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NYC "Taxi & Limousine Commission Trip Record" dataset

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E.3 Differentially-private tree-based clustering

E.4.2 NYC "Taxi & Limousine Commission Trip Record" dataset

“O papel daqueles que as acompanham [as crianças autistas] é de ajudá-las a se construir, a encontrar um lugar no mundo, de desabrochar tendo em conta suas aptidões e dificuldades, seus gostos, suas preferências, suas preocupações e desejos” (p.6).

A posição ética da psicanálise consiste, essencialmente, no abandono da pretensão de forjar um saber que seja bom para todos. Em outras palavras, não pretende um saber sobre o que é o bem de cada um e de todos, mas aposta na possibilidade de cada um, um por um, poder inventar algo que seja bom para si e, ao mesmo tempo, lhe permita estar no laço social, estar com outros (orientação por escrito). A relação entre o analista e o paciente diverge absolutamente de qualquer posição onde o analista é um modelo de conduta a ser seguido, alguém que possui todas as respostas sobre o sofrimento daquele que o procura e dá prescrições do que fazer, o que é desejável ou não desejável. Freud ([1919]/2006a) anuncia essa posição ética:

Recusamo-nos, da maneira mais enfática, a transformar um paciente, que se coloca em nossas mãos em busca de auxílio, em nossa propriedade privada, a decidir por ele seu destino, a impor-lhe os nossos próprios ideais, e, com o orgulho de um Criador, a formá-lo à nossa própria imagem e verificar que isso é bom (p.178).

No mundo pós-moderno onde predominam características tão avessas àquilo que a ética da psicanálise propõe, como sustentá-la não em relação à sua especificidade clínica mas sim, frente à imposições políticas e da cultura? Rocha (2008) pensa que nessa época em que o espírito tecnológico da produtividade para atender às demandas do

consumo exige resultados cada vez mais rápidos, em que a distância e a velocidade são critérios de valor e de escolha, o espaço para o tratamento psicanalítico fica prejudicado, já que alguns de seus pressupostos básicos, como a atemporalidade dos processos inconscientes, afirmando da “lentidão com que se realizam as mudanças profundas da mente” (FREUD, [1913]/2006a, p.145). A lógica da produtividade, da adaptação do sujeito às normas e cobranças sociais, a exigência de transformá-lo em um agente de produção, não da produção no sentido do destino da pulsão como elaborou Freud, mas da produção do capitalismo, esbarram com a posição ética da psicanálise.

Estaria a psicanálise realmente em um momento de crise? Haveria uma falta de entusiasmo pela psicanálise freudiana que nos anos 50, 60 e 70 se fazia tão presente no cenário intelectual da Europa e Américas? Rocha (2008) acredita que o tempo da “moda” da psicanálise passou, cedendo o espaço do prestígio dessa teoria para as neurociências, a biologia, a genética e a psicologia cognitiva, que supostamente são embutidas de um caráter mais sério de abordagem aos distúrbios psíquicos. O fato é, que no entanto, mesmo fora de moda ela continua aí, recebendo críticas e respondendo à elas, como sempre foi, desde Freud.

Frente às mudanças no imaginário social, no paradigma da ciência, da globalização, da comunicação, no “mundo do vazio interior e do colapso das identidades, do fascínio das palavras ocas, no mundo objetalizado em que o homem some em um hedonismo aniquilante, colocando nos objetos a possibilidade de sua própria constituição enquanto sujeito” (ROCHA, 2008, p.114) onde se situa a psicanálise e quem pode se beneficiar da experiência analítica? Haveria espaço em uma sociedade “em que os homens concebem sua vida psíquica segundo o modelo do distúrbio e da cura neuroquímica” (KEHL, 2007, p.79), para uma teoria que admite o mal-estar e a angústia de viver ao invés tentar curá-los, eliminá-los? Se o modelo de sujeito na atualidade é o das neurociências, baseado nos distúrbios químicos e não aquele marcado pelo conflito, Kehl (2007) se pergunta: se esta é a concepção de ser humano mais condizente com as eficácias terapêuticas atuais, por que “insistir em no sujeito faltante e dividido da psicanálise”? (p.78).

Rocha (2008) coloca que repensar a teoria e ampliar a escuta são desafios que a psicanálise deve sim enfrentar, sendo que repensar a teoria significa repensar os modos de subjetivação, abrindo-se para pensar o homem e sua inserção no mundo, atentando não somente para

aquilo que “a psicanálise diz acerca das novas patologias da contemporaneidade” (p.115), mas também “para aquilo que estas patologias tem à dizer à psicanálise” (p.115), fazendo com que a escuta psicanalítica seja ampliada e repensada. Lo Bianco (2003) afirma que é crucial não se deixar levar pela epidemia estatística que busca reduzir o fenômeno psíquico, e sempre se ater ao rigor científico inaugurado por Freud, ao sustentar que o objeto da psicanálise não se faz presente, senão pelos seus efeitos no discurso de um sujeito.

No entanto, avaliar as críticas feitas à psicanálise é um trabalho importante, e faz parte de sua dimensão ética, problematiza a relação do conhecimento em psicanálise. Já dizia Freud ([1919]/2006a) no texto “Linhas de progresso na terapia psicanalítica”

[...] nunca nos vangloriamos da inteireza e do acabamento definitivo de nosso conhecimento e de nossa capacidade. Estamos tão prontos agora [...] a admitir as imperfeições da nossa compreensão, a aprender coisas novas e alterar os nossos métodos de qualquer forma que os possa melhorar (p.173).

Os psicanalistas devem estar atentos à novas descobertas e evidências (que podem sim partir de críticas e revisões), e devem admitir que sejam apontadas imperfeições na teoria psicanalítica, mantendo-se sempre em uma posição crítica.

Sendo inerentes ao seu progresso, as resistências à psicanálise pedem contínua elaboração do psicanalista. Entende-se, então, que a defesa da psicanálise dos ataques que ela sofre – não só fora de seu campo como também dentro dele – seja igualmente invocada no projeto lacaniano de reconquista do campo freudiano. Para Lacan, o recenseamento crítico do que se produz nesse campo e em torno dele é essencial, já que depura o arsenal teórico psicanalítico e o realinha diante das novas forças que a ele se opõe (COUTINHO JORGE, 2010, p.9).

Em relação ao autismo, os discursos utilizados para desqualificar a psicanálise giram em torno da ideia de um certo “atraso” dessa teoria, que deveria ser abandonada já que se encontram à disposição novas técnicas com forte embasamento científico (FERRARI, 2002; MENÉNDEZ, 2012). Menéndez (2012) responde em tom de crítica afirmando que essas técnicas referem-se àquelas advindas

das teorias cognitivistas, que nada mais são do que uma “versão pouco elaborada do comportamentalismo” (p. 116) e que somente se livrou do significante “comportamentalismo” para não mais remeter às suas raízes no bloco soviético. Essa nova versão do comportamentalismo seria apenas um disfarce moderno para cumprir a estratégia “destinada a impor uma corrente de pensamento em que o real interesse é de ordem econômica e ideológica” (p.116).

A clínica com os autistas, parece demonstrar a necessidade da premissa ética do discurso do analista, de deixar o saber em outro lugar. A experiência clínica com esses sujeitos mostra que colocar-se no lugar do saber ou em um lugar de demandar-lhes, encerra qualquer possibilidade de intervenção. Como afirma Laznik (2004)

O autismo tem tido esse papel de real para todos os pesquisadores sérios que vêm se confrontando a ele. Não é somente uma psicogênese simplista que não se sustenta. Convicções genéticas também se veem derrubadas pela simples existência de um casal de gêmeos monozigóticos, onde apenas um desenvolve um autismo. Essa patologia é uma grande mestra porque obriga-nos a aceitar a humildade da Douta Ignorância, proposta como porta de entrada para todo novo saber, pelo escolástico e medieval da Sorbonne: Nicolau de Cusa (p.14).

A política da psicanálise com esses sujeitos, que também é uma posição ética é, como afirma Borsoi (2012), a de “ajudar a contornar a intrusão mortífera que experimentam no contato com as pessoas, seguindo os recursos que eles mesmos já encontraram [...]” (p.207). O autismo também revela a necessidade extrema de tomar cada caso como único e de “lidar com as imensas dificuldades de um sujeito em estar no laço social mínimo com o Outro” (p.207). Segundo Borsoi (2012) essa é a dimensão ética e política da psicanálise, e “[...] é uma posição que, apostando na psicanálise, aposta no futuro de cada sujeito, retirando-o de uma massa quantificadora” (p.207).

A política da psicanálise para o tratamento dos sujeitos no autismos é a de utilizar-se da dimensão do “enigma” que acompanha esses sujeitos, tomando cada caso em sua singularidade para trabalhar as dificuldades dessas pessoas de estarem no laço social. Aposta-se na singularidade de cada caso e, principalmente, em um tratamento que

ofereça ao sujeito novas possibilidades de encontrar recursos para localizar-se, da maneira que lhe for possível, no laço social, ou seja, em um discurso. A posição do psicanalista é, segundo Fernandes (2011), a de

acompanhar todos os recuos, todas as idas e vindas da criança, além das “escolhas”, dela e das famílias. Isso significa que a aposta é no sujeito e não na performance, um recuo do paciente pode até ser um ato do sujeito. Desse modo, a tentativa será buscar em todo ato um sujeito. Isso para quê? Para que a criança possa ela, participar do jogo de demanda e desejo, e assim, que os impedimentos e os fracassos da linguagem não a tomem mais de modo tão contundente como impossibilidades da presença do outro (p.58).

A psicanálise vai na contramão de outros tratamentos que se ocupam da questão do autismo uma vez que, ao invés de eclipsar o sujeito em uma falha orgânica e bioquímica ela o coloca em cena, aposta em seu advento. A psicanálise enquanto tratamento, oferece uma escuta que lhe é própria, para que o autista encontre formas de estar no mundo com sua singularidade.

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