1.8 Conclusion
2.1.2 Objets-tests non commercialisés
Carvalhal (2016), em Moda com propósito, sinaliza que desde os anos 2000, ao forçarmos o tempo, acabamos não dando conta de acompanha-lo. Fato que comprova isso são as inspirações em décadas anteriores, revisitando e recriando estilos, culminando em cópias e reproduções explícitas. Comprar por comprar, comprar para acumular e comprar para ficar na moda movimenta um processo autodestrutivo, mas vendido como acesso à felicidade,
elevando os níveis de ansiedade das pessoas. Esse apetite por novidade faz com as pessoas entrem e saiam da moda, tornando seu ciclo cada vez mais rápido.
Salcedo (2014) conclui que existem duas principais causas para criarmos um modelo que coloca em risco a continuidade de um sistema em sua origem saudável, como é a natureza, sendo eles: um problema de conceito e outro de comportamento. O primeiro consiste na dificuldade humana de perceber que a economia, a sociedade e o meio ambiente são sistemas interdependentes, porém separados, mas que precisam ser vistos de forma integrada, onde o bem-estar econômico depende do bem-estar social que por sua vez depende do bem-estar do meio ambiente. Também que, os dois últimos são fins em si mesmos e que a economia é apenas um meio para garantir seu bem-estar. O segundo problema tem origem no primeiro, partindo do conceito equivocado de que a natureza está a serviço do homem, que direcionaram as práticas sociais para um consumo de recursos naturais em um ritmo mais acelerado do que a capacidade da natureza de repô-los. Por consequência, gera a produção de resíduos e poluição em tal velocidade impossível da natureza absorvê-los.
Ao pensarmos um produto de moda, é possível evidenciar só na indústria têxtil uma série de impactos ambientais e sociais contribuindo cada vez mais rápido, à medida que a moda acelera, com a insustentabilidade de todo o sistema.
São exemplos de impactos ambientais o uso intensivo de produtos químicos nos processos de cultivo e extração da matéria-prima e fiação que degradam principalmente rios e mares; uso intensivo de água, enquanto recurso não renovável, em várias fases do ciclo de vida do produto, desde as lavoras até as lavagens; emissões de gases nas fases de produção, transporte, uso e manutenção; produção de resíduos sólidos, além da própria roupa e embalagens que em algum momento serão descartadas; uso de recursos finitos, como o petróleo, na fabricação da matéria-prima e perda da biodiversidade em decorrência de monoculturas para a produção de fibras.
Quanto aos impactos sociais estão as condições de trabalho que envolvem desde a insalubridade e insegurança no setor até a exploração da mão-de-obra de diversas faixas etárias; uso de tóxicos que ameaçam a saúde dos trabalhadores e de comunidades que encontram-se no entorno de lavouras e fábricas; uniformização dos mercados sobrepondo principalmente a identidade cultural de países em desenvolvimento, que recebem grande parte dos resíduos têxteis mundiais.
Pensar a quebra dos paradigmas atuais que articulam como as relações são consolidadas na contemporaneidade entre produção, consumo e descarte de produtos pós revolução industrial é um caminho para a sustentabilidade. Para sua existência é importante
manter a visão holística de toda atividade humana no ecossistema. Logo, a sustentabilidade é multidimensional, fazendo com que algo só possa ser entendido por sustentável uma vez que estejam relacionados a ele as esferas: ambiental, econômica, sociocultural, tendo como esfera transversal a política. Uma vez que seja esquecida uma dessas dimensões, fatalmente incorre- se no equívoco de tratar de uma falsa sustentabilidade. Portanto, o esforço para se aproximar da sustentabilidade depende da articulação de diversos setores da sociedade. Tamanha complexidade para a constituição desse novo paradigma na atualidade proporciona oportunidades de atuação nas diversas áreas em prol de mudanças significativas.
Ao focar no design encontramos no desenvolvimento de projetos de produtos que sejam ambientalmente corretos, economicamente viáveis e socialmente justos, manifestada a íntima relação para a sustentabilidade.
Produzir sem destruir e conceber um objeto do cotidiano, do mais elementar ao mais sutil, tornando seu uso durável e seu fim assimilável por outros processos de vida, deve ser a finalidade de uma reflexão global que considera a complexidade dessa relação. Ela transita por esse vínculo que une o homem ao objeto, desde a simples sobrevivência até a recordação de seus menores desejos. Nenhuma sabedoria pode ser esquecida nessa empreitada de imaginação e necessidade. (KAZAZIAN, 2005, p. 28).
O processo de transição em direção à sustentabilidade não consiste em projetar estilos de vida sustentáveis, mas sim em propor oportunidades que tornem praticáveis tais estilos (MANZINI; VEZZOLI, 2008). O designer, nesse sentido, passa a ser intérprete de demandas ambientais e sociais, mediando, valorizando e facilitando a emersão de novas maneiras de sociabilização, estilos de vida e identidade. Seu papel cresce e sua responsabilidade passa de soluções técnicas para soluções “atrativas”, uma vez que para que haja uma inovação radicalmente sustentável é necessário que as pessoas desejem. Aqui ouso dizer: é necessário que a sustentabilidade “entre na moda” e melhor, que as pessoas assimilem e empoderem-se em um movimento bubble-up.
A moda, por sua característica efêmera, se impõe e a instabilidade das aparências torna-se objeto de questionamento, de fascínio e de condenação moral. Segundo Lipovetsky (2009), a moda não traduz a continuidade da natureza humana (o gosto pela novidade, desejo de distinção, etc.), mas uma descontinuidade histórica, uma ruptura com a lógica imutável da tradição. Neste ponto, ela é, sem dúvidas, uma aliada na mudança de paradigmas. Contudo, tais mudanças precisam ser cuidadosamente trabalhadas de modo a caminhar gradativamente para um cenário ideal e não cair na armadilha dela mesma, sendo engolida por outras novidades sem o mesmo objetivo.
A transição por escolha só poderá ter lugar se um grande número de pessoas reconhecer, na própria transição, uma oportunidade para melhorar o seu grau de bem-estar. Mas, para que tudo isso possa surtir efeito no quadro da redução dos consumos materiais que, todavia, vai ser necessária, é preciso que sejam transformados os juízos de valores e critérios de qualidade que interpretam a ideia de bem-estar. (MANZINI; VEZZOLI, 2008, p. 55).
Em paralelo à essa concepção de mudança social, deve caminhar a concepção da indústria do vestuário com valor de moda, ou simplesmente indústria dos produtos de moda. Tais concepções não podem ser vistas dissociadas, uma vez que para a sustentabilidade elas precisam, mais do que nunca, estar imbricadas: as práticas sustentáveis de consumo, que culminarão na mudança social desejada, só poderão ocorrer uma vez que forem projetados produtos com igual característica. Dessa forma, aqui serão trabalhadas ambas as concepções sem separações nítidas, como deve ser visto este processo.