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OBJETIVO GENERAL

Dans le document DE ENERGÍA. (Page 27-35)

Há um certo consenso, entre muitos pesquisadores, que a proliferação de discursos sobre a prostituição masculina está intimamente ligada às produções discursivas sobre a homossexualidade masculina (WEEKS, 1981; KAYE, 2003, 2014; SCOTT, 2003; SCOTT & MINICHIELLO, 2014; BIMBI, 2007). Se na modernidade o sexo é colocado em discurso, como nos mostrou Foucault (1988), é preciso rastrear essas redes de saber e poder que foram refinando modos de gestão das populações, especialmente quando pensamos em sexualidades ou práticas sexuais ditas desviantes e que desafiam concepções morais e (hetero)normativas. Um rastreio genealógico, portanto, é de fundamental importância para não cairmos em algumas armadilhas epistemológicas que se supõem isentas de afetação de um campo histórico, social, político e cultural.

O sociólogo australiano John Scott (2003), a partir de uma pesquisa genealógica sobre os discursos científicos a respeito da prostituição masculina, mostra que, historicamente, a prática do sexo comercial ofertada por homens e a homossexualidade se constituíram como fenômenos que se confundiam no imaginário social e científico. Segundo o pesquisador, a prostituição masculina só se tornou socialmente problemática muito recentemente e sua gestão tem sido tratada como uma questão biopolítica com objetivos normalizadores estratégicos. O próprio aumento da preocupação epidemiológica com a prostituição masculina por parte dos gestores de saúde pública indicaria uma racionalidade de governo biopoliticamente interessada nesse (sub)grupo populacional.

Segundo Jeffrey Weeks (1981, p.115) “a associação com uma prática sexual estigmatizada moldou profundamente os contornos da prostituição masculina”. Nesse sentido, acompanhar uma genealogia da prostituição masculina seria, no limite, também se debruçar sobre uma genealogia da homossexualidade e suas mutações e transformações nos campos discursivo e histórico. Para Weeks (1981), haveria três grandes áreas de preocupação que devem ser consideradas nos estudos sobre prostituição masculina: 1) deve-se prestar atenção às circunstâncias sociais e históricas que moldaram os conceitos e as atitudes em relação à homossexualidade; 2) deve-se analisar a relação próxima e simbiótica entre formas de prostituição masculina e subculturas homossexuais; 3) deve-se teorizar sobre a “natureza” da prostituição ela mesma, seus conceitos nativos, os “modos de vida” que a partir dela se inventam.

A partir de uma extensa revisão bibliográfica, David Bimbi (2007) demonstrou como a prostituição masculina foi tratada, tanto nas ciências sociais como nas áreas biomédicas, como um fenômeno problemático a ser controlado, gerido, tutelado e normalizado. Segundo o autor, tais pesquisas estiveram orientadas por perguntas que atrelavam a prostituição à psicopatologia, ao uso de drogas, ao desvio social e à delinqüência. Mais tarde, com o advento do vírus HIV, os homens que ofertavam serviços sexuais passaram também a ser vistos como “vetores de doenças”. Dentro desses quadros teóricos, muitos pesquisadores estavam preocupados em descrever “tipologias” de homens que trocavam sexo por dinheiro e suas supostas “características inerentes”, de modo que se pudesse estabelecer algum modelo que fosse capaz de prever as “causas” da prostituição e as formas de controlá-la, evitá-la, prevení-la e extinguí-la. Bimbi (2007) denuncia que essas pesquisas contribuíram para a produção de generalizações e homogeneizações sobre todos os homens que ofereciam algum tipo de prática sexual que envolvesse, eventualmente, transações financeiras ou outros tipos de trocas (como sexo por drogas, vestuário, comida, etc.). Essas perspectivas, que dominaram amplamente os estudos sobre a prostituição masculina, resultaram em objetificação, exotificação, estigmatização, estereotipização e demonização sobre os sujeitos pesquisados. Autores como Weeks (1981), Scott (2003), Kaye (2003, 2014) e Bimbi (2007) evidenciaram, a partir de pesquisas históricas e documentais, que a noção de objetividade (sustentada a partir de testes e análises psicológicas e sócio-antropológicas) dos pesquisadores que se dedicaram aos estudos sobre homens que se prostituíam estava fortemente marcada pelas percepções culturais sobre a homossexualidade (orientadas, sobretudo, por discursos heteronormativos, criminalizantes e patologizantes).

Ao analisar a literatura científica sobre o tema, Bimbi (2007) identificou o que ele chamou de “três grandes paradigmas” que dominaram o entendimento científico sobre a prostituição masculina. Esses paradigmas seriam: 1) o paradigma psicopatológico, a partir do qual se entendia que os homens que faziam sexo por dinheiro apresentavam algum tipo de psicopatologia e/ou algum tipo de desvio de comportamento; 2) o paradigma tipológico, no qual se buscava agrupar esses homens em tipologias (delinqüentes, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, homossexuais situacionais, etc.); 3) o paradigma do problema de saúde pública, a partir do qual se buscava olhar para os homens que se prostituíam como “vetores de doenças” (HIV e outras IST’s). É importante destacar que esses paradigmas não

foram sendo substituídos um pelo outro, a partir de uma linearidade e/ou evolução no pensamento científico, mas passaram a conviver concomitantemente, informando diferentes racionalidades de investigação e metodologias de pesquisa. Tais mudanças na mentalidade científica que se debruçava sobre a prostituição masculina não correspondem, necessariamente, a uma continuidade teórico-científica, mas sim a descontinuidades epistemológicas que precisavam se ajustar e responder a contextos sociais, econômicos, políticos e culturais que também se transformavam em escalas globais. As relações entre tais transformações e as descontinuidades epistemológicas e discursivas sobre corpo, sexo e gênero já foram analisadas por importantes autores como Michel Foucault (1988), John Gagnon (2006), Thomas Laqueur (2001), entre outros. A ascensão e consolidação do Estado Moderno, as mudanças na economia (como a depressão da década de 1930), a expansão de ideais nazi-fascistas na ciência e na administração das cidades, a difusão de discursos biomédicos e sexológicos acerca das sexualidades e do gênero, as transformações culturais e políticas no campo sexual e a ascensão dos movimentos feministas, gays e lésbicos e queer nas grandes capitais são exemplos de alguns fatores que foram capazes de reorientar o entendimento e o olhar sobre o fenômeno da prostituição (tanto masculina como feminina), bem como sobre sexo, sexualidades, gênero e corpo de modo mais geral.

2.3. As mutações dos discursos sobre a prostituição masculina

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