / school achievement / school failure.
& Egget, 2000)82; a estes acrescenta-se um décimo segundo estudo, que já possuíamos, que casualmente refere, no texto, correlações entre tipo diurno e médias das classificações escolares, embora este não tenha sido de modo algum o objectivo principal do estudo (Smith et al., 1989).
Ainda de interesse foram:
- um estudo acerca da associação entre horários das aulas e desempenho académico (Skinner, 1985), relacionado também, indirectamente, com a matutinidade-vespertinidade;
- um estudo controlado acerca da influência da privação de sono sobre o desempenho em tarefas cognitivas semelhantes às académicas (Pilcher & Walters, 1997);
- dois estudos envolvendo alunos de medicina, acerca da privação de sono durante turnos de serviço nocturno e resultados em provas de conhecimentos (Browne et al., 1994) ou em vários testes de desempenho (Halbach, Spann & Egan, 2003).
Relativamente aos doze estudos que utilizaram classificações escolares, na Tabela 7 pode consultar-se a medida de rendimento escolar (e o momento da recolha) adoptada em cada um deles.
Sintetizando os principais resultados, menor rendimento académico mostrou-se significativamente associado aos seguintes padrões de sono (quando se refere horários ou duração de sono em geral, significa que o estudo não separou entre dias de semana e fim-de- semana):
•••• menor duração de sono (4 estudos), em geral (Kelly et al., 2001; Medeiros et al., 2001) ou apenas ao fim-de-semana (Jean-Louis et al., 1996; Trockel et al., 2000);
•••• horas de levantar / acordar mais tardias (4 estudos), tanto à semana como ao fim- de-semana (Johns et al., 1976; Smith et al., 1989; Trockel et al., 2000), ou em geral (Gray & Watson, 2002);
•••• horas de deitar / adormecer mais tardias (3 estudos), quer em geral (Medeiros et al., 2001), quer discriminando dias de semana e de fim-de-semana (Trockel et al., 2000), ou sobretudo ao fim-de-semana (Smith et al., 1989)83;
•••• tipo diurno mais vespertino (2 estudos, os únicos que consideraram esta variável), tal como medido através de escalas de matutinidade-vespertinidade (Medeiros et al., 200184; Smith et al., 1989) – recordar que, entre outros aspectos, a vespertinidade caracteriza-se por uma preferência por horários mais tardios de deitar e levantar;
82 Como se pode verificar, apenas sete destes estudos são anteriores a 2001, ano em que foram definidos os instrumentos e iniciada a recolha de dados do estudo empírico da presente dissertação (cf. capítulo sobre metodologia).
83 No artigo de Gray e Watson (2002) indica-se, no texto, que a hora média habitual de deitar mostrou uma correlação significativa, embora baixa, com a média de classificações da universidade; contudo, o valor do coeficiente (-.13), indicado num quadro, não vem assinalado como sendo estatisticamente significativo.
84 Contudo, deve referir-se que o estudo de Medeiros et al. (2001) apenas sugere uma associação entre vespertinidade e piores classificações, pois o tipo diurno correlacionou-se com duas variáveis de sono preditoras do desempenho académico, mas não directamente com este último.
Tabela 7: Artigos com dados sobre padrões de sono / tipo diurno e notas obtidas na universidade: breve descrição e medidas de desempenho académico em cada estudo
Estudo
(n sujeitos) Características gerais Medida de desempenho académico Localização temporal*
Ficker et al., 1999
(n = 201)
Sobre ressonar e sua relação com aprovação num teste de medicina. Questões sobre ressonar
integradas no teste de avaliação.
Teste escolha múltipla 45 questões, como parte dos exames finais para internato de medicina. Medida: reprovação (< 27, i.e., < 60% respostas correctas) ou aprovação
1º Ressonar até então 2º Desempenho Gray e Watson, 2002 (n = 307)
Sobre relação de traços de personalidade (Big-Five) com padrões de sono e desempenho académico, avaliados através de questionários de auto-resposta e registo tipo diário do sono.
Média do secundário & das classificações (GPA) obtidas até então na Universidade, estimadas pelos estudantes (300) durante recolha de dados de personalidade e sono (validação numa % da amostra através de pedido das notas aos serviços académicos)
1º Desempenho até então 2º Vars. Sono Howel et al., 2004 (n = 414)
Sobre sono (quests. EES e PSQI)
e desempenho académico. Média de classificações (GPA) e notas numa disciplina de introdução à psicologia 2º Desempenho 1º Vars. Sono final semestre Jean-Louis et
al., 1996 (n = 294)
Sobre associação factores psicossociais (7 categorias: pessoais; médicos; sociais; sono; académicos; humor; substâncias) c/ sonolência e desempenho (quest. auto-resposta)
Sem informação sobre como ou quando
mediram o desempenho académico. informação] [Sem
Johns et al., 1976
(n = 104)
Sobre relações entre hábitos de sono, personalidade e
desempenho académico no 4º ano medicina (quests. auto-resposta) Recolha no 1º semestre do sono (Março) e da personalidade (Junho)
Média das notas finais em quatro disciplinas (subjects) do ano lectivo
anterior (3º ano; épocas de Novembro ou
Janeiro). 1º Desempenho na época anterior 2º Vars. Sono Kelly et al., 2001 (n =148)
Sobre duração de sono e rendimento académico. Quest. auto-resposta.
Média (GPA) das notas obtidas na universidade tal como indicadas pelos alunos no momento de recolha de dados sobre o sono. 1º Desempenho até então 2º Duração Sono Lack, 1986
(n = 211) Sobre hábitos sono no 1º ano (quest. auto-resposta). Primeiro estudo a avaliar presença de atraso de fase do sono nesta pop.
Nota final do 1º ano do curso de psicologia
(psychology course) 2º Desempenho 1º Vars. Sono final desse ano Medeiros et al.,
2001 (n = 36)
Sobre relação ciclo sono-vigília (diário sono e quests.) e
desempenho estudantes medicina
Resultados de um exame realizado durante
a colheita de dados acerca do sono desempenho Vars. Sono e ≈
simultâneo
Rodrigues et al., 2002
(n = 172)
Sobre sonolência diurna (ESS) e sua relação c/ desempenho académico
Notas no final do semestre – nº de notas em quatro níveis: muito superior (9 a 10); superior (7 a 8.9); intermédio (5 a 6.9); insuficiente (3 a 4.9) [escala de 0 a 10] 1º Sonolência 2º Desempenho final semestre Shapiro et al., 1980 (n = 186)
Sobre comportamentos de sono (quet. auto-resposta) e resultados em testes/exames de estudantes de medicina (3º ano).
Exames nacionais anteriores ao ingresso & notas de cada ano universitário prévio. Medidas adoptadas: notas mais recentes e combinação de todas as notas (recentes e passadas) 1º Desempenho até então 2º Vars. Sono Smith et al., 1989 (n = 501)
Sobre apuramento de questionário compósito tipo diurno. Por acaso inclui desempenho académico.
Média das classificações (GPA). [Informação insuficiente] Trockel et al.,
2000 (n = 200)
Sobre relação entre várias “práticas de saúde”, incluindo sono (quest. auto-resposta) e desempenho académico
Classificações médias obtidas no final do
semestre de “Inverno” [⇔1º semestre]. 2º Desempenho 1º Vars. Sono
* Refere-se apenas às variáveis de interesse (i.e., variáveis de sono e medida de desempenho académico) GPA = grade point average.
••••atraso de fase de sono (1 estudo, o único que avaliou este aspecto) definido através da presença simultânea de: horas de deitar tardias ou maior latência de sono (tempo para adormecer); horas de levantar ao fim-de-semana tardias; sono contínuo após adormecimento (Lack, 1986): estudantes identificados com este conjunto de critérios (n = 35) apresentaram uma média de classificações significativamente inferior (58.8) às dos outros alunos, quer de um grupo “de controlo” sem problemas de sono (n = 35, média de 63.7), quer de um grupo que sentia dificuldades com o sono em geral mas sem sonolência diurna (n = 19, média de 65.3);
•••• pior qualidade de sono (2 estudos), avaliada através de uma única questão no estudo de Johns et al. (1976) e do índice de Pittsburgh (PSQI) no estudo de Howel et al. (2004), embora neste último a qualidade de sono apenas se tenha associado ao rendimento académico nos estudantes com carga horária completa (a frequentar 5 ou mais disciplinas), não quando se considerou a totalidade da amostra ou estudantes sem carga horária completa (< 5 disciplinas), sugerindo portanto que o número de cadeiras a que um estudante se encontra inscrito pode ser uma variável moderadora a considerar em futuros estudos;
•••• outras variáveis (resultados isolados), como: maior irregularidade do ciclo de sono- vigília (apenas um estudo considerou esta variável), definida através do desvio padrão em relação à média de início de sono, com base em dados do diário de sono ao longo de duas semanas (Medeiros et al., 2001); maior latência de sono (tempo para adormecer), adormecer nas aulas (Jean-Louis et al., 1996); maior sonolência diurna, medida através da escala de sonolência de Epworth (Rodrigues et al., 2002); ressonar frequente (Ficker et al., 1999) – neste último estudo, exclusivamente dedicado ao ressonar, 41% dos estudantes do grupo “ressonador” (i.e., ressonar frequente, 11.9% da amostra) reprovou no teste de avaliação, em contraste com 22% no grupo de ressonadores “ocasionais” e com 12% no grupo “não ressonador”; observou-se, também, uma diminuição das médias obtidas no teste ao longo dos grupos de ressonar crescente, mesmo após estas terem sido ajustadas para a idade, o sexo e o índice de massa corporal (70 nos “não ressonadores”, 65 nos “ressonadores ocasionais” e 62 nos “ressonadores frequentes”). Já Medeiros et al. (2001) não encontraram piores classificações nos estudantes que declararam ressonar (13,8%), mas deve notar-se que a medida adoptada não foi tão rigorosa como a de Ficker et al. (1999), cujo estudo é o único expressamente dedicado ao ressonar e ao rendimento académico em universitários.
Apenas no estudo de Shapiro et al. (1980) nenhuma das variáveis de sono mostrou qualquer associação estatisticamente significativa com o rendimento escolar.
Como se pode constatar, quando se encontram resultados estatisticamente significativos entre padrões de sono e classificações académicas, verifica-se alguma congruência entre os vários estudos. Realçando as principais tendências encontradas, destaca-se, em primeiro lugar (como referido por vários estudos), que classificações académicas piores tendem a associar-se a menor duração de sono e a horários de sono-vigília mais tardios (sobretudo para a hora de levantar/acordar e em especial ao fim-de-semana), bem como a variáveis relacionadas com os horários tardios, como são o tipo diurno de orientação
mais vespertina e o conjunto de sintomas sugestivos de atraso de fase do sono, apesar destas últimas terem sido apenas consideradas por dois e um estudo, respectivamente.
A qualidade de sono e a sonolência durante o dia mostraram também associações com as notas, mas poucos estudos até ao momento estudaram a relação destes padrões de sono com o rendimento académico.
Por fim, variáveis de sono que apenas foram consideradas por investigações isoladas foram, por um lado, a irregularidade do padrão de sono-vigília, cuja relação com o rendimento escolar até ao momento apenas foi estudada por Medeiros et al. (2001); por outro lado, o ressonar, no estudo Ficker et al. (1999), o único expressamente dedicado ao ressonar e ao rendimento académico em universitários.
Vale ainda a pena referir, de entre os estudos até agora abordados, aqueles que, para além do cálculo de coeficientes de correlação ou da comparação entre grupos, realizaram análises de regressão para identificar variáveis potencialmente preditoras do desempenho académico, ora considerando apenas variáveis de sono (Johns et al., 1976; Medeiros et al., 2001), ora incluindo outros possíveis preditores do rendimento académico (Jean-Louis et al., 1996; Trockel et al., 2000).
Começando pelos que consideraram, na análise de regressão, apenas variáveis de sono, no estudo de Johns et al. (1976), das três variáveis de sono que mostraram correlações com as classificações académicas (horas de acordar à semana e ao fim-de-semana e qualidade de sono), a hora de acordar ao fim-de-semana mostrou ser a melhor preditora do desempenho académico (coeficiente de regressão parcial estandardizado de .33), contribuindo para 10.6% da variância. Tomando a totalidade das variáveis de sono avaliadas pelo estudo (cobrindo outros aspectos para além dos mencionados, como: horas de deitar, tempo para adormecer, quantidade de sono, tempo para levantar, acordares nocturnos, sonhos desagradáveis e pesadelos), encontrou-se um R múltiplo de .48 (p < .01), indicando que, no conjunto, os 11 aspectos de sono considerados contribuíram para 22.7% da variância no desempenho académico.
Na análise de regressão de Medeiros et al. (2001), revelaram-se como preditoras do desempenho académico a hora de adormecer, a quantidade/duração de sono e a regularidade dos hábitos de sono, mas não a qualidade de sono (pontuação no índice de Pittsburgh - PSQI), a hora de levantar, o ressonar ou o tipo diurno – contudo, a vespertinidade mostrou correlações positivas com o início do sono e negativas com a regularidade do sono, estas duas mantendo- se como preditoras do desempenho, parecendo portanto relacionar-se indirectamente com o desempenho.
Os estudos que consideraram outros possíveis preditores do desempenho académico, que não apenas variáveis de sono, podem ajudar a clarificar o “peso” relativo dos aspectos de sono nos resultados escolares. Jean-Louis et al. (1996) incluíram na análise de regressão uma diversidade de variáveis no âmbito de sete grandes “factores psicossociais”: pessoais; médicos; sociais; hábitos do sono; académicos; de humor; abuso de substâncias. Mostraram-
se bons preditores do desempenho escolar o estatuto académico, a carga de créditos (credit load), o consumo de álcool durante a semana e três variáveis de sono, a saber: tempo total de sono ao fim de semana, latência de sono (tempo para adormecer) e adormecer nas aulas. Também tem interesse referir algumas das variáveis que não se mostraram preditoras: duração de sono durante a semana; consumo de álcool ao fim-de-semana; consumo de marijuana; consumo de cerveja (notar que os autores distinguiram entre consumo de álcool e de cerveja em particular); vida social; tempo passado fora de casa (o artigo não fornece mais detalhes acerca de todas as variáveis consideradas na análise). Concluiu-se que será fundamental considerar, quer o consumo de álcool, quer aspectos de sono, no âmbito das estratégias de remediação em estudantes com dificuldades académicas.
De especial interesse é a análise de Trockel et al., (2000), que considerou um total de 30 variáveis, distribuídas por grandes grupos de “comportamentos relacionados com a saúde”, potencialmente influentes no desempenho académico: exercício físico (3 questões), alimentação (7 questões), hábitos de sono (6 questões), estados de humor (incluindo ansiedade e humor de tonalidade depressiva, 4 questões), pressão do tempo/stress percebido (1 questão), gestão do tempo (1 questão), redes de apoio social (3 questões), hábitos religiosos ou espirituais (2 questões), número de horas de trabalho extra-escolar por semana (1 questão); e ainda género e idade dos respondentes. O consumo de álcool foi controlado neste estudo, pois considerou-se uma amostra aleatória representativa de estudantes residentes dentro do campus de uma universidade que impõe a abstinência total de consumo de bebidas alcoólicas.
Primeiro, na análise de correlações entre as 30 variáveis e as classificações escolares obtiveram-se 11 coeficientes estatisticamente significativos: hora de levantar à semana (-.350) e ao fim-de-semana (-.320), hora de deitar à semana (-.292) e ao fim-de-semana, horas de sono ao fim-de-semana, horas de trabalho por semana (coeficientes negativos), estudo de material de orientação espiritual, ingestão de pequeno almoço, utilização de uma agenda (planner) para organizar o tempo, idade (coeficientes positivos) e género (feminino). As três primeiras variáveis, acerca de sono-vigília, correspondem aos três coeficientes encontrados mais elevados (entre os quais o primeiro equivale a um coeficiente de determinação de rS2= .123, logo, 12.3%).
Na análise de regressão propriamente dita, foram retidas no modelo, como preditoras significativas das classificações médias no final do semestre, as seguintes variáveis: hora de levantar à semana; hora de levantar ao fim-de-semana; horas de trabalho; estudo de material espiritual; treino de força física. As relações identificadas foram modestas mas estatisticamente significativas. Os aspectos de sono, especificamente a hora de levantar à semana e ao fim-de- semana, foram responsáveis pela maior quantidade de variância (efeito relativo) nas classificações médias escolares no final do semestre: horas de levantar mais tardias associaram-se a médias mais baixas. Particularizando: controlando as restantes variáveis independentes do modelo encontrado, por cada hora de atraso na hora média de acordar à semana, as classificações médias previstas desceram 0.132 numa escala de 0 a 4; por cada
hora de atraso na hora média de levantar ao fim-de-semana, as classificações médias previstas desceram 0.115 numa escala de 0 a 4. Concluiu-se que o resultado mais saliente do estudo foi a emergência de relações entre hábitos de sono e o desempenho académico, o qual apoiou a suposição de que os hábitos de sono são responsáveis por uma parte da variância das classificações médias de estudantes universitários do 1º ano.
De mencionar ainda o estudo de Gray e Watson (2002), pois também envolveu análises de regressão e considerou, para além de aspectos do sono, variáveis de personalidade (dimensões do modelo “Big-Five”, avaliadas pelo NEO-PI-R). Entre vários aspectos de sono considerados – duração, qualidade através do índice de Pittsburgh,