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Obesity alters the gustatory perception of lipids in the mouse: plausible involvement of the lingual CD36

No decorrer deste capítulo, procurei mostrar que, no repente, o cantador se coloca em relação com as regras da cantoria, com o ritmo incorporado da poesia, com valores e idéias englobados por temáticas recorrentes, com modelos musicais, com conhecimentos sobre assuntos diversos, e com a ação dos outros presentes na cantoria. Suas habilidades podem ser entendidas como competências para o jogo interativo do improviso poético em que versos têm que ser criados “na hora”, “de repente”, e mais que isso, em diálogo com o que ocorre naquela situação. Contudo, seria pouco entender o cantador como uma pessoa que domina saberes e técnicas, pois esta pessoa é também instituída por seus saberes e técnicas. Quero dizer com isso que o cantador fabrica sua subjetividade e sua identidade social por meio de suas habilidades poéticas e da prática da cantoria.

Para compreender o lugar e as funções sociais do cantador, é necessário considerar que sua arte, como qualquer outra arte, proporciona mais do que um “prazer estético”; ela cria e veicula representações e motiva formas pelas quais os sujeitos organizam sua experiência e sua relação com o mundo. Para entender o papel do cantador, é necessário pensar a função de sua poesia em seu contexto de realização.

Em Fortaleza, pediram o mote “Essa Roupa de couro empoeirada / É a prova que vim lá do sertão” para Sebastião Dias e Zé Cardoso. Destaco uma estrofe deste último.

A lembrança do campo, ainda carrego, Porque foi minha única faculdade. No momento que eu entro na cidade, Eu me sinto perdido e não lhes nego: Eu sei dar nó de porco, dou nó cego, Mas um nó de gravata, eu não dou não. Mas, caindo uma corda em minha mão, Num segundo tá feita uma laçada.

Essa roupa de couro empoeirada É a prova que vim lá do sertão.

Nas capitais nordestinas e em outras regiões do país, cantorias e festivais de violeiros funcionam como espaço de socialização de migrantes sertanejos (Ayala, 1988; Lopes, 2001; Osório, 2005). Os versos sobre o sertão frequentemente falam dos ciclos de secas e chuvas pelos quais o sertanejo orienta sua vida e da saudade da terra natal; e valorizam o modo de vida e a identidade do camponês em contraposição aos valores e símbolos de status citadinos. Essa temática é comum tanto no improviso quanto nos poemas e canções. Nestas composições, é comum o lamento daquele que saiu do lugar onde foi criado e não pode retornar. Em algumas canções muito requisitadas, o migrante toma consciência que seu lugar de origem passou por transformações e retornar para lá não traria o passado de volta. No mote citado, o “lá” indica a separação para com o sertão, enquanto a “roupa de couro” (usada no trato com o gado) é colocada como elemento que religa simbolicamente o eu lírico às suas origens. O poeta desenvolveu a idéia falando do desajustamento do migrante na cidade, mas valorizou essa condição afirmando que o sertanejo domina saberes e técnicas que os citadinos não dominam.

Às vezes, pede-se ao poeta que cante sobre sentimentos particulares, como expõe Raulino Silva:

Pense, você [um ouvinte] ter um sentimento e transformar esse sentimento num mote, ou num assunto e expor a uma pessoa que vai desenvolver o que você sente. Não é o que eu sinto, é o que você sente. Quando você pede um mote “Cante, poeta, o que eu sinto, / Que eu sinto e não sei cantar”. Você tá pedindo pro cara cantar o seu sentimento. E como é que eu vou saber? É preciso uma sensibilidade muito diferente da sensibilidade das outras pessoas pra você fazer isso.

Raulino cita um antigo mote que se tornou popular e é pedido por ouvintes em cantorias. Nele, se atribui ao repentista um papel especial, o de traduzir em versos sentimentos de quem o ouve.

Assisti a uma cantoria em área rural na qual uma pessoa pediu para que se cantasse uma homenagem a um familiar falecido. O homenageado era um ouvinte de cantoria, e os poetas conheciam a ele e sua família. Cantaram o baião mencionando fatos passados, sua profissão, os encontros que tiveram com ele e a maneira como faleceu13.

[…] conheci,

Cidadão de alto preço. Gostava de cantoria E eu sei do seu endereço Se a mãe dele ainda for viva, É viúva e eu conheço

(…)

Trabalhou, sentiu prazer E mostrou esforço profundo. Protegia o cidadão,

Mas prendia o vagabundo. […] foi mais uma vítima Da violência do mundo. (…)

Esse caso aconteceu E pra nós não é novidade. Perto do […]

E muito mais da cidade. Não tem coração que agüente Os seis anos de saudade.

Após a cantoria, um dos poetas me revelou que o homenageado era um sujeito violento e que ele fora assassinado ao tentar matar um homem. Por isso, não o considerava merecedor de homenagens apesar de ter sido um admirador da cantoria. Fez a homenagem porque entende que esta seja sua função. Assim, para os poetas aquela homenagem era uma mentira; para os ouvintes, uma verdade plena. Enquanto os poetas cantavam, a pessoa que fez o pedido chorava. A carga emocional do momento evidenciou o significado da poesia para aquele grupo. Pode-se questionar se o ouvinte chorava simplesmente porque se falava de um ente querido morto em circunstâncias trágicas. Contudo, o valor que se confere ao que os poetas cantam se mostra menos no choro motivado pelos versos que no pedido para que cantassem sobre lembranças dolorosas.

Seja no caso da cantoria sobre o sertão e o retirante ou na homenagem póstuma, o cantador, ao atender pedidos, elabora em discurso poético sentimentos, idéias e opiniões e, ao fazê-lo, confere-lhes uma forma pública. Obviamente, a cantoria serve a muitas outras funções, sendo uma forma de sociabilidade e divertimento. Mas seu fazer poético é movido, em grande medida, pela atribuição de celebrar publicamente idéias e sentimentos e de dar vivacidade e concretude a valores coletivos. Assim, em função de suas habilidades poéticas, o cantador se coloca como figura diferenciada nas relações com seus ouvintes e é por meio dessas relações que ele se constitui enquanto pessoa.

Capítulo 2