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Objectifs expérimentaux

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Chapître 1 – Cadre théorique - Effet de la valence des mots sur les processus d’activation,

4- Objectifs expérimentaux

Quando penso no processo de construção da surdez e dos surdos em Várzea Queimada, bem como coloco em perspectiva o caso etnográfico apresentado acima, logo me vem à mente os inúmeros

estudos antropológicos sobre a relação da construção da diferença e dos diferentes, imersos em uma “mesma cultura”. Falo aqui, principalmente, daqueles estudos que colocam em evidência o caráter de “desvio” para alguns sujeitos sociais, em detrimento aos demais.

Para não ir muito longe, peço licença para dar início com Erving Goffman, autor importante, tanto para a construção da ideia de “estigma”, quanto pelo seu empreendimento na reflexão sobre os “jogos de cena” e as “formas de fala” (GOFFMAN, 1992). Goffman (1988) nos traz o “outro”, aquele que, vestido com um manto que o segrega, é tratado de diferente forma pela sociedade. O estigmatizado não apenas assume o seu papel social, como também carrega esse rótulo como uma identidade para o restante da vida. Parece que para Goffman (1988) o estigma constrói laços e identidades sociais.

Porém, como nos mostra Foucault (1997), o processo de construção de alguém (ou algum grupo social) enquanto diferente não é natural e passa por uma intensa historicidade, em que inúmeros mecanismos são dispensados para tal empreendimento. Seja o louco, o homossexual (FOUCAULT, 1985), ou outros “anormais” (FOUCAULT, 2001), o que o autor está mostrando é uma espécie de arqueologia que aponta para os caminhos que foram traçados, em diferentes momentos, para relegar aos indivíduos que são identificados enquanto pertencentes a determinados grupos uma posição de inferioridade ou marginalidade.

A ideia de uma carga negativa – estigma – ou anormalidade em “corpos que fogem da norma” é um dos discursos legitimadores da chamada “cultura surda” ou da ideia de uma identificação dos indivíduos por uma “diferença”. Aqui, de alguma forma, podemos pensar em toda a contribuição da escola de Chicago (VELHO, 2009), e nos estudos que se seguiram. Ainda, podemos salientar uma leva de estudos sobre “identidades diferentes”, como por exemplo, a homossexualidade (MACRAE, 1983; PARKER e TERTO JR., 1998), a surdez, entre outros. Ou seja, todos os estudos que traçam a ideia de uma “abnormalidade” (partindo de uma regra) a partir do conceito de identidade.

A questão da identidade e da normalidade é um dos grandes eixos argumentativos dos estudos da deficiência, como aponta Reid- Cunnigham (2009). Fazendo uma análise da literatura sobre deficiência e desabilidade disponível, podemos perceber uma grande ênfase nos conceitos de estigma ou de “anormalidade”. Como salienta Diniz (2007), quando falamos em pessoas com deficiência, falamos, acima de

tudo, de corpos fora da norma, corpos que não correspondem a uma expectativa social (moral) para os indivíduos.

Como nos lembra Tommbs (2001), um corpo deficiente é um corpo anormal, doente na sociedade industrial. Tomando emprestada sua própria experiência para a construção do texto, a autora apresenta como, além de toda uma ideologia em prol de um corpo “ideal”, as cidades (ruas, prédios, casas, transporte, etc.) não foram (e não são) projetadas para pessoas com outros padrões vivenciais. Essa tensão entre as experiências reais de pessoas diferentes e cidades planejadas para um corpo hegemônico cria a ideia de desabilidade. Desabilidade está totalmente vinculada à impossibilidade de realizar determinada coisa, mas isso não está na raiz do problema. Como a autora argumenta, é o planejamento urbano e as ideologias do “corpo perfeito” que constroem os principais impeditivos para a vida em sociedade.

Em outras palavras, como nos aponta Reid-Cunningham (2009), os antropólogos com a perspectiva semelhante às apresentadas acima vêm trabalhando com a ideia de desabilidade como socialmente construída. Por não ser um processo natural, a deficiência depende pouco do grau ou da forma do “impedimento”, sendo mais perceptível quando prestamos atenção nas regras sociais que definem a “normatividade dos corpos”, comportamentos e padrões estéticos.

Outro grande espectro teórico que guia os estudos sobre deficiência e desabilidade, e que aqui é particularmente relevante, diz respeito às ideias de Victor Turner (1984) sobre “liminaridade”. A ideia de liminaridade de Turner, colocado à prova nas teorias do ritual, esboça algumas considerações sobre os momentos em que, isento de “papéis sociais”, o iniciante de um ritual qualquer se encontra em uma situação desconhecida para a sociedade. Ele (o iniciante) não faz parte, nem do antigo papel social e nem do futuro, estando em um ponto das estruturas sociais que é muito difícil de ser catalogado. Não é à toa que, muitas vezes, esse período de liminaridade é visto como “perigoso” por algumas sociedades44.

Os sujeitos liminares, segundo Turner (1984), colocam em voga duas visões de sociedade: uma pautada em estruturas de posições sociais, papéis extremamente definidos; outra, de uma não estrutura, de

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DaMatta (1997) aplica a teoria de Turner para pensar o carnaval brasileiro e mostra como as estruturas sociais são postas em reflexão nos momentos liminares (que o autor designa o carnaval). Ver, a coletânea com pesquisas etnográficas, organizada por Langdon e Pereira (2012), em que são descritos vários eventos sociais sob a ótica de Turner.

uma possibilidade transcendente. Os indivíduos ou grupos liminares, para o autor, estão subjugados à pressão da sociedade para a manutenção da ordem, e é daí que surge a série de prescrições, tabus e perigos que os rondam.

Nicolaisen (1995) aponta para a importância da reflexão sobre as noções de pessoa e não pessoa entre os Bah do Borneo Central para se pensar sobre a deficiência. O autor, fazendo relações com o complexo de transformações nessa comunidade ao longo de mais ou menos 150 anos, diz que a ideia de desabilidade está profundamente associada a questões importantes nas relações sociais. O que transforma os indivíduos em “outros” dentro da sociedade é sua impossibilidade de corresponder a expectativas sociais. E isso não está, necessariamente, associada a algum impedimento “físico/sensorial”.

O processo de reconhecimento de alguns sujeitos enquanto liminares, especialmente quando estamos nos referindo a “pessoas com deficiência”, serve como um pano de fundo para categorizá-los dentro de todo o processo social geral disparado nas localidades. Em todas as sociedades das chamadas “línguas indígenas ou rurais de sinais” citadas no início desta tese, os surdos sempre tiveram algumas características que os separam dos demais, e os constroem enquanto diferentes. As formas que os diferenciam dos demais os constroem também como sujeitos vulneráveis a processos de categorização social.

Vejamos no processo etnográfico. Esboçarei considerações sobre alguns elementos que demonstram esse caráter disruptivo e que ligam, cada vez mais, os parentes entre si, por um lado, e estabelecem uma diferença de todos os parentes com os mudos. De um lado, coisas que são vivenciadas dentro da comunidade e que fazem sentido se colocarmos em perspectiva as práticas locais. De outro, problemas vivenciados pelos mudos fora da comunidade, que reforçam a ideia de parente, de núcleo familiar e de competência na cena.

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