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3.1.1 Teoria Sociolinguística Variacionista

Contrapondo-se à visão de língua utilizada pelas escolas formalistas – dentre elas o Estruturalismo – até a década de 60 do século passado, que definia língua como um sistema homogêneo e uniforme, a Teoria Socioliguística Variacionista propõe, a partir de questionamentos sobre o funcionamento da língua no momento em que sua estrutura está em processo de mudança, que a língua é naturalmente heterogênea e que é perfeitamente possível fazer uma descrição sistemática das variações que nela existem (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 2006 [1968], p. 87- 88).

Com base nessa compreensão, a variação linguística, estudada por meio da análise da realidade linguística observável na fala de determinada comunidade, seria o objeto de estudo da Teoria da Sociolinguística Variacionista, uma vez que, em qualquer comunidade de fala12, segundo Labov (2008 [1972]), haveria processos de variação, os quais seriam motivados por fatores internos e externos à estrutura da língua, relacionando-se não só a aspectos meramente linguísticos como também à forma de organização social e cultural da comunidade analisada. Ressalte-se que, através da análise estrutural dos processos de variação, é possível conhecer melhor os mecanismos que atuam nos processos de mudança em curso na língua, ainda que a existência de variação linguística não implique necessariamente mudança linguística, pois toda mudança linguística pressupõe variação, já que as mudanças ocorrem a partir de fatos heterogêneos dentro da língua, mas nem todo fato heterogêneo resulta em mudança (LABOV, 2008 [1972]).

Apesar de tratar de fatos heterogêneos, a Teoria Sociolinguística Variacionista procura analisar, de forma sistemática, as variações linguísticas ocorridas dentro de uma comunidade de

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Comunidade de fala seria, segundo a concepção laboviana, um grupo de pessoas que compartilha um mesmo sistema

de avaliação do uso da linguagem que o diferencia de outros grupos. .

fala, levando em consideração também seu contexto sociocultural, uma vez que fatores extralinguísticos podem contribuir significativamente para explicar os processos de variação no uso da língua. Nesse tipo de estudo, é justamente a análise das variáveis sociais que vai demonstrar se os processos de variação estudados apontam para uma mudança linguística em curso – situação em que há forte predominância de uma variante linguística em relação à(s) outra(s), tendenciando, assim, ao seu uso categórico e ao consequente desuso da(s) outra(s) variante(s) – ou apenas refletem uma variação estável – situação em que não há predominância de uma variante linguística em relação à(s) outra(s).

É importante observar que esse conceito laboviano de mudança em curso desfaz a antiga e errônea compreensão de que a mudança linguística só poderia ser observada depois de sua total implementação, permitindo que fosse possível observar a tendência de mudança a partir da variação linguística constatada num determinado momento. A variação linguística é um fenômeno sistemático e, combinando fatores linguísticos e sociais, seria possível visualizar a variação sincrônica da gramática de determinada comunidade de fala, refletindo assim o processo de mudança em curso no plano diacrônico. Já que nem sempre é possível pesquisar os fenômenos linguísticos em tempo real, o estudo da mudança no tempo aparente – termo usado pelo próprio Labov – faz uma espécie de projeção sobre o tempo real, possibilitando o entendimento de que os diferentes comportamentos linguísticos de determinadas gerações de uma comunidade de fala refletiriam momentos diferentes anteriores no desenvolvimento da língua.

3.1.2 A Transmissão Linguística Irregular

Além de se amparar nos pressupostos da teoria da Sociolinguística Variacionista, a presente pesquisa está embasada no conceito da Transmissão Linguística Irregular (cf. seção 1.2), o qual abrange os processos históricos de contato maciço entre povos falantes de línguas tipologicamente distintas, entre os séculos XVI e XIX, tendo em comum o fato de os falantes das línguas do grupo dominado – em sua maioria adultos – serem forçados a adquirir a língua do grupo dominante em condições bastante adversas de aprendizado, formando variedades de segunda língua que servem de modelo para aquisição da língua materna das novas gerações de falantes, já que o grupo dominado acaba, via de regra, abandonando sua língua nativa. Tais processos podem resultar na formação de uma língua crioula ou propiciar o surgimento apenas de uma nova variedade da língua do grupo dominante, apresentando, é claro, marcas de variação e mudança linguística induzidas pelo contato entre línguas.

Segundo Lucchesi (2003), quando o contato entre línguas conduz somente à formação de uma nova variedade histórica da língua alvo que apresente características estruturais semelhantes às que se encontram nas línguas crioulas, a transmissão linguística irregular é considerada de tipo leve,

havendo, nesse caso, uma menor intensidade da erosão gramatical que se dá no início do contato linguístico e, consequentemente, uma menor necessidade de recomposição das estruturas gramaticais no momento da socialização/nativização da nova variedade linguística que se formou. Ressalta-se, porém, que, apesar da pouca intensidade, a erosão gramatical ocorrida no processo de transmissão linguística irregular de tipo leve acarreta, se não a eliminação total, um amplo processo de variação no uso dos elementos que costumam ser afetados nas situações de contato maciço entre línguas, tais como a morfologia verbal de pessoa e número, a concordância nominal de gênero e número e a flexão de caso dos pronomes pessoais.

Roberts (1999) afirma que, assim como ocorre em qualquer processo de aquisição de segunda língua, a variedade linguística formada pelo processo de transmissão linguística irregular de tipo leve sofre, durante a socialização/nativização, a eliminação dos elementos gramaticais sem valor referencial, com menor funcionalidade comunicativa e com carga semântica mais tênue ou menos transparente, preferencialmente aqueles que sejam distintos dos que aparecem na língua nativa dos falantes ou aqueles que estejam ausentes nela. Tal afirmação fortalece a hipótese de que morfemas gramaticais livres, como é o caso dos clíticos, têm grandes possibilidades de sofrerem drásticas reduções ou mesmo serem eliminados na nova variedade linguística gerada pelo processo de transmissão linguística irregular de tipo leve.

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