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da Costa (2019), o projeto de mediação requer-se coletivo e dinâmico, como bases para que a mediação passe a integrar o quotidiano relacional da escola.

3.3. Perceções dos professores sobre os resultados da formação contínua em mediação

3.3.1. Resolução de conflitos

A mediação de conflitos apresenta, entre outros objetivos, o intuito de reparar as situações, reconciliar as pessoas e resolver conflitos, denominada a política dos três R’s definida por Johan Galtung (Nascimento, 2013).

Para o respondente PA5, a formação em mediação de conflitos foi muito útil para saber lidar com situações de conflito: “… em situações de conflito ajudou-me imenso” (PA5, 222). O respondente PA7 manifestou que passou a estar melhor preparado para auxiliar na construção de soluções mutuamente satisfatórias: “… as partes envolvidas chegarem a um acordo, a uma situação

que seja satisfatória para as partes envolvidas… Nem sempre é fácil, acho que a formação em mediação é fundamental” (PA7, 105-109).

Na perspetiva do docente PA2, a formação em mediação de conflitos permitiu-lhe ficar mais capacitado para ouvir as partes envolvidas e para os auxiliar a encontrarem por si mesmo a solução do conflito:: “… é sempre importante … não ouvir só um lado, mas ouvir o outro e deixá-los ambos,

Já o respondente PA1 considerou que se tornou importante saber colocar os envolvidos a refletirem sobre as situações, sobre os seus comportamentos e ainda sobre possibilidades de mudança:

“… chamar à atenção para determinado tipo de situação que está a acontecer e fazer com [que] as partes reflitam sobre a situação e assumam. … conseguimos chegar a um acordo em que ambas as partes assumem e comprometem-se a ter um determinado tipo de comportamento que vise a mudança” (PA1, 160-170).

Como refere Souza (2017), a mediação não deve ser vista, apenas, como uma estratégia para a resolução, positiva, de conflitos, mas sim um processo que capacita, os envolvidos, para a reflexão critica.

Já o docente PA6 considerou ser importante que a mediação de conflitos não deva limitar-se aos resultados obtidos com as mediações formais, devendo também, como já referido anteriormente, tais resultados verificaram-se na cultura de escola “… eu acho que é importante que

a mediação de conflitos não seja só focada no gabinete e isso é uma coisa transversal” (PA6, 201- 202).

Resumindo, a análise de dados relativa aos resultados no que concerne a resolução de conflitos, constatamos que: a) a formação em mediação de conflitos permitiu aos professores alcançar resultados reais na forma como passaram a lidar com os conflitos; b) Os resultados não se focaram apenas na solução dos problemas, mas no processo até esse ponto. Isto é, na forma como passaram a trabalhar a comunicação entre os indivíduos, a promoverem a autodeterminação deles; e a potenciar a reflexão como meio para a mudança e melhoria; c) os resultados podem ser imediatos, aquando da resolução dos conflitos, mas espera-se que seja transversal, numa lógica de cultura de escola.

3.3.2. Melhoria do clima de sala de aula

A interação de uns indivíduos com os outros promove transformações que podem ser interpretadas na subjetividade. A má gestão dessas diferenças, ou da subjetividade que cada um cria sobre as mesmas é geradora de problemas de convivência (conflito, violência, indisciplina) nos vários contextos sociais, nomeadamente na escola e na sala de aula.

Sobre se a formação em mediação de conflitos contribuiu para melhorar o clima de sala de aula, o respondente PA3 referiu que já tinha um bom clima de sala de aula, mas a formação em mediação ajudou-o a melhorá-lo ainda mais: “… eu tive sempre, com os alunos, um bom clima de sala de aula…

mediação permitiu-lhe melhor identificar as formas de agir dos alunos, e, consequentemente, atuar antes que o conflito atinja contornos mais graves:

“… conseguimos identificar determinadas formas de agir dos alunos isto falando em

mediação entre aluno-aluno, professor-aluno” (PA1, 96-97).: “Há (…) conflitos que nós podemos intervir à partida e fazer com que não cheguem a um patamar mais agressivo”

(PA1, 100-101).

Também o respondente PA7 afirmou a importância de atuar precocemente nos conflitos que se vão detetando na sala de aula: “Eu acho que acima de tudo é importante para não deixar, não

ignorar o conflito, … e tentar prevenir e atuar antecipadamente” (PA7, 88-89).

Já o respondente PA6 foi convicto ao considerar que o clima de sala de aula pode ser melhorado quando o professor tem formação em mediação de conflitos, pelo que advogou a disponibilização desta formação pelos diversos centros de formação:

“Em sala de aula, se o professor tiver formação em mediação de conflitos vai ter

capacidade de resolver muito melhor as coisas” (199-200); “Os centros de formação deviam oferecer esta formação e ser transversal a todos os professores. … a maior parte dos conflitos é em sala de aula/ambiente de sala de aula então a mediação de conflitos ajudaria muito” (PA6, 209-212).

PA5 mencionou que a mediação de conflitos ajudou sobretudo nos conflitos entre pares: “A

mediação … ajuda mais quando eu vejo que há conflitos entre pares” (77-78) e o docente PA4

argumentou que conseguiu colocar os alunos do 1º ciclo atentos às situações de conflito, expectando que estes alunos transportem essa sensibilidade para as relações interpessoais ao longo do seu percurso escolar:

“Com o 1º ciclo consegui pô-los atentos e enveredar mais por esse caminho, … [se] mantiverem essa rotina à partida no 2º ciclo, 3º ciclo e secundário isto manter-se-á na cabeça deles … existe ali um conceito de estar mais aberto para tentar ver o que é que realmente se passa ali” (PA4 127-131).

Por sua vez, o entrevistado PA8 referiu que o clima de sala de aula está relacionado com uma das ferramentas centrais da mediação: a comunicação: “Exatamente na comunicação. Centramo-

nos muito na comunicação…” (PA8, 120). Como aponta Torrego (2003), a comunicação é um dos

temas mais trabalhados na formação em mediação, na dupla perspetiva do conflito: preventiva e resolutiva

Já o respondente PA2 mostrou-se reticente relativamente ao facto de a mediação contribuir para melhorar o clima de sala de aula: “Não sei se ajudou a melhorar o conflito em sala de aula” (PA2, 102).

Em suma, à exceção de um dos respondentes, os restantes (n=8) defenderam que a formação em mediação contribuiu para melhorar o clima de sala de aula, uma vez que ajudou: a) na forma de comunicar com os alunos; b) a estar mais atento a determinadas atitudes dos mesmos. Como

refere Souza (2017), o professor tem que se adaptar a novas formas de comunicar e ser hábil, o suficiente, para criar situações educativas que transcenda o espaço sala de aula numa perspetiva de que professor e aluno aprendam juntos.

3.3.3. Melhoria do clima de escola

A escola resulta da interseção, nomeadamente, da: sala de aula, do projeto curricular, da administração escolar, dos valores da sociedade e da cultura global. Por outro lado, a escola encontra-se na encruzilhada da educação proveniente do seio familiar com a educação resultante da interação com o meio envolvente. Porém, é importante que haja, na escola, um clima seguro e respeitador que favoreça os processos ensino e aprendizagem (Vasconcelos, 2017). As tensões que surjam entre estes contextos põe-se em risco a convivência escolar propiciando diversas situações de conflitos de comunicação, normativos, de interesses e de relação (Torrego, 2006, Pinto da Costa, 2016).

Os respondentes PA3 e PA5 afirmaram que a mediação de conflitos tem ajudado a melhorar o clima de escola, na medida em que convida os indivíduos a refletir sobre a forma mais saudável de resolver os conflitos e promove o diálogo entre eles:

“Ajuda, ajudou muito, ajudou muito a saber qual é a atitude a postura mais correta para

os ajudar a refletir sobre uma forma mais saudável de resolver o problema. O facto de os podermos ajudar a resolver as coisas, os problemas, os conflitos … de uma forma não violenta é uma coisa que eu acho importantíssima” (PA3, 110-113).

“Tanto em conversas individuais como em grupo, ajuda bastante. Mesmo no recreio eles

já sabem, até eles veem de uma forma diferente. As mediadoras ou mediadores já nos veem de uma forma diferente. Muitas vezes já chegam à nossa beira, nós podemos atuar ou então quando nós chegamos eles já percebem porque estamos a chegar a eles” (PA5, 83-86).

Numa perspetiva de longa duração, o docente PA4 defendeu que a mediação devia ser iniciada no 1º ciclo, pois dessa forma conseguir-se-ia uma melhoria sustentável do clima de escola:

“A nível da atuação na escola propriamente dita, … a nível do 1º ciclo, uma vez mais,

eles conseguiram estar mais atentos à resolução do conflito … se eu conseguir transmitir a mensagem fez, efetivamente, com que os miúdos pensassem no assunto e falassem sobre o assunto, não só naquele instante, para eles próprios estarem à alerta, significa que eles interiorizaram o que eu transmiti, e desse ponto de vista, está a ser muito proveitoso e ajuda o funcionamento” (PA4, 134-140).

Por sua vez, o docente PA7 referiu que a mediação de conflitos ajudou a melhorar o clima de escola, graças à atuação do gabinete de mediação que atua em casos concretos: “ajudou porque,

[no] gabinete de mediação, e quando nos chega algum tipo de conflito, … atuamos e tentamos resolver o conflito entre as partes envolvidas” (PA7, 93-95).

O entrevistado PA8 corroborou a ideia de que a mediação ajudou porque permitiu o uso de técnicas que promove uma melhoria na comunicação com os alunos: “ajuda muito porque são as

técnicas que vamos buscar, o refletir sobre o que vamos dizer, a forma como colocar-se no lugar do outro, todas essas técnicas, ajudam-nos a melhor comunicar com os alunos” (PA8,126-128). Como

referem Seijo e Alvarez (2006), é pelo diálogo e pela cooperação que as partes envolvidas num conflito constroem de forma pacífica e positiva uma solução para o conflito que enfrentam. E segundo Monteiro e Cunha (2018, p. 116), a “prática da mediação em contexto escolar [apresenta- se] como estratégia para restaurar o diálogo numa situação de conflituosa (…) [e tem como] objetivo de estabelecer soluções positivas para todos os participantes”.

Em síntese, segundo este grupo de docentes entrevistados, a formação em mediação de conflitos também pode contribuir para melhorar o clima de escola, ao colocar-se em prática estratégias e técnicas que visam valorizar o modelo colaborativo de gestão das relações interpessoais e dos conflitos.

Por outro lado, para alguns destes professores, a melhoria do clima de escola conseguido pela mediação depende do alargamento da formação em mediação de conflitos a todos os professores: “É pena que os centros de formação não proponham essa formação. Não sei se todos propõem, mas

deviam” (PA6, 204-205) e a todos os alunos, devendo começar a ser implementada no 1º ciclo de

escolaridade. Como refere Pinto da Costa (2019), um projeto de mediação deve envolver todos os atores educativos e, de preferência, todos os níveis de ensino, de uma forma contínua, sistémica e sustentada.

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