Discretizations of a generic dissipative homeomorphism
4.3 Numerical simulations
O capítulo “Indicadores de comunicação escrita dos profissionais de saúde” corresponde a uma proposta de indicadores para a comunicação escrita e abordará os principais aspectos teóricos e operacionais desses.
Os indicadores são medidas quantitativas e qualitativas que fornecem informações sobre determinado aspecto, o que permite definir áreas prioritárias. Na saúde, essas ferramentas possibilitam, especialmente, monitorizar e melhorar o cuidado, garantir maior transparência das instituições de saúde, orientar a elaboração de políticas públicas e nortear as escolhas dos usuários (GOUVÊA, 2014).
Apresentam diversas sinonímias como eventos sentinelas, indicadores de rastreamento (triggers), indicadores de resultados (GAMA et al., 2016), indicador de segurança do paciente (patient safety indicator – PSI), dentre outros.
O termo “indicador de segurança do paciente” foi desenvolvido pela Agency for
Health care Research and Quality (AHRQ) em 2002 a partir de pesquisa de dados
administrativos hospitalares dos EUA. Trata-se de uma ferramenta direcionada aos eventos previniveis decorrentes da exposição ao serviço de saúde (AGENCY FOR HEALTHCARE RESEARCH AND QUALITY, 2003).
No tocante à disposição desses, geralmente são norteados pelos elementos estrutura, processo e resultado (DONABEDIAN, 1988) e contemplam os seguintes atributos: validade, capacidade de mensurar o que se pretende; sensibilidade e especificidade, propensão para identificar um fenômeno específico; confiabilidade, passível de gerar os mesmos resultados em situações similares; viabilidade, disponibilidade dos dados; relevância, coerência com as prioridades de saúde; e custo-efetividade, os resultados justificam o investimento nessa ferramenta (REDE INTERAGENCIAL DE INFORMAÇÕES PARA A SAÚDE, 2008).
Além dessas características, os indicadores são expressos a partir de uma taxa3, proporção4 e razão5 e devem ser estruturado através de uma ficha que abrange as principais informações e especificidades do indicador, conforme apresentado no quadro 8 – este estudo sugere adaptações aos modelos apresentados pelo Instituto de Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP) (2016) e por Gouvêa (2014).
Conforme Gouvêia (2014):
3
Variação de uma medida em função de outra;
4 Quociente entre duas medidas (o numerador está incluso no denominador); 5 Quociente entre duas medidas (o numerador não está incluso no denominador).
Quadro 8 – Ficha técnica de um indicador. Natal/RN, 2017.
ITENS DA FICHA DESCRIÇÃO
Nome Nome do indicador por extenso Objetivo Descrever a finalidade do indicador
Nível da informação Categorização do indicador conforme a Tríade de Donabedian6 (estrutura, processo e resultado)
Fórmula Apresentação do cálculo do indicador, mediante numerador e denominador, bem como a potência de base dez (10n )
Explicação da fórmula Descrição do numerador e denominador do calculo do indicador Fonte de informação Fontes dos dados para a consecução do indicador.
Coleta dos dados Descrição dos procedimentos de coleta para obtenção do indicador.
Interpretação do resultado
Esclarecer como deve ser realizada a leitura do indicador. Limitações Ausência de registros durante o período de análise selecionado Fonte: adaptações do ISMP (2016) e Gouvêa (2014).
O processo de construção de um indicador ocorre mediante busca de evidências; estratificação e análise dos dados. Para este último, empregam-se algumas ferramentas como Diagramas de Pareto e Diagramas de Causa e Efeito, dentre outros (BETTA; ARRIEIRO; BATISTA, 2011).
Após essas etapas iniciais, é imprescindível o processo de validação por especialistas (GOUVÊIA et al., 2015), procedimento que aumentará a credibilidade dos indicadores.
Posto essas considerações iniciais, a proposta de construção de indicadores, do tipo PSI, na perspectiva da comunicação escrita emergiu pela constatação através da Scoping
Review e dos achados da revisão de prontuários apresentados neste estudo -, das fragilidades
presentes nos registros dos profissionais de saúde.
Outra questão que contribuiu para a elaboração dessa proposta foi o não conhecimento, até o momento, de indicadores relacionados à comunicação escrita, no cenário brasileiro, o que confere ao estudo um caráter pioneiro no tema.
6 Tríade Donabedian: 1) “estrutura” corresponde aos atributos em que o cuidado e se relaciona com os materiais, os recursos humanos e a estrutura organizacional; 2) “processo” representa as ações de cuidado efetivadas pelos profissionais de saúde e usuários e “resultado” são os efeitos do cuidado sobre a saúde da população (DONABEDIAN, 1979; 1980).
Nesse ínterim, os PSIs na perspectiva da comunicação escrita dos profissionais de saúde são expressos através de taxas e mensuram aspectos relacionados ao processo, conforme à tríade donabediana.
O primeiro PSI corresponde a “taxa de identificação do paciente nos registros dos profissionais de saúde”, a qual se destina a avaliação do preenchimento dos cabeçalhos presentes nos registros dos profissionais de saúde (Quadro 9).
Quadro 9 - Taxa de identificação do paciente nos registros dos profissionais de saúde. Natal/RN,
2017.
ITENS DA FICHA DESCRIÇÃO
Nome Taxa de identificação do paciente nos registros dos profissionais de saúde
Objetivo Mensurar a completude dos cabeçalhos presentes nos registros dos profissionais de saúde e, por conseguinte, a identificação do paciente na comunicação escrita
Nível da informação Processo
Fórmula
Explicação da fórmula
Numerador = número total de cabeçalhos adequados quanto ao seu preenchimento
Denominador = Número total de registros de profissionais de saúde. Fonte de informação Prontuário do paciente
Coleta dos dados A coleta de dados ocorrerá nos registros dos profissionais de saúde – evoluções médicas, anotações da equipe de enfermagem e pareceres da equipe multidisciplinar. Para nortear esse processo, deve-se utilizar o roteiro intitulado “Comunicação escrita dos profissionais de saúde” (APÊNDICE B)
Interpretação do resultado
Quanto maior o valor da taxa, melhor a qualidade da identificação do paciente nos registros dos profissionais de saúde
A “taxa de legibilidade e compreensão dos registros dos profissionais de saúde” (Quadro 10) objetiva mensurar a ausência de letras ilegíveis, rasuras e uso de siglas e abreviaturas não padronizadas internacionalmente.
Quadro 10 - Taxa de legibilidade e compreensão dos registros dos profissionais de saúde.
Natal/RN, 2017.
ITENS DA FICHA DESCRIÇÃO
Nome Taxa de legibilidade e compreensão dos registros dos profissionais de saúde
Objetivo Mensurar a ausência de letras ilegíveis, rasuras e uso de siglas e abreviaturas não padronizadas internacionalmente
Nível da informação Processo
Fórmulas
Explicação da fórmula
Numerador = número total de registros com letras legíveis, sem rasuras e siglas e abreviaturas padronizadas internacionalmente. Denominador = Número total de registros de profissionais de saúde. Fonte de informação Prontuário do paciente
Coleta dos dados A coleta de dados ocorrerá nos registros dos profissionais de saúde – evoluções médicas, anotações da equipe de enfermagem e pareceres da equipe multidisciplinar. Para nortear esse processo, deve-se utilizar o roteiro intitulado “Comunicação escrita dos profissionais de saúde” (APÊNDICE B)
Interpretação do resultado
Quanto maior o valor da taxa, melhor a legibilidade e compreensão dos registros dos profissionais de saúde
A “taxa de completude dos registros dos profissionais de saúde” (Quadro 11) objetiva mensurar a completude dos registros dos profissionais de saúde.
Quadro 11 - Taxa de completude dos registros dos profissionais de saúde. Natal/RN, 2017.
ITENS DA FICHA DESCRIÇÃO
Nome Taxa de completude dos registros dos profissionais de saúde. Objetivo Mensurar a completude dos registros dos profissionais de saúde. Nível da informação Processo
Fórmula
Explicação da
fórmula
Numerador = número total de registros considerados adequados quanto ao conteúdo
Denominador = Número total de registros de profissionais de saúde. Fonte de informação Prontuário do paciente
Coleta dos dados A coleta de dados ocorrerá nos registros dos profissionais de saúde – evoluções médicas e anotações da equipe de enfermagem. Para nortear esse processo, deve-se utilizar o roteiro intitulado “Comunicação escrita dos profissionais de saúde” (APÊNDICE B) Interpretação do
resultado
Quanto maior o valor da taxa, melhor a qualidade dos registros dos profissionais
A “taxa de identificação profissional nos registros” (Quadro 12) tem o intuito de identificar a completude dos registros quanto à identificação do profissional.
Quadro 12 - Taxas de identificação profissional nos registros. Natal/RN, 2017.
ITENS DA FICHA DESCRIÇÃO
Nome Taxas de identificação profissional nos registros
Objetivo Mensurar a completude da identificação profissional nos registros dos profissionais de saúde
Nível da informação Processo
Fórmula
Explicação da
fórmula
Numerador = número total de registros adequados quanto á identificação profissional
Denominador = Número total de registros de profissionais de saúde. Fonte de informação Prontuário do paciente
Coleta dos dados A coleta de dados ocorrerá nos registros dos profissionais de saúde – evoluções médicas, anotações da equipe de enfermagem e pareceres da equipe multidisciplinar. Para nortear esse processo, deve-se utilizar o roteiro intitulado “Comunicação escrita dos profissionais de saúde” (APÊNDICE C)
Interpretação do resultado
Quanto maior o valor da taxa, melhor a qualidade da identificação do profissional nos registros dos profissionais de saúde
8 CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo revelaram que a comunicação escrita, conforme artigos científicos e documentos nacionais e internacionais de entidades profissionais e órgãos de saúde, compreende os elementos comuns, os quais abarcam aspectos basilares dos registros – legibilidades, identificação do paciente e profissional, ausência de rasura, início dos registros com data e hora e uso de siglas e abreviaturas padronizadas -, e os específicos de cada categoria profissional, os quais condizem com as atividades desenvolvidas.
A luz dessas definições, verificou-se que a comunicação escrita dos profissionais de saúde nos hospitais analisados, apresentaram fragilidades que afetam o fortalecimento da SP, a partir do número elevado de não conformidades acerca dos dados: 1) data de nascimento e filiação nos cabeçalhos; 2) letras legíveis legibilidade e uso siglas e abreviaturas padronizadas; 3) aspectos do exame físico, antecedentes pessoais e familiares, hábitos e condições de moradia do paciente, intercorrências, resultados laboratoriais e de imagem (evolução médica); hábitos de vida, higiene pessoal do paciente, presença de alergia, identificação do acompanhante, uso de medicamento quanto ao tipo, condições gerais acerca da atitude, humor, locomoção, estado nutricional e coloração da pele (anotações do técnico de enfermagem); orientação ao paciente/acompanhante; exame físico e hábitos de vida (anotações do enfermeiro), entre outros.
No que diz respeito à identificação do paciente nos registros dos profissionais, é fundamental que as ações para contornar essa problemática proporcione a conscientização da equipe quanto ao preenchimento adequado dos cabeçalhos. Assim, deve-se estimular o desuso de ações que não garantem a fidedignidades das informações, como a transcrição de dados de impressos anteriores.
Outra debilidade evidenciada refere-se à legibilidade e uso de siglas e abreviaturas não padronizadas. Sobre isso, ressalta-se que, além dos prejuízos na continuidade do cuidado, há aqueles que repercutem na relação interpessoal dos profissionais quanto equipe de trabalho.
Nesse sentido, é imprescindível o entendimento de que os registros são elaborados para a utilização de outros sujeitos envolvidos no cuidado e, portanto, devem ser de fácil compreensão por todas as categorias profissionais.
Essas mesmas considerações são válidas quando se discute a qualidade da comunicação escrita no tocante ao seu conteúdo. Constatou-se a carência de informações
relativas aos exames físicos, dos médicos e dos enfermeiros, a descrição detalhada das condições clínicas do paciente e seus aspectos subjetivos.
Sobre esse aspecto, depreende que os registros são estruturados a partir uma lógica limitada e inerte, o que os tornam repetitivos e semelhantes. Além disso, questiona-se se as omissões teóricas do cuidado condizem com a prática. Em outras palavras: o profissional de saúde não registra o que realiza?
Com relação à identificação do profissional, destaca-se o elevado número de análises inadequadas, especialmente, relativas à equipe de enfermagem. Ressalta-se que essa situação compromete a confiabilidade dos registros, já que não há clareza quantos aos motivos da inexistência dessas informações.
Os resultados apresentados permitem inferir que a cultura de SP não direciona o fazer profissionais de todos da equipe, o que atravanca a consolidação de um cuidado seguro. O que se percebe são adaptações a um cenário de sobrecarga de trabalho, estresse, falta de recursos materiais e humanos, desvalorização profissional, entre outras. Esses fatores interferem em todos os âmbitos do cuidado, como a comunicação escrita.
Assim, são essenciais as mudanças atitudinais que incorporem pressupostos da SP. Para tanto, a principal estratégia é a mudança cultural dos sujeitos que atuam no cuidado. Dessa forma, dentre as estratégias citam-se as atividades educativas e reflexivas voltadas aos profissionais de saúde, envolvidos direta ou indiretamente, no cuidado, com enfoque nas temáticas inter-relacionadas à cultura de SP e que promovam discussões sobre a situação in
locu - como a utilização de PSIs.
Nessa perspectiva, vislumbrou-se a necessidade de construção de PSIs direcionados a comunicação escrita dos profissionais de saúde. Desse modo, propõem-se quatro tipos de indicadores: taxa de identificação do paciente nos registros dos profissionais de saúde; taxa de legibilidade e compreensão dos registros dos profissionais de saúde – médicos e equipe de enfermagem, taxa de completude dos registros dos profissionais de saúde e taxas de identificação profissional nos registros.
Enfatiza-se que os PSIs supracitados precisam ser submetidos aos processos de validação, a fim de torná-los confiáveis e capazes de mensurar o que se propõem. Essa etapa será implementada em momento posterior ao curso de doutoramento.
No tocante ao referencial teórico adotado, Teoria do Agir Comunicativo de Jürgen Habermas, foi possível compreender que o conceito “comunicação efetiva” apresenta interfaces com o agir comunicativo e, portanto, contempla o entendimento mútuo; a
cooperação dos atores; a compreensão dos contextos individuais; e ao posicionamento do receptor frente ao ato da fala.
Já o referencial metodológico Record review of current in-patients norteou a revisão de prontuário de forma satisfatória e em coerência com as realidades dos hospitais analisados, além de permitir identificar as fragilidades da comunicação escrita.
Assim, ao rever o método aplicado neste estudo, considera-se que o mesmo foi capaz de responder aos objetivos elencados e que pode ser reproduzido em outros cenários.
No entanto, destacam-se algumas limitações vivenciadas que podem ter gerado vieses de informação: 1) ilegibilidades e desorganização dos prontuários; e 2) complexidade do instrumento de coleta de dado, aspecto que tornava o processo de revisão cansativo e, por isso, cabível de erros de preenchimento.
Já em relação às contribuições deste estudo, acredita-se que o mesmo possa colaborar com as discussões acerca da comunicação escrita e suas interfaces com a SP, nos diversos cenários da saúde - ensino, pesquisa e assistência -, além de incentivar a fomento de outras pesquisas acerca da temática.
Somado a isso, por retratar a realidade de três instituições hospitalares, será possível desenvolver ações que possam melhorar a comunicação escrita dos profissionais de saúde, a partir das principais não conformidades.
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