• Aucun résultat trouvé

O RGANIZATIONAL AND MANAGERIAL INNOVATIONS IN LARGE COMPANIES AND THEIR IMPACT ON TECHNOLOGICAL

Problems and Questions

O RGANIZATIONAL AND MANAGERIAL INNOVATIONS IN LARGE COMPANIES AND THEIR IMPACT ON TECHNOLOGICAL

Os camponeses dos assentamentos Grotão e Buriti já possuíam, anteriormente, vínculos de parentesco e vizinhanças. “Já eram meus vizinhos, morava lá onde eu morava” (EN45). Essa aproximação facilitou a integração deles à vida comunitária dentro dos projetos de assentamentos.

Esse povo aqui é quase todos meus parentes. Só aqui mesmo morando perto de mim têm seis filhos, sobrinha. Mais lá para cima, tem meu primo que é o pai dela, tem o EN28 que é meu parente. Nessa rua aqui, só não é parente essa menina que mora aqui perto de mim e outro. O restante é tudo (EN41).

Eu tenho parente aqui no assentamento Babaçu, no Grotão, no Buriti. Nós somos dezessete irmãos. E aqui nós temos uns dez, só nos assentamentos! Mas graças a Deus de irmãos sobrinhos tá quase todo mundo assim. (EN4)

No meu lote estava outro rapaz que morava comigo, sabe!? Hoje ele está no PA Buriti porque quando cortou a terra, ele ficou de fora. Ele ficou assim, nervoso. Quando o sindicato levantou essa terra lá no

PA Buriti, na época o presidente era daqui, ele arrumou para ele ir para lá. (EN12)

Nota-se que há um bom relacionamento entre os assentados, geralmente, ao entardecer, sentam para conversar com os vizinhos e amigos nos bancos da porta das casas, para falar sobre suas vidas e suas lutas.

A relação é boa demais. Os vizinhos, eu visito todos! Tem dia que não vai nem uma hora, eu visito todos, é conversando direto (EN48). A gente vai à casa do outro, conversa, proseia, é a vida. É uma comunidade unida. Dos assentamentos da região, esse é primeiro lugar. Aqui não tem violência, aqui é bom! (EN21)

O convívio na agrovila com as vizinhanças próximas e o relacionamento face-a-face do dia a dia favorece o interconhecimento do grupo. Todos se conhecem, compartilham uma vida de valores, costumes e uma trajetória de vida semelhante. A solidariedade está presentes no dia a dia, há monitoramento contínuo da vida de um e do outro58 que fortalece o convívio com as vizinhanças.

Teve um dia que eu não tinha nada aqui, moço. Quando dei fé chegou um pessoal aqui dizendo: - Nós estamos aqui pedindo uma ajuda para uma família que está necessitada. Eu não tinha nada para dar, né!? Eu cheguei até a chorar naquele dia. Quando eu soube que era para mim! Rapaz, mesmo quando tu não tem, né? Eles me arrumaram um bocado de coisa, um bocado de coisa... Além d´eu não ter nada para os meninos comer, ainda estava meio adoentado, sem quase poder trabalhar. Aqui é o seguinte, você precisou de alguma coisa a comunidade toda se junta para ajudar... (EN34) Quando uma pessoa adoece, às vezes, por exemplo: quebra uma perna ou quebra um braço, e fica impossibilitado de colher, junta a comunidade todinha para colher o arroz dele e coloca lá. É fácil, rápido. (EN51)

Tal solidariedade gera uma dívida moral que os assentados esperam ser retribuídas quando também estiverem em uma situação semelhante. As relações sociais dentro do assentamento selam a amizade entre as famílias, parentes e vizinhanças e expandem a reciprocidade. É praticamente impossível, como analisou

58

Reflexividade: Antony Giddens (2009) define como o monitoramento contínuo da ação humana levando-se em conta que o outro também assim procede em relação ao outro.

Candido (2001), que um camponês não necessite recorrer a solidariedades vicinais durante o transcorrer de um ano do calendário agrícola, para atender a demanda de mão de obra dentro do lote.

[...] no tempo do broque, você leva dois adjuntos para ajudar. Adjuntos que eu digo é assim, é de cinco pessoas! Você leva de cinco a primeira vez e depois leva mais cinco. São dois dias para cada linha, se o mato for bom! Se for ruim, leva três dias (EN34). O cabra não pode viver sem parceiros! Todos nós que vivemos em cima dessa terra deve arranjar parceiros, tem que arrumar amizade não inimizade, né! Aqui, acolá quando alguém aperreia vai cobri uma casa, vamos ajudar; rebocar uma casa, vamos ajudar! Aqui, acolá quando alguém adoece e não pode botar uma roça, formamos um mutirão e vamos lá fazer uma roça para ajudar, né! Aqui já aconteceu muitas vezes! Graças a Deus, comigo ainda não aconteceu (EN27)

As relações de parentesco e vizinhanças se ampliam também pelo compadrio. Os assentados selam as relações de confiança, afeto e solidariedades. É uma relação como se fosse uma extensão da família “[...] considero que nem parente, são todos conhecidos” (EN45). Os compadres são pessoas que podem auxiliar na orientação dos filhos ao longo da vida deles e geralmente são da própria comunidade com os quais o assentado pode contar nas horas de alguma necessidade.

A consideração, o respeito, a comunicação e pela consideração de família também, né!? Tanto eles como nós, assim do jeito que eu escolhi, eles também me escolheram (EN43).

[...] A gente tem atenção pelo afilhado e pelo compadre, porque a gente tem o afilhado como filho... o que a gente faz com o filho, faz com o afilhado (EN33).

Eu por exemplo, cuido do gado da minha comadre, só por consideração mesmo! Não cobro nada, porque os meninos dela tão pequeno ainda. O marido se separou dela e ela tem 4 filhos: duas meninas e dois meninos (EN43).

Além do batismo dos filhos pelo qual os assentados tornam-se “compadres de almas”, há também outra forma de consagrar a amizade. Simbolicamente, em noites de fogueira, no período das festas juninas, se tornam “compadres de fogueira”. O ritual é descrito a seguir.

Uma comparação faz de conta que nós vamos passa fogo, né? Atravessa um tição ali e damos as mãos por cima do fogo. Aí, nós dizemos: - São João disse, São Pedro confirmou. Nós há de sermos compadres, Jesus Cristo mandou! (EN21)

Apesar de ser um ritual simbólico, o compromisso assumido é levado a sério pela maioria dos assentados. É bastante comum ocorrência desse tipo de compadrio.

Compadres eu tenho. EN53, EN42, EN36 e EN21 são compadres de alma mesmo. (EN52)

Tenho um compadre, só. Esse compadre é de fogueira, passamos o fogo e nos chamamos de compadre até hoje! (EN38)

O clima harmônico dentro dos assentamentos não significa dizer que, esporadicamente, não haja algumas desavenças entre vizinhos e entre os assentados. Foram relatadas, por exemplos, algumas intrigas devido à criação de galinhas que ultrapassam os limites do terreno da casa do outro, o que gera confusão na hora de distinguir de quem é a posse de um ou outro galináceo, ou o mau cheiro exaurido pela criação de suínos no fundo do quintal.

Crio umas galinhas aqui no quintal, cercadinho. Não crio porco porque os vizinhos implicam. Tem um vizinho ali que tem um chiqueirinho no fundo da casa dele, quando dá a boca da noite só falta matar a gente (EN48).

Se o seu bicho entrar no quintal da minha casa e eu como ou boto num saco e vou vender na rua? Achei melhor acabar logo com as galinhas do que ficar desgostoso. É um problema grande o vizinho atrapalhar a gente nesse ponto de vista, né!? (EN47)

As pessoas entrevistadas que moram nos povoados, na maioria das vezes, não criam galinhas nem suínos nos lotes, pois alegam que as criações sofrem ataques de animais silvestres ou são furtadas quando elas não estão presentes, mostrando preocupações quanto a questões de segurança e o aumento de ocorrências de pequenos furtos, geralmente realizados por pessoas de fora do assentamento.

Eu tinha ovelha, porco. Os bichos estavam comendo. Fiquei desgostoso e acabei. Eu tinha pato e não sei se foi jacaré ou os

porcos, porque um apareceu só os “cacrejos” e outro com a pata quebrada... Aí desgostei porque eu não estou mais vivendo lá. (EN22)

Eu moro dentro da minha roça. Eu não quis acolá. Porque interessa meus bichinhos. Por aqui eu crio minha galinha, meus capotes, meus patos, tudo sossegado. Se fosse lá, eu não criava minhas coisinhas. (EN24)

Eu acho bom demais morar aqui. A gente cria os bichinhos, sossegado. Não está perturbando a gente. Fiz a casa bem no meio do lote, as minhas galinhas não vai para os vizinhos, meus porcos, nada... (EN32)

A associação é reconhecida como órgão de regulamentação interna das relações entre os indivíduos que compõem o assentamento. Entre as regras estabelecidas de forma coletiva, estão: o uso comunitário dos espaços coletivos; a exploração da madeira da reserva legal; as regras de funcionamento das máquinas, equipamentos e veículos etc. A maioria dos entrevistados reconhece a importância da associação como órgão mediador entre as questões de interesse dos assentados junto às outras instituições e a coletividade dentro do assentamento.

[...] tudo que foi entrado aqui dentro foi através da força da associação: estrada, energia, água, as casas, o projeto daquele açude, os tanques, o telefone... é força da associação. Se não tiver uma associação bem unida, legalizada, e um presidente que corra atrás das coisas, não entra. Esse tempo todinho, o presidente estava em cima. (EN33)

Nós somos sócios, pagamos R$ 60,00/h que é para manutenção do trator. Ai o terceiro que não é sócio paga R$ 120,00/h. Uma hora de trator se a terra já foi arada, ele faz duas linhas (EN47)

A associação é boa! As coisas vieram para nós porque a nossa associação tá em dias e as coisas aqui são bem combinadas. Tem que ser todo mundo contribuindo com as coisas. Todo mundo é sócio, todo mundo não joga pedras para um lado e para o outro. (EN25)

Há dentro dos assentamentos espaços de lazer para os moradores da agrovila, como, por exemplo: campos de futebol, salão de festas, escolas, igrejas etc. O PA Buriti possui uma estrutura que oferece melhores opções de divertimentos para os jovens, servindo de pontos de aglomeração e interação ao entardecer, nos finais de semana e feriados.

[...] tem aquele banho ali no açude, um divertimento muito bom ali. Final de semana é lotado de gente, todo final de semana (EN46) A minha diversão mais é jogar bola. Aqui nós temos um time dos “cabras” novos e dos mais idosos (EN43)

Quando o menino faz uma festa no balneário, a gente dá uma balançada boa por ali. É um divertimento bom!.(EN52)

Alguns eventos festivos organizados em finais de semana e feriados atraem a participação de amigos e/ou parentes localizados nos assentamentos da região, que aproveitam o dia de folga para diversão. Durante o período que estivemos realizando as entrevistas, ocorreu uma festa no assentamento Buriti, vieram pessoas de outras comunidades da região para participar de um torneio de futebol durante o dia, com festa dançante no período da noite.

As pessoas mais idosas, geralmente, preferem ficar em casa, entretidas com os programas de televisão. Já os jovens podem participar de festas dentro ou fora do assentamento.

A diversão é festa por aí, mas eu não gosto não. Aqui, anoiteceu aquieto-me no meu canto! Assisto uma tv, boto um dvd para assistir e vou passando o tempo. (EN27)

Diversão por aqui é pouca! A idade também chegou! Agora é jogar um baralho, assistir TV, essas coisa. Agora, para as meninas tem muita diversão, tem festas toda hora, aqui ou na cidade. (EN4) A diversão é a gente ir para roça. Chega, janta e vai dormir. Os meninos ficam assistindo televisão. Festa para eles, só finais de semana (EN13)

A religião é um fator de integração nos assentamentos da região. Em todas as localidades visitadas, sejam agrovilas ou povoados, há igrejas e templos levantados com esforço e contribuição da própria comunidade. A única exceção é a agrovila São Francisco que ainda está construindo uma Igreja Católica.

A primeira igreja foi construída onde morava um filho do seu Raimundo. Aí, o nome de nosso padroeiro ficou sendo São Raimundo. Aquela igreja todo mundo ajudou construir. Todo mundo comprava um saco de cimento e ajudava fazer. Hoje ela tem ventilador, banco, tudo foi nós que fizemos. (EN52)

[...] colocamos o nome de São Francisco para ele cuidar desse lugar. A igreja só está com as paredes levantadas, falta cobrir, com fé em

Deus. Nós realizamos o festejo no terreiro, mas dá bom. A missa é realizada na casa de um companheiro, dia primeiro de todo mês. (EN7)

A religião católica é predominante entre os assentados, apesar de haver regularmente apenas uma única celebração mensal nas agrovilas. Tradicionalmente, cada comunidade realiza festejos religiosos de acordo com a data comemorativa dos padroeiros de suas, respectivas, comunidades, assim distribuídas: Festejo de São Francisco (04/10) e São José (19/03), nas agrovilas batizadas com os nomes no assentamento Grotão; São Raimundo (10/08), na agrovila do P. A. Buriti; Santa Luzia (13/12), no povoado Santa Luzia; e São João (24/06), em Morada Nova.

As festas religiosas são os principais motivos para visitas às comunidades de outras agrovilas da região. Cada festejo tem duração de uma semana, é de responsabilidade das comunidades locais organizar as festas, arrecadar prendas, organizar as apresentações artísticas e culturais, promover bingos e leilões. As comunidades, quando prestigiam os festejos de outras localidades, usualmente, contribuem com prendas.

As comunidades vizinhas vêm. Por exemplo, a Babaçu vem de lá e trás uma cesta bem bacaninha para botar no leilão, para ajudar. No mesmo caso é quando a daqui vai para lá, né!? Alguém doa um bode, um frango, uma novilha... para fazer o leilão. Faz um bolo e leva o bolo tudo no festejo, né! No final, junta aquele dinheiro todinho e doa para a igreja fazer melhoria. (EN32)

[...] Aqui festejamos Santa Luzia, em Morada Nova é São João. Acontece de ano em ano. Às vezes mata uma leitoa, chama os amigos, sábado de aleluia! Nossa festa da igreja é em agosto. É animado nosso lugar aqui, graças a Deus é aonde viemos achar o sossego (EN33)

Os evangélicos se fazem presentes em número significativo nos assentamentos visitados. Todas as agrovilas e povoados possuem templos. Suas programações religiosas são os cultos, ações de evangelização e retiros para oração nos períodos de festas pagãs. Chamou-nos atenção a agrovila São José. Lá se concentra uma comunidade de maioria evangélica. Há somente um templo protestante na agrovila. “Nosso divertimento é a igreja. De vez em quando a gente

junta a irmandade e vamos fazer um almoço lá na casa de um irmão. Passa o dia conversando e outras vezes vem para cá” (EN17).

As relações de parentesco, vizinhanças, compadrio e a religiosidade são traços característicos das comunidades assentadas com as quais se forma a teia de sociabilidade e solidariedade que mantém a tradição e cultura camponesa facilitando o convívio e a união dos assentados.