As atividades de transferência de tecnologia, as experiências de mutirões, e a elaboração de cartilhas de construção, com uma linguagem que fosse de fácil entendimento a populações carentes, serviram de referência para a estruturação da metodologia de formação profissional para a construção civil do Thaba, que viria a ser elaborada a partir de 1998, com o projeto piloto Cesta de Materiais de Construção.
Em setembro de 1993, o Thaba foi desvinculado do Ceped, e passou a integrar a Pró- Reitoria de Extensão da Uneb, o que
[...] possibilitou a sua atuação em projetos de extensão voltados para as comunidades de baixos recursos, ainda na área de habitação. Durante essa experiência tornou-se claro para a equipe que, embora a conquista da morada digna proporcionasse às pessoas sentimentos de pertinência social, dignidade humana, era necessária a busca pelo trabalho e renda que possibilitasse, a essas pessoas, o acesso a outros benefícios, além da moradia (RELATÓRIO..., 2005, p. 2).
Em 1994, realizou, em parceria com a Prefeitura Municipal de Salvador, mutirão na Baixa do Camurujipe, no bairro de São Caetano, periferia da cidade, às margens da BR-324. Neste trabalho, foram construídas 124 casas, com a participação de cerca de 300 mutirantes.
No final do ano 1998, o Thaba envolveu-se em dois grandes projetos: a incubação de cooperativas populares, e a qualificação profissional para a construção civil. Isso levou uma parte da equipe a criar a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade do Estado da Bahia (ITCP/Uneb), dando continuidade à proposta de geração de trabalho e renda.
Em 1998 e 1999, o Thaba realizou, em parceria com a Conder e a Caixa Econômica Federal, o projeto piloto Cesta de Materiais de Construção, no bairro Caji, em Lauro de Freitas – Bahia. Esta foi a primeira experiência de formação profissional para a construção
civil do grupo. Ofereciam-se três cursos: pedreiro e pintor, carpinteiro, encanador. Os aprendizes do curso de pedreiro e pintor também poderiam fazer o curso de carpinteiro ou o de encanador, mas não os dois, já as atividades destes cursos aconteciam no mesmo horário. Na ocasião, estruturou-se a metodologia dos cursos, com aulas teóricas no início do turno, ministradas no canteiro-escola, seguidas da imediata aplicação prática dos conteúdos abordados, na construção de habitações populares, cujos materiais de construção eram financiados pela Caixa Econômica Federal.
A seleção dos aprendizes consistia em uma semana de atividades anterior ao início dos cursos, onde eram explicadas as atividades dos cursos e as atribuições das profissões em que os aprendizes pretendiam atuar. Participando dessas atividades, as pessoas que não tinham aptidão profissional por si só desistiam da carreira pretendida, o que diminuía a evasão nos cursos. As normas e procedimentos do canteiro-escola, e outras orientações quanto a relações interpessoais, horários, cuidados com materiais e fardamentos eram registradas no Regimento
do Curso, que era discutido com os aprendizes nos primeiros dias de aula.
O canteiro-escola era quase sempre uma estrutura de caráter provisório, erguida especificamente para funcionamento dos cursos profissionalizantes. Suas instalações eram compostas por sala de acompanhamento sócio-pedagógico, sala de aula, almoxarifado, oficina e sanitários. Existiam, no canteiro-escola, normas de conduta e procedimentos para retirada de materiais e ferramentas e para devolução de materiais, que visavam simular o funcionamento de um canteiro de obras usual, possibilitando aos aprendizes uma vivência semelhante à experiência profissional.
Os cursos eram divididos em dois módulos: o módulo básico, que era oferecido em todos os cursos, e o módulo específico de cada profissão. Compunham o conteúdo do módulo básico: noções de matemática, estudos sociais, ética, participação comunitária e mercado de trabalho. O módulo específico contemplava aulas teóricas – com informações básicas sobre a profissão e sua atuação, segurança no trabalho, uso e manuseio de ferramentas de trabalho, iniciação a leitura e interpretação de projetos, orientações para quantificação de materiais e serviços, emprego de materiais de construção e noções básicas de transporte e estocagem – e aulas práticas – na execução de todas as etapas construtivas de casas populares. As aulas eram dadas por licenciados em construção civil pela Uneb.
Nas atividades práticas, organizados em equipes, os aprendizes podiam vivenciar e participar todas as etapas construtivas e relacionadas à profissão escolhida, ao longo da execução de casas populares, sob o acompanhamento dos educadores e de monitores –
profissionais experientes da construção civil, selecionados na comunidade de implantação do projeto, que também passavam por um processo de formação continuada nos cursos. O cronograma dos cursos seguia o cronograma físico da construção. Para possibilitar maior vivência prática e aprofundar o aprendizado, eram desenvolvidas atividades nas oficinas. Neste projeto piloto, a equipe do Thaba pôde mensurar a quantidade média de serviços necessária ao aprendizado das profissões de pedreiro, carpinteiro, encanador e pintor. Como material didático para os cursos, o Thaba elaborou a Cartilha do Pedreiro, rica em ilustrações e com linguagem acessível aos aprendizes.
Uma grande preocupação das atividades práticas do projeto piloto residiu na ergonomia. Cuidados com a o carrego e transporte de materiais, com a postura corporal nas diversas fases da construção, com o manejo das ferramentas, eram repassados aos aprendizes, e constantemente abordados pelos educadores e monitores, até a assimilação destes conteúdos.
Os aprendizes recebiam uma bolsa-auxílio, para custear as despesas com transporte. Os dias de falta eram descontados no pagamento da bolsa, já que não havia gasto com transporte para o aprendiz. A intenção era aproximar a experiência no curso da realidade profissional, onde os dias de não-comparecimento são descontados da remuneração.
Além das atividades profissionalizantes, os cursos também ofereceram o acompanhamento sócio-pedagógico, realizado por técnicos da área social. Neste item foram abordadas questões como relações interpessoais, cidadania, drogas, violência, sexualidade e outras demandadas pelos aprendizes, propiciando uma formação mais ampla. Atividades de integração também aconteceram ao longo do curso, como torneio de futebol e reuniões festivas.
A avaliação era processual, observando-se o desempenho e o desenvolvimento de cada aprendiz ao longo das atividades dos cursos. Apontamentos diários eram feitos pelos educadores e monitores. Além das atividades relativas a cada profissão, eram observados, na avaliação, quesitos como responsabilidade, relações interpessoais, capacidade de trabalhar em grupo, cuidados com materiais e ferramentas, na perspectiva da formação profissional coerente às exigências do mercado de trabalho. Eventualmente, utilizava-se também o recurso da prova escrita. Ao final do curso, os aprendizes que obtiveram média seis e freqüência mínima de 75% das aulas recebiam o Certificado de qualificação, enquanto que àqueles que não atingiram a média, mas tinham a freqüência mínima, era conferido o Certificado de
Os bons resultados do projeto piloto levaram à realização do Programa Aprendendo e Construindo (PAC), em parceria com a Conder e a Secretaria de Trabalho e Ação social do Governo da Bahia, entre os anos 1999 e 2003. Este programa foi implantado em onze municípios baianos: Camaçari, Eunápolis, Alagoinhas, Paulo Afonso, Valença, Nazaré, Barreiras, Ilhéus, Ipiaú, Salvador e Simões Filho. Ao longo do PAC, o Thaba elaborou a
Cartilha do Encanador, a Cartilha do Carpinteiro, e a Cartilha do Pintor. Ao fim deste
trabalho e somando a experiência do projeto piloto, haviam sido emitidos, pela Uneb, 3 935 certificados, sendo 3 184 certificados de qualificação, o que representa aproximadamente 81% de aprovação entre os aprendizes. Além disso, foram construídas 427 casas, ao longo das atividades práticas dos cursos.
No ano 2003 o Thaba passou a ser um núcleo da Proex, sendo denominado, a partir de então, Núcleo de Pesquisa e Extensão em Habitação Popular.
No ano 2005, o Thaba ministrou cursos profissionalizantes nas comunidades Bate- Facho e Alto do São João, no bairro Imbuí, em Salvador – BA. Esta experiência trouxe dois diferenciais para o núcleo: pela primeira vez ofereceu-se o curso de eletricista, e todos os aprendizes tiveram acesso, além do curso de eletricista, à formação nas profissões de encanador e pintor. Este novo formato dos cursos do Thaba objetivou propiciar uma formação mais completa aos aprendizes, já que é comum ser requisitado, no mercado de trabalho informal da construção civil, que um único profissional tenha conhecimento das diversas profissões.
Em seguida, houve os cursos profissionalizantes para os assentados do Menino Jesus. Pela primeira vez, e em consonância com as duas experiências anteriores, alterou-se o cronograma de atividades dos cursos, para que cada aprendiz pudesse obter a formação nas cinco profissões: pedreiro, carpinteiro, encanador, eletricista e pintor. Esta concepção, de formar um profissional polivalente, que possa obter uma melhor colocação no mercado de trabalho, é adotada pelo núcleo até hoje.
Depois dos cursos ministrados no Assentamento Menino Jesus, entre 2007 e 2010 o Thaba continuou promovendo a formação profissional para a construção civil, em parceria com a Petrobras. Aconteceram cursos em Ilha de Maré (Salvador – BA), Ilha d’Ajuda (Jaguaripe – BA), Moreré, Monte Alegre, Boipeba e Garapuá (essas últimas quatro localidades em Cairu – BA), com a construção de casas populares e de centros comunitários nas aulas práticas. Outro parceiro foi a Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Bahia, na formação profissional de jovens em situação de risco, por meio do projeto Jovens
Construtores, nos anos 2009 e 2010. Nas aulas práticas desse projeto, promoveram-se a reforma de alguns prédios e a construção de novas edificações no Centro Social Urbano de Castelo Branco, em Salvador – BA.
Presentemente, as principais linhas de atuação do THABA são: formação profissional para a construção civil; organização comunitária; elaboração participativa de projetos de interesse social; educação ambiental. A sua equipe de profissionais é formada por engenheiros, arquitetos, sociólogos, assistentes sociais, psicólogos, licenciados em construção civil, entre outros profissionais, possibilitando ao núcleo o desenvolvimento de ações interdisciplinares junto a comunidades de baixa renda, que objetivam amadurecer e consolidar metodologias integradas de planejamento participativo no fortalecimento do potencial e das perspectivas de desenvolvimento dessas comunidades, subsidiando decisões conceituais para formulações políticas, diretrizes administrativas e programas de autogestão, que visem à qualidade sócio-ambiental urbana, adotando-se as concepções de processos de co-gestão, de parceria com entidades sociais, de participação comunitária, de geração de trabalho e renda e de qualidade ambiental.