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Essa segunda parte do estudo é proposta como forma complementar e essencial para o entendimento sobre os significados da surdez. Na parte I, coube um olhar sobre as tendências dos significados e o posicionamento macrossocial, possibilitando aproximar das tendências ideológicas que alocam as pessoas surdas no cotidiano. Neste momento atentei para os elementos pelos quais se sustentam as bases das tendências macrossociais. Dessa forma, realizou-se uma entrevista que buscou as singularidades do discurso dos ouvintes sobre a surdez.

Com o desejo de aproximação com os discursos e posicionamentos do campo em disputa, parte-se para uma entrevista semi-estruturada individual. As entrevistas individuais possibilitam o diálogo entre participante e pesquisador (GASKEL, 2013), podendo ser explicitados raciocínios apresentados no questionário por exemplo.

Na parte das entrevistadas, conversei com cinco professoras, três da educação infantil e duas da educação especial, todas tinham respondido ao questionário da Parte I. Estas foram escolhidas levando-se em consideração o grau de concordância e discordância com alguma das perspectivas sobre a surdez apresentadas na escala Likert do questionário. A priori, foram convidadas professoras com o que chamo de ênfase em alguma das perspectivas. A ênfase pode

ser ter concordância alta com alguma perspectiva e alta discordância com a outra, por exemplo: concordar com a maioria dos itens da perspectiva sócio-antropológica (S.A.) e discordar da maioria da perspectiva clínico-terapêutica (C.T.) e vice-versa. Além disso, há o grupo de ênfase fronteiriças, composto por pessoas que concordam ou discordam das duas perspectivas simultaneamente.

Foram convidadas, portanto, três professoras com ênfase na perspectiva S.A., três com ênfase na perspectiva C.T. e três com discurso fronteiriços. Assim, considerou-se construir um grupo heterogêneo, privilegiando profissionais de escolas diferentes, contudo, não pretendo realizar comparações entre os grupos, menos ainda em relação às profissionais da educação pública e particular. Visto que tais comparações geram maior competitividade e podem servir como forma de identificação das participantes.

Todas foram conectadas por Whatsapp ou por ligação, quando relembrei o segundo momento da pesquisa e realizei com o convite de participação. Elas escolhiam o local da entrevista. Dos nove convites realizados, sete foram respondidos, mas apenas cinco entrevistas foram realizadas, visto que duas participantes adiaram mais de três vezes o momento da entrevista, o que pode ter sido por acasos, mas também como uma forma de não participar sem negar o convite.

Para as entrevistas, emerge-se como tema guia os significados da surdez, assim sendo estruturou-se o roteiro em 4 momentos: A. Caracterização do sujeito; B. Aproximação com a diferença; C. Imaginando a vivência com a diferença; D. Retomando o Questionário.

Quadro 7 - Estrutura da Entrevista semi-estruturada

Temática – Guia Objetivos Perguntas

A. Caracterização do sujeito

Apreender informações sobre o sujeito, possibilitando

compreender parte de seus pertencimentos para a análise dos dados.

1 Como tornou-se professor(a)?

2 Quais motivos a levaram a educação?

B. Aproximação com a diferença

Averiguar, as possíveis, aproximações/experiências dos participantes com pessoas surdas

3. Você conhece(u) alguma pessoa surda/deficiente auditiva?

4. Como foi essa experiência? 5. Você conhece a Libras? Estudou na faculdade?

6. Atuou com a educação especial? Já teve algum aluno com NEE em sala? Como foi essa experiência? Qual o desafio? C. Imaginando a vivência com a diferença Apreender os deslocamentos discursivos do participante ao utilizar suas concepções sobre a temática.

7. História 1 – escolar

8. História 2 – âmbito familiar

D. Retomando o Questionário

Ampliar os diálogos com as questões Likert.

9. Alguma dessas questões lhe causou estranhamento?

10. Você já tinha ouvido falar de alguma dessas frases?

(Fonte: O autor, 2020)

O primeiro momento (Bloco A) ajudou a confirmar as informações do questionário como também serviu para iniciar a entrevista, sabendo que responder perguntas gerais sobre si, torna a situação mais confortável.

No segundo momento (Bloco B), coloca-se em evidência a relação que o participante tem com a surdez e seus elementos como a Libras, por exemplo. Amplia-se para averiguar os diálogos com a educação especial, buscando perceber os significados dos professores sobre essa prática.

No penúltimo momento (Bloco C), buscou-se adentrar às temáticas da família, saúde e educação, colocando perguntas problematizadoras para os participantes. As questões foram narrativas indicativas em que o participante da pesquisa definia o rumo da história. Foi proposto

a participante que se imaginasse em duas situações: 1. Sendo secretária de educação e criando as prioridades para a educação inclusiva/especial, 2. Sendo mãe de um filho/a surdo e reagindo a essa situação.

Esse formato pretendeu aproximar-se dos modelos indutivos dos professores, remetendo-os à situação com necessidade de resolução, compreendendo, contudo, a distância entre discursar sobre uma problemática num cenário controlado, como uma pesquisa, e agir sobre a mesma questão em meio a situação em ação.

O último momento (Bloco D) pretendeu dar oportunidade às participantes de comentarem algumas das frases da escala Likert. O questionário das participantes era apresentado novamente para ela, tendo as categorias estranhamento e aproximação como estímulo. Esse segmento da pesquisa sinalizou para os significados das frequências obtidas da parte I do estudo.

Para análise, foi engendrada a análise dialógica do discurso a partir de Bakhtin (1992), buscando perceber os posicionamentos próprios de cada participante indicado por seus significados e posteriormente perceber as relações dialógicas entre as respostas de integrantes do mesmo grupo e de outros grupos.

Partir da perspectiva do discurso dialógico, como postulado desde o início deste trabalho, leva a compreensão complementar e de co-construção entre as estruturas macro- micro, fugindo da dicotomia tradicional. O macro só existe a partir do micro, e o micro só se estabelece no macro, em outras palavras, a sociedade só realiza nas relações entre indivíduos, e os indivíduos se relacionam em esferas sociais.

Não há na Análise Dialógica do Discurso um passo a passo, uma receita estabelecida, considerando a fluidez dos diálogos. Contudo, há algumas indicações que podem nortear as pesquisas, segundo Nívea Rohling (2014):

1. o estudo da esfera de atividade humana, em que se dão as interações discursivas em foco; 2. a descrição dos papéis assumidos pelos participantes da interação discursiva; 3. o estudo do cronotopo (o espaço-tempo discursivo) dos enunciados; 4. o estudo do horizonte temático-valorativo; 5. a análise das relações dialógicas que apontam para a presença de assimilação de discursos já ditos e prefigurados. (p. 50).

Esses cinco pontos não necessariamente seguem essa ordem, considera-se, contudo, seguindo Adail Sobral e Karina Giacomelli (2016) que os aspectos sociais e históricos que compõem o contexto de produção devem ser analisados primeiro, para assim ir aproximando- se do horizonte temático-valorativo e dos signos ideológicos.

Como processo de construção dessa análise, as entrevistas são transcritas e lidas a partir das perguntas do trabalho. Nas primeiras leituras houve a pretensão de perceber como os

participantes do diálogo (pesquisador e participantes) compreendiam a situação, a apresentação de si, as expectativas sobre o outro e a construção das condições de produção. Assim também foram captados elementos sobre a atividade profissional, no caso docência, das participantes10. Posteriormente o texto das entrevistas foi (re)olhado buscando o horizonte temático- valorativo, através de algumas marcas discursivas enfatizadas para esse momento como as palavras surdez, deficiência e inclusão. Busquei aproximar-me dos significados possíveis, a partir disso são construídas hipóteses de sentidos temáticos e valorativos, emergidos a partir da minha construção e de toda a trajetória de leituras, estudos, palestras e etc sobre a temática. As transcrições são (re)olhadas diversas agora buscando perceber entre os sentidos emergentes, quais os elementos que os atravessam, que vozes, que já ditos e prefigurados, e assim ir compreendendo as teias discursivas, ou seja, os significados emergentes.

Nesse tipo de análise não se procura com o que é mais comum, e sim com os elementos que atravessam a conversa. Dessa forma, não é importante se os temas foram acessados dez ou apenas uma vez, se foram constantes entre todas as entrevistadas ou não. Da mesma forma, não se espera esgotar os elementos da teia, nem se pretender extrair dela um núcleo, mas em fazer apontamentos e reflexões, sinalizar para os elementos lembrados e esquecidos dos participantes (BAKHTIN, 1992).

Assim sendo, as construções de dados macro e micro não pressupõem fenômenos distintos, mas níveis de análise do mesmo fenômeno. Nesse sentido, o estudo só se encerrará com o diálogo entre estes dados, entendendo que podem se confirmar, se complementar, se contradizer, se confrontar, mas que estarão em diálogo.

Portanto, a parte I buscou as sinalizações macro (possíveis apenas na pesquisa nomotética) como tendências do discurso, que mostraram os movimentos coletivos; sabendo que só fazem sentido ao serem compreendidas as teias discursivas (parte II) que as baseiam e a as tornam possível, percebendo quais os elementos usados nesse contexto.