2.8 Modélisations par clés binaires
2.8.4 Objectifs du modèle de clés binaires : le concept d’exceptions
Nesse capítulo daremos espaço para falar sobre a vida da personagem que escolhemos para ser objeto de estudo de nossa pesquisa. Rita Baiana não é colocada como protagonista da obra, no entanto o enredo do romance dá bastante espaço para narrar à vida desta personagem que é colocada como personagem secundaria, mas que poderia ser também colocada como personagem principal em
outra história ficcional, pois a narrativa da vida ficcional de Rita carrega pontos simbológicos no mundo feminino, social e cultural, por isto trazemos aqui fragmentos do texto que contam quem é estar mulher.
A obra O Cortiço é iniciada e só podemos conhecer nossa personagem a partir do capítulo três, uma vez que ela não é a personagem principal do romance. De início não temos a fala de Rita, mas sim a visão que algumas companheiras de trabalho tinham a respeito da baiana:
Uma conversa cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a respeito da Rita Baiana.
— É doida mesmo! ... censurava Augusta. Meter-se na pândega sem dar conta da roupa que lhe entregaram... Assim há de ficar sem um freguês... — Aquela não endireita mais! ... Cada vez fica até mais assanhada! ... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a festa da Penha! ...
— Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? levaram ai numa bebedeira, a dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!
— Para tudo há horas e há dias! ...
— Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer quem puxe por ela!
— Ainda assim não e má criatura... Tirante o defeito da vadiagem...
— Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém pro dia de amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
— Depois é que são elas! ... O João Romão já lhe não fia!
— Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela tem dinheiro é porque o gasta mesmo! (AZEVEDO, 1997, p.28)
Como podemos verificar nesses relatos, as lavadeiras demonstram insatisfação com a maneira que Rita Baiana leva a vida, pois entre todas, ela era a que mais buscava alegria, agitação e diversão, seja por ser “assanhada” no comportamento, na maneira de dançar o pagode, ou no relacionamento com Firmo, que por muitas vezes largava tudo para viver amores com ele. Aos olhos das lavadeiras, ela deveria ter mais responsabilidade com seu trabalho e entender que nem todo momento é horário de diversão.
Ao verificamos esse trecho que citamos acima, é notório entender, que tanto Rita e o seu companheiro Firmo, são personagens que carregam estereotipo ligado a sua etnia, visto que os dois são mestiços, logo se entende o porquê de serem construído com essas características tão diferenciada daquele meio, pois ao longo dos anos foram estabelecidas ideias de que ser mestiço estava relacionado à malandragem.
Esse olhar preconceituoso está associado à época colonial, mas ainda repercutia no século XIX; talvez essa representação estereotipada seja um dos motivos para Azevedo ter criado esses personagens, pois através destes, podemos entender o que era ser mestiço naquela época.
Apesar de ser expresso o lado negativo da Baiana, as personagens também demonstram que ela é uma boa pessoa “— Bom coração tem ela” e isto também é visto na chegada dela no cortiço, capítulo VI da obra, após alguns dias ausentes “Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas dela” (AZEVEDO, 1997, p.44), demonstravam sentimento de carinho e alegria ao vê-la.
Aquela amigação com a Rita Baiana era uma coisa muito complicada e vinha de longe [...] Firmo tomou conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciúmes, o que aliás não impediu que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem e de novo se procurassem. Ele tinha “paixa” pela Rita, e ela, apesar de volúvel como toda a mestiça, não podia esquecê-lo por uma vez; metia-se com outros (AZEVEDO, 1997, p.51)
Com esse relacionamento informal e essas características que encontramos em Rita no capítulo VI, observamos que todas essas informações desmontam o padrão de mulher descrita no período romântico; para completar a desconstrução o narrador passa outras informações, que também vão ao desencontro com a mulher romântica, observem: “Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver o pé sem meia num chinelo de polimento com enfeites de marroquim de diversas cores.” (AZEVEDO, 1997, p.45), nesse fragmento Rita é apresentada com vestes do dia a dia, que não representa os vestidos volumosos e extravagantes do romantismo, mas sim uma saia simples, que possui um tamanho considerado para se mostrar o “pé”, ela também não estava de meia e nem sapato, usava um chinelo.
São traços que destacamos para colocar a prova o quanto os escritores naturalistas estavam empenhados em criar uma nova mulher, que se assemelhasse ao mundo real. No contexto romancista as mulheres não seriam apresentadas com trajes como este de Rita, por outro lado, precisariam trajar vestidos nobres, usando luvas, meias e sapatos para não mostrar a pele. Com isto podemos colocar Rita como uma das representantes, que rompe com o tradicionalismo romântico.
Como Rita pode ser considerada exemplo do rompimento com o movimento literário Romantismo, ela também carrega posicionamentos, ideias e comportamento que se diferença do esperado de uma mulher naquele contexto,
observem que o narrador, na maioria das vezes, procura dar ênfases as curvas da Rita Baiana, ele expõem as curvas corporais, a sensualidade e o molejo baiano, que por muitas vezes encanta quem está próximo:
Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que lhe iam devorar o coração. (AZEVEDO, 1997, p.60)
Dentre tantas personagens que se encantam com a Baiana, destacamos a personagem Jeronimo, pois ele não só admira, mas passa a gostar dessa mulher após vê-la dançar, o que ocasiona uma profunda transformação, que inicia um dia após ele ter visto Rita dançar. No dia seguinte Jerônimo não se sente bem e Rita ajuda Piedade, esposa de Jerônimo, a cuidar dele, nessa situação a Baiana coloca o português para beber café, bebida que não é cultural dos portugueses, mas passa a ser para Jerônimo, após este acontecimento.
O português a cada dia se transformava, passando a adquirir a cultura brasileira e abandonando a portuguesa, agora o pagode e chorado era algo presente no seu dia a dia, tudo para estar perto de Rita, no entanto, essa aproximação chama atenção não só da Baiana, mas de Firmo, seu companheiro, o que leva a uma desavença entre os dois homens:
Mas, lá pelo meio do pagode, a baiana caíra na imprudência de derrear-se toda sobre o português e soprar-lhe um segredo, requebrando os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte dele, medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jerônimo, também posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual [...] os dois homens, perfilados defronte um do outro, olhavam-se em desafio. (AZEVEDO, 1997, p.99)
Enquanto os dois brigavam, pessoas ficavam apavoradas com a confusão e piedade gritava desesperada, Rita olhava “a certa distância, de braços cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso encrespava- lhe os lábios.” (AZEVEDO, 1997, p.100), o olhar da Baiana pode ser comparado à teoria darwinista em que o mais forte sobrevive e fica com a presa no reino animal. No mundo ficcional ficaria com a Rita, outro detalhe que encontramos nesse trecho é a personagem se divertindo de prazer com aquela situação conturbada, pois demonstrava alegria em ser o pivô da briga entre ambos.
No fim da briga, Firmo golpeia Jerônimo com uma faca e foge do cortiço, enquanto isto, Rita e Piedade socorre o português, que é levado às pressas para o hospital. Depois daquele dia, Firmo não podia mais andar no cortiço de João Romão, agora morava no cortiço “Cabeça-de-gato”, mas continuava se encontrando
com a amada, que ao passar dos dias fora se distanciando e isto levava Firmo a ficar desconfiado e entre esses encontros, teve um que a amada não apareceu, logo fora investigar o motivo da ausência:
A Rita não me apareceu hoje, sabes? Não foi e eu bem calculo por quê! — Por quê?
— Porque a peste do Jerônimo voltou hoje à estalagem! — Ahn! não sabia! ... A Rita está então com ele? ...
— Não está, nem nunca há de estar, que eu daqui mesmo vou à procura daquele galego ordinário e ferro-lhe a sardinha no pandulho! (AZEVEDO, 1997, p.142)
Nesse trecho encontramos a personagem Pataca conversando com Firmo sobre a alta hospitalar de Jerônimo, nesse trecho observa-se uma conversa amigável, no entanto, tudo se passava de uma emboscada do Pataca, pois ele havia planejado junto com Jerônimo de leva-lo para uma armadilha, na qual Firmo seria morto e isto acontece.
Livre do homem que atrapalhava sua relação com a amada, ele se vê acessível para viver amores com ela, enquanto a Rita também já se via entregue de amores e prazeres por este “mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior” (AZEVEDO, 1997, p.145), ambos se desejavam e como é possível perceber o pensamento de Rita é colocado com posicionamentos Darwinistas “animal bom e forte”, no qual o mais forte sobrevive e deterministas, pois ela prefere o “europeu” de “raça superior”, o que faz indicar o quando a raça poderia determinar o privilegio e destino do ser.
Após matar Firmo, Jerônimo procura Rita e conta do acontecido e depois a convida para morar com ele em outro lugar, pois ele iria se separar e deixar os bens materiais com a ex-esposa, como resposta “atirou-se ao pescoço dele e pendurou- se-lhe nos lábios [...] Aquele novo sacrifício do português; aquela dedicação extrema que o levava a arremessar para o lado família, dignidade, futuro, tudo, tudo por ela, entusiasmou-a loucamente.” (AZEVEDO, 1997, p.147), como podemos perceber Rita demonstra entender, que ele se relacionar com ela, traria várias consequências, tanto familiar, social e econômico, talvez por ele quebrar padrões impostos pela sociedade, uma vez que ele era casado, não deveria abandonar a família e ao se relacionar com uma mulher negra, tida como raça inferior, não lhe
traria respeito no meio social, mas ambos não importavam com esses fatores determinantes.
Os dois passam a morar juntos e com o tempo Jerônimo entrava em declínio financeiro e social, procurava fazer as vontades da amada em tudo que ela desejava isto acabou acarretando em um gasto excessivo, do qual ele não tinha condições de manter, além disso, a união dos dois ocasionou em uma transformação, que “O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro” (AZEVEDO, 1997, p.169), nada mais importava para ele, nem mesmo a filha, que ele tinha com piedade, apenas a amada.
Com esses fragmentos da obra podemos perceber que nosso objeto de estudo “a personagem Rita Baiana”, promove uma transformação cultural em Jerônimo, por ele deixar de lado seus costumes para adquirir os costumes brasileiros; social, pois ele abandona a família e se relacionar com uma mulher mestiça, o que era mal visto naquele contexto e econômico, uma vez que, ele deixa de ser um homem organizado com as financias e entra em declínio financeiro, quando se relaciona com Rita.
O que é possível entender nessa transformação que é gerada após o convívio com a brasileira é à força do determinismo naquele meio, pois o português, raça superior no raciocínio da sociedade da época, não conseguiu vencer o meio, a raça e o contexto na qual estava inserido. Por outro lado, Rita pode até ter influenciado Jerônimo na transformação, mas ela também não consegue vencer aquele meio, pois sua raça era colocada como inferior, logo o destino estava determinado a viver as margens da sociedade.
Com base nessas colocações podemos entender que Rita também é na obra representante das ideias femininas, na qual seu olhar é manifestado com ideias revolucionárias, que entregam o que acontecia no meio social, uma vez que eram impostos padrões ao mundo feminino, Rita vem e quebra qualquer paradigma ligado a tabus preconceituoso no comportamento da mulher, porque ela possui suas próprias ideias e conceito a respeito do seu gênero. A única latente que ainda promove uma construção preconceituosa no ser de Rita é o estereotipo que ela carrega por ser mestiça, pois acaba sendo imposta uma liga de características, que promove um conhecimento negativo a respeito da mulher mestiça.