Após a análise dos mais de 7 mil comentários coletados nas duas páginas utilizadas por esta pesquisa, e da codificação de mais de 2 mil comentários recíprocos encontrados neste total dentro das variáveis aqui propostas, foi possível concluir alguns padrões e características comuns de serem encontradas nos diálogos entre os usuários do Facebook.
Apontar o nível de reciprocidade que podem ser encontradas nos comentários de páginas políticas do Facebook foi um dos principais propósitos dessa pesquisa, para que pudesse ser estabelecido até que ponto processos deliberativos se dão em um ambiente de diálogo como o espaço de comentários da plataforma. Ao final da análise, foi possível concluir que, apesar de não ser o ideal nem representar a maior parte do conteúdo encontrado, existem sim características deliberativas nos debates encontrados no Facebook, principalmente no que diz respeito ao caráter recíproco do seu conteúdo. Apesar de apenas 33% dos comentários avaliados serem recíprocos, o engajamento dos usuários neste espaço de diálogo mostrou que este é sim um ambiente utilizado se debater ideias e compartilhar informações. Mostrou-se um ambiente heterogêneo, onde diversas opiniões foram contrapostas e em que longos debates foram realizados, com threads chegando a mais de 100 comentários. Infelizmente recursos de links e de dados foram pouco vistos na análise, o que aponta de forma negativa para a utilização do espaço, uma vez que essas são ferramentas que tendem a trazer maior riqueza de informação aos diálogos. Por outro lado, perceber que existe uma alta utilização de sarcasmo neste espaço, além do domínio de opiniões divergentes, mas que poucos são os comentários a apresentar ofensas e argumentos antidemocráticos em um ambiente que não conta com nenhuma mediação prévia, aponta positivamente para o caráter deliberativo e democrático do Facebook. Foi possível perceber ainda uma preferência de utilizar recursos argumentativos que técnicos entre os usuários, o que aponta para uma preocupação maior dos locutores na exposição de suas ideias do que em simplesmente opinar positiva ou negativamente ao longo do diálogo com imagens e
emoji. Com isso em mente, vale ressaltar que um debate com opiniões expressas de forma
extensa, explicadas e ilustradas por exemplos e ideias vale mais para o enriquecimento da discussão e conta como pontos mais positivos para a democracia do que um diálogo onde os participantes apenas se dizem contrários ou favoráveis a um determinado posicionamento, e foi isso que foi encontrado no espaço de comentários do Facebook.
Além das características do seu caráter recíproco, outras questões apareceram como definidoras para a utilização do espaço de comentários de Facebook, pelo menos em páginas que tratam de assuntos políticos, como é o caso do MBL e do Mídia Ninja. A relação entre o índice de discordância e o de reciprocidade foi uma das características mais fortemente evidenciadas pelo estudo. Ficou claro diante dos dados coletados que a discordância é diretamente proporcional ao nível de reciprocidade que pode ser encontrado em uma publicação, seja porque os participantes dos diálogos analisados tendem a se posicionar mais de forma contrária que favorável, seja porque discussões com muita discordância e heterogeneidade geram mais diálogo. Vale salientar ainda que a discordância em si já presume um ato de reciprocidade, uma vez que para discordar é necessário estar respondendo a algum conteúdo anterior. Por outro lado também é possível existir reciprocidade em momentos de concordância, como foi visto em parte dos casos, mas eles não apresentaram tanta relação quanto foi encontrada entre os casos de discordância e reciprocidade. Diante dos dados encontrados concluiu-se que debates onde há maior discordância apresentam resultados mais positivos para a democracia, por estarem mais associados aos benefícios trazidos pela deliberação. Uma relação similar se apresentou entre o posicionamento discordante e a utilização de sarcasmo, resultado que já era de se esperar. Pensando mais a fundo, contudo, pode-se conjecturar se a utilização do sarcasmo não pode também estar ligada, mesmo que de forma secundária, ao nível de reciprocidade a ser encontrado em um post, visto que os comentários que mais tiveram comentários também tiveram altos índices de sarcasmo. Não é possível apontar para esse resultado com certeza, contudo, pois esse resultado pode ser causado apenas pelo alto nível de discordância encontrada nesses casos, e um estudo mais focado nesta hipótese precisaria ser feito para assegurar essa conclusão. Os resultados apontam uma questão similar também ao assunto das publicações, e seria necessário recorrer também a um estudo que analisasse apenas a essa hipótese para poder se concluir com certeza se pautas polêmicas, como a menção do candidato Jair Bolsonaro, podem aumentar o índice de reciprocidade encontrado em publicações de páginas do Facebook.
Por se tratar de um caso específico, posts relacionados ao primeiro debate eleitoral do pleito de 2018, e ainda mais de uma eleição com tamanha polarização como a que aconteceu neste ano, o contexto do evento escolhido para ser tema da análise esteve muito presente nos resultados, desde o alto índice de discordâncias, até o claro tom provocativo encontrado nos diálogos e nas figuras centrais que mais geraram discussões. Como foi percebido durante a
análise, comentários favoráveis não rendem discussões em um ambiente como o Facebook, mesmo em diálogos entre pessoas que compartilham laços fortes, vide o padrão encontrado por usuários que marcam os amigos nas publicações. Tendo essas percepções em mente, notou-se durante a análise que usuários do Facebook tendem a procurar ativamente locais onde os diálogos são mais provocativos, e onde existe maior possibilidade de atrito durante os debates. O próprio protagonismo do candidato Jair Bolsonaro entre as publicações com maior índice de reciprocidade aponta nesta direção. A figura polêmica do presidenciável pelo PSL gera uma onda de diálogos acirrados, acalorados e altamente polarizados, e, não por coincidência, as publicações que tinham o candidato como pauta estavam, todas, entre as postagens com maiores índices de reciprocidade, relação que não foi diretamente encontrada com nenhuma das outras figuras envolvidas no debate. Nem mesmo menções ao ex-presidente Lula, que representa a outra parte da polarização dessas eleições apresentou tamanho índice de discussões. Pode-se argumentar que as discussões relacionadas ao candidato Bolsonaro estão tão mais relacionadas a tretas e debates polêmicos e acirrados que essas tendem a atrair mais a atenção e o engajamento dos usuários do Facebook, Considerados os resultados achados por Carreiro (2017) em suas análises, parece um padrão que a procura por treta chama mais atenção e rende mais discussões em um espaço como Facebook. É possível ainda que o fenômeno da polarização das atuais eleições tenha gerado ainda mais a procura ativa por ambientes de discussões dominados por provocações, discordâncias e polêmicas. A tendência percebida a partir da análise da amostra é de que os usuários da plataforma não estão tão interessados em estar atuantes em uma rede de apoio e concordância, mas apresentam muito mais engajamento em momentos de maior acirramento e disputa. As eleições de 2018 apresentam um cenário delicado, pouco frutífero para haver diálogo entre os dois lados desta polarização quando se tratam de laços fortes. Amigos e familiares tendem a não entrar em discussões sobre o assunto, evitando conflitos diretos, mas um espaço feito para laços fracos, como é o caso das páginas utilizadas nesta pesquisa, pode ter sido o escolhido para preencher esse espaço que estava faltando no contexto eleitoral dos cidadãos brasileiros, o que pode ter impulsionado ainda mais a procura por espaço de alta discordância. Claro que pode haver ainda diferença nesse padrão se o perfil das duas páginas analisadas forem comparados, o que pode explicar ainda as diferenças encontradas nos índices de cada uma.
As principais questões discutidas ao longo deste trabalho apontam para alguns padrões e características que podem ser percebidas no espaço de diálogo encontrado no Facebook.
Concluiu-se que a plataforma e os usuários representados pela amostra analisada ainda podem melhorar muito a utilização deste ambiente para fins democráticos e deliberativos, mas que este espaço se apresenta com frequência como uma opção para o diálogo, principalmente em casos de alta polarização e polêmica, sendo essas as situações mais procuradas pelos usuários da rede. O Facebook se mostrou, neste estudo, como um local onde pessoas procuram nichos de debates acirrados para poder participar dessas polêmicas, sem comprometer diretamente suas relações externas ao ambiente online.
Sobre a utilização dos recursos apresentados pela plataforma, é possível perceber uma tendência positiva, além da vontade dos participantes envolvidos nos debates de participarem de forma recíproca e respeitosa, mesmo procurando ativamente por discussões onde polemicas e disputas são mais comuns, como é de acordo com o que está no conceito dos sistemas deliberativos.
Para concluir, é importante salientar que esta pesquisa teve suas limitações, tanto devido ao tempo disponível para análise quanto por conta de questões próprias da plataforma que é o Facebook e por limitações impostas pela própria metodologia escolhida. Algumas perguntas que surgiram durante a analise poderiam ser respondidas apenas mediante uma pesquisa mais aprofundada e focada em cada uma delas, mas ainda sim procurou-se responder às principais questões levantada no inicio deste estudo, que teve sempre a intenção de focar e responder sobre o caráter de reciprocidade a ser encontrada no Facebook, bem como suas principais características, recursos usados e o perfil dos usuários da plataforma nas paginas escolhidas para a análise.