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3. ANALYTICAL TECHNIQUES TO STUDY RADIOACTIVE PARTICLES

3.2. NUCLEAR ANALYTICAL TECHNIQUES TO STUDY RADIOACTIVE

Com o binômio gado-algodão, a civilização do couro entra em decadência. O semiárido deixa de ser área de pasto e torna-se um espaço agrícola. O latifúndio improdutivo se abre para a agricultura praticada pelos pobres lavradores. Assim, os problemas sociais derivados da civilização do couro, do latifúndio que só serve para alimentar o gado do fazendeiro, tendem a desaparecer: o nomadismo, por exemplo, que é característico do regime pastoril, perde a força de influência que tinha antes sobre o sertanejo. O fanatismo e a cangaceria, tipos de reações primitivas do trabalhador sem-terra ao contexto opressor derivado da concentração fundiária (FACÓ, 1980, p. 34), perdem o magnetismo que exercem na população rural à medida que a região se torna agrícola. Este “binômio social” (fanatismo e cangaço) “da zona semiárida das caatingas” que se encontra, por séculos, em um estado de um “desajustamento prolongado” (ver Djacir Menezes,1970, p. 19), passa, com a fixação de trabalho regular nas lavouras de algodão e a intervenção estatal, a sofrer severos ajustes no “tempo do algodão”.

Sociologicamente, o regime pastoril é classificado como responsável pela reprodução do poder da caudilhagem territorial, pela anarquia nas regiões onde a pecuária é atividade econômica dominante. Em Populações meridionais do Brasil, Oliveira Vianna (1952, p. 310-311) afirma que onde o regime pastoril se faz dominante irrompem tumulto, banditismo e anarquia. Como prova disso, Oliveira Vianna cita o caso das caatingas setentrionais, onde os caudilhos rurais se mantêm “indomáveis e irredutíveis na sua belicosidade”. E, ao exprimir sua leitura racista da história sobre a “plebe rural”, Oliveira Vianna (1952, p. 311) explica a relação entre anarquia e pastoreio:

Essa correlação entre a anarquia e o pastoreio explica-se, em parte, pela infixidez a que esse regime econômico submete a população inferior. O trabalho do pastoreio abre aos vaqueiros maiores lazeres, vastos interregnos de sesta quotidiana. De forma que, nas zonas de criatório, a plebe rural se afaz muito naturalmente aos hábitos de gandaíce e da vagabundagem.

Para o jurista o caráter da “plebe rural” é determinado pela função que ela exerce no campo. Neste sentido, para Oliveira Vianna (1952, p.311) o regime agrícola produz um tipo de homem com hábitos mais pacíficos:

O regime agrícola, mesmo como se pratica entre nós, exige, ao contrário, do homem uma atividade contínua, um labor intenso, nas arroteias, nas semeações, nas carpagens, nas colheitas. Por isso, as nossas populações exclusivamente agrícolas se mostram sempre de costumes pacíficos e calmos.

Desse modo, o trabalho agrícola produz um homem totalmente diferente dos vaqueiros. Enquanto estes são treinados para ações agressivas, o trabalho agrícola se configura como “um sedativo às índoles mais irritáveis e explosivas”, pois “abranda, ameiga, sensibiliza, domestica” (VIANNA, 1952, p. 311).

Djacir Menezes (1970, p. 64) concorda com Oliveira Vianna, quando afirma que o regime pastoril e as crises clímicas periódicas “agiam no sentido de imprimir nas populações rurais o espírito de clã e nomadismo, combatividade e inquietação”. Com o algodão, todavia, Menezes destaca que os povos do Nordeste semiárido encontraram motivo mais forte de fixação. Assim para o autor de O outro

Nordeste o “papel da cultura algodoeira é a de força civilizadora, nas zonas semi-

áridas”. Seus efeitos prefiguram, “na fisiografia do Nordeste pastoril, o perfil de economia mais avançada”. (MENEZES, 1970, p. 77, grifo nosso)

Acreditamos, tal como Djacir Menezes, na força civilizadora da cultura algodoeira, especialmente porque ela vem acompanhada da intervenção do Estado nos períodos de seca. Aliás, o objetivo desta intervenção era integrar regiões inóspitas à economia nacional (ver Sevcenko,1999). Com o trabalho regular nas fazendas, e com as frentes de emergência durante as secas, abrindo estradas e construindo açudes públicos e particulares, a agricultura nessas zonas tendeu a estabilizar camadas da população ao solo.

Nesse sentido, a prática do cultivo do algodão durante o século XX apresenta-se como uma força contrária às correntes migratórias (ou seja, uma contracorrente), agindo para a fixação da população. Destarte, a afirmação de Crandall (1923, p. 56) de que “o progresso da região é retardado porque a gente

vive na cangaceria em vez de viver nas suas roças” perde a legitimidade, em razão do desenvolvimento da cotonicultura e da presença do Estado na região semiárida.

A economia do algodão tornou-se, assim, um elemento civilizatório. Porque tal economia provocou mudanças no entrelaçamento e interdependências humanas, entre fazendeiros e trabalhadores sem-terra, modificando assim a estrutura de conduta na direção da “civilização”, através da disciplina de trabalho regular. Com o cultivo do algodão, as fazendas foram repovoadas, a indústria têxtil ganhou impulso, os moradores garantiram renda e as correntes migratórias diminuíram sensivelmente. O nomadismo e o fanatismo, associados aos sertanejos das caatingas setentrionais, pediram passagem para uma vida mais sedentária, civilizada. Isto, porém, não quer dizer que tal economia encerrou de vez com os tipos extremos do fanático e do cangaceiro, as lutas de famílias e as migrações para o Norte e Sudeste do país.

Mas as lutas de famílias, recorrentes no passado histórico da região, arrefeceram. As correrias dos bandos de cangaceiros se limitaram mais ao imaginário popular. O cultivo do algodão, juntamente com o trabalho na cidade (na usina que processa o caroço de algodão), retiraram dos sertanejos o tempo para ouvir os conselheiristas e a vontade de migrar do sertão. O Estado, principalmente nas secas, agiu no sentido de pôr ordem nas áreas passíveis de conflito. Tudo isso concorreu para que se desenvolvesse um processo civilizador, motivado especialmente pelo algodão.

Apesar de refletir sobre um momento diferente da história (a desintegração do feudalismo), Elias é referência obrigatória para pensarmos sobre o cultivo do algodão como elemento civilizatório da região semiárida. Com a fixação de trabalho regular nas lavouras de algodão, o sertanejo inclinou-se à pacificidade, se resguardou “do impacto das rixas e guerras constantes e passava a sofrer as compulsões mais permanentes de funções pacíficas baseadas na aquisição de dinheiro ou prestígio [...]”. (ELIAS, 1993, p. 200)

A aquisição de prestígio, ser reconhecido como “bom trabalhador”, “o melhor cabra”, “o que mais colhe algodão”, foi indispensável para os lavradores sertanejos, pois em troca tinham vantagens, tais como: continuar na fazenda, poder plantar sua subsistência, criar animais, pescar, ganhar a simpatia da família do patrão etc. Neste sentido, “as oscilações no comportamento e nos sentimentos não

desapareceram, mas se abrandaram”. E, assim, continua Elias (1993, p. 200): “Os picos e vales se tornaram menores, e menos abruptas as mudanças”.

Além da mudança de comportamento, as relações de parceria no cultivo do algodão possibilitaram renda e capital simbólico para os lavradores. O indivíduo que não se adaptava à rotina do trabalho regular era “desprestigiado” pelos fazendeiros. A renda e o “prestígio” que o cultivo da malvácea facultou prevaleceram e deram condições de fixar os sertanejos no torrão natal. A civilização agrícola, capitaneada pelo algodão, desconcentrou mais renda do pouco que fez a pecuária. Por isso, mais autocontrole, e mais fácil foi se submeter a um patrão. Desta forma, a coerção social, que a civilização agrícola exerceu na população rural, trouxe paz para o semiárido e desautorizou as predições de beatos e profetas. Todavia, isto não quer dizer que o algodão foi responsável por fazer da região um paraíso celeste...

4 SERTÃO DE QUIXERAMOBIM: CULTIVO DE ALGODÃO E “ESTRUTURA DE