3. Metodología
3.2. Objeto de estudio y objetivos
As etapas que compuseram a pesquisa que realizei no doutorado tiveram algumas mudanças durante o seu percurso. Ingressei no curso com um projeto que tinha a intenção de investigar letramentos de estudantes em módulos introdutórios para o uso de mídias em plataformas virtuais, comparando os contextos da Universidade Federal de Mato Grosso e a Universidade Federal de Santa Catarina. A minha ida ao doutorado sanduíche em Portugal se deu no sentido de integrar um contexto internacional para a comparação com as experiências brasileiras. Neste percurso reuni dados junto aos estudantes das duas primeiras instituições, por meio de questionário e análise do desenvolvimento dos referidos módulos, e, durante o período de realização do saunduíche, fiz a observação participante no Módulo de Ambientação Online (MAO). Ao perceber a relevância e a singularidade da Universidade Aberta (UAb), como uma universidade virtual, e do MAO, para a formação de competências de literacias digitais nos estudantes, optei por reservar os dados reunidos nas demais instituições para posterior divulgação e passei a considerar somente a realidade portuguesa para compor a tese, buscando suas possíveis contribuições para a realidade brasileira.
Desse modo, o local desta investigação foi o Módulo de Ambientação Online (MAO) da Universidade Aberta (UAb) de Portugal, um componente curricular prévio, obrigatório e gratuito aos estudantes que iniciam todos os cursos na universidade, com duração de duas semanas e com características de um módulo prático, centrado em desenvolver competências em vários níveis. O módulo foi desenvolvido no semestre 2014/2015, através de um ambiente virtual, a plataforma Moodle e suas interfaces digitais. A turma em que desenvolvi a pesquisa era composta por 62 estudantes matriculados, uma professora formadora (monitora) e uma pesquisadora em observação participante.
O problema e os objetivos que nortearam o olhar para o objeto de estudo, durante o processo de investigação, foram gradativamente sendo revistos e refinados e chegaram à forma com que os apresentei na introdução. A seguir descrevo as etapas que compuseram o processo de pesquisa no espaço de acontecimento do MAO como agência, com seus desdobramentos e agenciamentos. Junto aos estudantes e monitoras,
incluo-me como observadora e, ao mesmo tempo, como participante que, assim como os demais, é praticante cultural em formação.
O levantamento bibliográfico para compor um referencial de apoio à compreensão do tema letramentos digitais (LD), realizei-o por meio estudos que visaram à compreensão do conceito de letramentos, situando-o na cultura digital, na convergência de mídias e tecnologias, no currículo, na cibercultura, nas práticas cotidianas de comunicação e linguagens, na formação inicial e na educação online. Ao longo do processo, os estudos resultaram na elaboração e publicação de artigos científicos da área, e, na medida do possível, busquei possíveis caminhos para a sua ampliação (SOUZA; CRUZ, 2012; SOUZA; CRUZ, 2013a; SOUZA; CRUZ, 2013b; SOUZA; RAMOS; CRUZ, 2013c; SOUZA; SILVA; CRUZ, 2014; SOUZA; CRUZ, 2014; SOUZA; AMANTE; CRUZ, 2015; SOUZA; SPILKER, AMANTE, 2015). Estes estudos de revisão bibliográfica foram o ponto de partida para conhecer a produção científica e acadêmica sobre o tema e para construir um referencial teórico que desse sustentação à sua compreensão inicial.
O levantamento bibliométrico para mapear a produção acadêmico-científica sobre letramentos digitais (LD) no Brasil, que desenvolvi inicialmente consultando as bases de dados Capes e Scielo, resultou na produção de um artigo conjunto, publicado em evento científico na área de educação e tecnologias digitais (SOUZA; MARQUES; CRUZ, 2013). Posteriormente realizei o levantamento da produção acadêmico-científica sobre literacias digitais com base no acervo do Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), que também resultou na elaboração e publicação conjunta de um artigo em evento científico da área de educação e tecnologias digitais (SOUZA; MARQUES; AMANTE, 2014). Estes levantamentos possibilitaram-me conhecer os autores mais produtivos dos dois países, a procedência geográfica e/ou institucional dos autores mais influentes, idade média da literatura utilizada, periódicos que compõem o campo, entre outros aspectos importantes para mapear o tema.
Realizei a análise documental com base em cinco tipos de documentos diferentes, todos relacionados ao desenvolvimento do MAO:
a) Modelo Pedagógico Virtual (MPV) da UAb, que define a existência e os princípios teórico-metológicos que orientam o Módulo de Ambientação Online (MAO);
b) Plano da Unidade Curricular (PUC), documento que abarca o planejamento, objetivos, metodologia, avaliação, recursos e competências a desenvolver nos estudantes;
c) Plano de Atividades Formativas (PAF), que traz as atividades, critérios de acompanhamento, avaliação, tempos etc;
d) Registros escritos dos Fóruns com as interações e mediações feitas durante o processo de ensino e aprendizagem entre os praticantes culturais (estudantes, monitora e pesquisadora) no processo de ensino e aprendizagem online;
e) E-fólios A (finais), que são sínteses reflexivas sobre as aprendizagens, produzidas pelos estudantes como avaliação escrita final do módulo.
As entrevistas, encaminhei-as com duas professoras formadoras, que no contexo dos cursos da UAb são chamadas de monitoras, as quais fizeram o acompanhamento das classes virtuais no período da pesquisa. Para a elaboração do roteiro com oito questões abertas, segui as orientações de Bogdan e Biklen (1994), privilegiando as perspectivas dos próprios sujeitos da investigação quanto aos significados e sentidos atribuidos às práticas desenvolvidas. O roteiro das entrevistas é apresentado no apêndice I.
Para a observação participante, fui inscrita como estudante em formação no MAO e, ao mesmo tempo, atuei como observadora do/no processo de formação. “Ad-mirar a realidade significa objetivá-la, apreendê-la como campo de ação e reflexão. Significa penetrá-la, cada vez mais lucidamente, para descobrir as inter-relações verdadeiras dos fatos percebidos” (FREIRE, 2011, p. 30). Foi como fazer “a leitura de uma onda” (CALVINO, 1994, p.8); o movimento de estar dentro-fora do MAO abriu-se para ver as singularidades que escapam ao recorte feito na onda. O mover-se no cotidiano é pela curiosidade do olhar e do desafio, é uma curiosidade estética e não epistemológica, com rigorosidade de método, mas carrega em si um método (FREIRE, 2012). A interpretação dos dados realizou-se pela análise temática das mensagens produzidas nos documentos e pelos sujeitos em seus discursos. Como orientam os autores citados, este tipo de interpretação do contéudo das mensagens é feita na medida em que os dados vão sendo agrupados e inter-relacionados com a teoria que sustenta o estudo. Desse modo, busquei “perceber aquilo que eles [os sujeitos] experimentam, o modo como eles interpretam as suas experiências e o modo como eles próprios estruturam o mundo social em que vivem”. (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 51).
Para fazer esta interpretação dos dados produzidos pelos sujeitos (praticantes culturais), segui os protocolos de Denzin (1989), que, segundo Stake (2007), contribuem com a triangulação das diversas fontes de dados analisadas: documentos institucionais e pedagógicos; entrevistas; registros da observação participante; registros das interações nos fóruns online e e-fólios A (finais), operando por um movimento de idas e vindas no percurso de interpretação.
Para a análise de conteúdo propriamente dita, optei por destacar frases como unidades de análise, seguidas da análise temática destas unidades, fazendo interpretações e identificando temas e categorias, os quais foram sendo revistos conforme o referencial téorico se tornava mais consistente e claro. Para perceber os temas recorrentes em contextos, situações e fontes diferentes (documentos, interações, observações, comentários, entrevistas), busquei fazer relações, associações e agrupamentos em quadros com tais temas e categorias, os quais são apresentados nos resultados deste estudo.
A interpretação das operações, para Certeau (1998), coloca em cena o fazer dos praticantes culturais como singular, para buscar as evidências e regularidades, dando visibilidade às suas vozes e discursos. Com tais interpretações, elaborei mapas com os temas e os conceitos relacionados ao objeto de estudo, os quais apresento no capítulo seguinte, bem como recorri a fragmentos das falas dos praticantes culturais, que apresento no decorrer do capítulo quatro, em itálico, para diferenciá-las das citações teóricas, as quais servem para elucidar a interpretação feita. Este conjunto de dados produzidos nos documentos e pelos sujeitos em seus discursos e entrevistas foram os elementos que, a par com a teoria estudada, deram base para a escrita do relatório final deste estudo.
CAPÍTULO II
A Ilha Desconhecida
Um homem vai ao rei lhe pedir um barco para lançar-se ao mar em busca de uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como sabe se tal ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas. O rei concedeu-lhe um barco que não era grande, mas navegava bem e era seguro; não lhe concedeu tripulação (marinheiro, comandante, capitão etc), pois estes seriam de competência do homem consegui-los. O rei também não deu certeza ao homem de que, em sua aventura oceânica, as ondas e os ventos o levariam a um porto seguro. Mas o homem acreditava que “há sempre alguém atrás de nós a estender a mão para tocar-nos o ombro”. Surgiu então a mulher da limpeza disposta a também lançar-se aos desafios pelo mar. Ela lhe perguntou: “sabes navegar? Tens carta de navegação?” E ele respondeu: “aprenderei no mar”. Então, lançaram-se à imensidão das águas, levados pelos movimentos das ondas e pelo desejo de conhecer. (síntese interpretativa de “A Ilha Desconhecida”, de José Saramago, 1998, a pesquisadora, 2015).
Figura 2 – A Ilha da Vida, Arnold Böcklin,1888.
(...) esse lugar é uma maravilha
Mas como é que faz pra sair da ilha? Pela ponte, pela ponte (...).
(A Ponte, Lenine).
Fonte:http://www.brasil247.com/images/0/ad/0adfe2896a96b78f2337d96b0075
2.1 INFORMAÇÃO DIGITAL E CONHECIMENTO EM REDE: