Neste tópico de discussão foram ressaltados e discutidos apenas os resultados dos artigos relativos às estratégias de enfrentamento religioso-espiritual, sendo os demais resultados marginalizados nesse momento. Para classificação dos resultados foi utilizada a Escala de Coping Religioso-Espiritual validada em 2005 por Panzini e Bandeira no Brasil, pois a intenção foi de padronizar a apresentação dos resultados.
Em 2005, (Panzini & Bandeira, 2005) elaboraram e validaram a Escala de Coping Religioso-Espiritual (CRE) no Brasil. A escala apresenta oito fatores para Coping Religioso- Espiritual Positivo (CREP) (com 68 itens) e quatro para Coping Religioso-Espiritual Negativo (CREN) (com 21 itens). Os fatores do CREP são: Transformação de si e/ou de sua vida, Ações em busca de ajuda espiritual, Oferta de ajuda ao outro, Posição positiva frente a Deus, Busca pessoal de crescimento espiritual, Ações em busca do outro institucional, Busca pessoal de conhecimento espiritual e Afastamento através de Deus, religião e /ou espiritualidade. O CREN tem como fatores: Reavaliação negativa de Deus, Posição negativa frente a Deus, Reavaliação negativa do significado, Insatisfação com o outro institucional.
Abaixo os artigos serão apresentados separadamente.
O artigo 01 embora apresente a frequência de realização de atividades religiosas e avaliação da religiosidade intrínseca dos participantes, não foi possível realizar a classificação das estratégias de enfrentamento na escala da CRE. No final do texto é trazida a ideia de que “a religião e espiritualidade ajuda a preencher a distância da família, da rotina; presta acolhimento, alento para suportar as vicissitudes impostas pela rotina hospitalar”, mas não foi possível observar através dessa frase, que só aparece nas conclusões, a maneira que a R/E influencia no enfrentamento da doença e da hospitalização.
O artigo 02 relata que a família utilizou três estratégias de enfrentamento, sendo uma negativa e duas positivas. A estratégia negativa foi evitar tratar sobre a doença da mãe, sem comentar com ela ou entre os demais membros sobre o processo de diagnóstico, tratamento ou recuperação. As duas estratégias positivas estão relatadas no artigo como psicoterapia e
espiritualidade. A psicoterapia (realizada durante e após internação hospitalar) foi relatada como um processo benéfico que contribuiu bastante no suporte psíquico da mãe. A estratégia da espiritualidade foi pouco explorada no texto, pois não esclarece exatamente como foi a utilização desta no enfrentamento da doença.
Na classificação na escala de CRE é possível afirmar que os fatores utilizados foram Ações em busca de bem-estar espiritual como oração e fé, através do item “voltei-me para espiritualidade” e Ações em Busca do Outro Institucional, através do item “procurei apoio espiritual com os dirigentes de minha comunidade religiosa”.
No artigo 03 todas as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos pacientes e citadas no texto podem ser classificadas na escala de CRE através dos fatores: Busca pessoal de crescimento espiritual (orações), Transformação de si e/ou de sua vida, Ações em busca pelo outro institucional (recorrer ao pastor ou ao padre) e Ações em busca de ajuda espiritual (imposição de mãos, ida à igreja).
O artigo 04 apresenta duas estratégias de enfrentamento específicas sobre luto: crença na imortalidade e fé na sabedoria divina. Essas estratégias não se encaixam na escala de CRE. Entretanto, o texto apresenta outras estratégias que podem ser enquadradas nos seguintes fatores Posição positiva frente a Deus (vivência da fé, aceitação e confiança em Deus) e Ações em Busca do Outro institucional (realização de missa).
No artigo 05, com relação às estratégias de enfrentamento religioso-espiritual, os participantes relataram realizar orações, participar de atividades religiosas, realizar estudos bíblicos e meditações, bem como, trabalhos voluntários na comunidade. A pesquisa registrou que 87% dos participantes relatou que após a descoberta e tratamento do câncer a fé aumentou. Todas essas estratégias configuram-se como CREP, estando enquadradas nos seguintes fatores: Busca pessoal de crescimento espiritual, Ações em busca do outro institucional, Oferta de ajuda ao outro.
Entretanto, foi possível observar CREN nos resultados. Um dos entrevistados relatou que o câncer foi entendido como uma culpabilização “dos fatos acontecidos em gerações anteriores ao sujeito ou ao longo de sua própria existência”, que pode ser remetido ao fator Reavaliação negativa do significado. A pesquisa ressalta a existência de estratégias de enfrentamento positivas e negativas, a depender da relação que o sujeito estabelece com a religião.
Nas respostas das entrevistadas do artigo 06, aparece apenas a Espiritualidade como um recurso possível de enfrentamento, sendo que é abordado apenas o CREP. As respostas das mães podem ser classificadas apenas no fator Posição positiva frente a Deus, já que todas
apresentam um recurso muito similar, de entrega e confiança em Deus ou procurar força Nele para enfrentar a situação de adoecimento do filho.
No artigo 07, a maioria das respostas das entrevistas sugere o CREP, sobretudo no fator Transformação de si e/ou de sua vida, pois o acompanhamento no Neuróticos Anônimos exige uma mudança de postura diante da vida, como aparece: diminuição no interesse pelo dinheiro, reconhecimento da sua limitação enquanto ser humano, necessidade de ser mais humilde. Outros fatores que também emergiram nas entrevistas foram: Busca pessoal de crescimento pessoal (percepção do poder superior agindo na vida), Oferta de ajuda ao outro (ser útil ao mundo) e Posição positiva frente a Deus (entregar a vida à Deus).
O artigo 08 apresenta dados de frequência de práticas religiosas dos pacientes entrevistados, bem como, relata que eles consideram a espiritualidade importante para o enfrentamento da doença. Embora o estudo apresente dados relevantes, como a importância que a equipe de saúde fale sobre a espiritualidade (79,41% responderam que consideram importante), e estes estejam bem embasados na literatura através de outras pesquisas, o artigo não apresentou nenhuma estratégia de enfrentamento utilizada com relação à espiritualidade, bem como, não fez referência a nenhum fator da escala de CRE.
O artigo 09 utilizou a escala de CRE como instrumento de pesquisa. Nos resultados encontrados, todas as participantes afirmaram acreditar em Deus, sendo que apenas 04 não tem religião, mas se consideram espiritualizadas. Com relação ao CRE, a média total e do CREP foi considerada alta, enquanto a do CREN foi considerava baixa.
Dentre os fatores da dimensão CREP, o fator “Posicionamento positivo frente a Deus” apresentou a maior média e o fator P7 “Busca pessoal de conhecimento espiritual” a menor. Na dimensão CREN, o fator “Posicionamento negativo frente a Deus” obteve a média mais alta e o fator “Insatisfação com o outro institucional” com média mais baixa.
No artigo 10 as mães entrevistadas apresentam algumas concepções que não são passíveis de classificação na escala de CRE, pois apresentam aspectos muito específicos do contexto em questão, como: acreditam que os filhos são bênçãos, só por terem sobrevivido, filhos são considerados lutadores pela vida, “guerreiros capazes de sobreviver pela intervenção de Deus”, idealização do filho como anjo da guarda em caso de morte do bebê. Com relação ao CREP, foi possível observar os fatores Busca positiva frente a Deus e Afastamento através de Deus, Religião e/ou Espiritualidade, expressos nas ideias de esperança e fé, aceitação, confiança em Deus, promessas a Deus, ato de orar, agradecimento a Deus. Já o CREN pode ser observado através do fatores Reavaliação negativa de Deus e Reavaliação negativa do significado, expressos nos meio das questões “porque Deus permite isso?”, “aonde eu errei?”.
O artigo ainda relata a importância da “existência e manutenção de grupos religiosos e/ou de orações nos alojamento conjuntos”, pois o grupo permite expressar as emoções por meio do choro e do relato das mulheres que esperavam a cura dos seus filhos, o que gerava uma diminuição da ansiedade e a manutenção da confiança e da esperança na recuperação dos seus filhos.