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A Proclamação da República, em 1889, foi um período de grandeefervescência em prol da democratização do ensino no país. O regime republicano apoiou a educação como força propulsora para revertera situação de estagnação cultural, vivenciada pela maioria da população brasileira. Nesseperíodo,oensino foi considerado imprescindível para a conquista da cidadania e instrumento para a consolidação da nova ordem social que principiava no Brasil. De acordo com Chamon:

Uma ampla discussão sobre escolarização compulsória se instala e faz emergir a defesa de diferentes propostas pedagógicas para as diferentes classes sociais: aos privilegiados, uma formação mais geral e científica, visando ao fortalecimento intelectual de uma elite projetada para a direção dos destinos da nação; ao povo, uma formação elementar disciplinadora, direcionada para o trabalho assalariado (2006, p. 10).

Observe-se que, após a Proclamação da República,a sociedade brasileiratornou-se distinta daquela antiga sociedade imperial eescravocrata. Isto decorria, também, das novas demandas ocasionadas pelo movimento econômico proporcionado pela industrialização incipiente e urbanização das maiores cidades como Rio de Janeiro eSão Paulo.

Nesse sentido, foi atribuído à escola o papel diferenciado deformação civilizacional. Para aquelesque possuíam condições econômicas mais favoráveis, era possível o acesso aos cursos superiores. E, para os mais pobres, o papel da escola era apontado para formação profissional.

O Brasil, era um país que somava 67% de analfabetos em sua população, como registra o censo de 1890, e que indicava a quase ausência de um sistema público de ensino elementar, precisava ser no mínimo moralizado. O seu povo precisava ser “civilizado”, para melhor atender aos interesses dominantes, preparando-se para a disciplina do trabalho, quer no campo, quer nas zonas urbanas onde acanhadamente começavam a despontar as primeiras indústrias. Somente uma cruzada civilizatória poderia dar conta desse processo. A idéia de que a mulher é elemento moralizador por excelência e o reconhecimento de que a educação da mulher seria de grande importância para a moralidade dos povos passa a intensificar-se no discurso oficial e a repercutir na sociedade. A velha mentalidade patriarcal começava a ceder espaço às filhas, frente aos apelos oficiais que se intensificavam [sic]. (CHAMON, 2006, p. 10).

O país deu inícioa um ciclo de reformas educacionais emprol da alfabetização do povo brasileiro. Nesse processo, as jovens mulheres das cidades perceberam no magistério uma oportunidadede estudar, bem como a possibilidade deumofício com a devida aprovação

social. Da mesma forma, o processo de escolarização foi considerado um instrumento a 3 facilitar a inserção de alguns membros dapopulação brasileira naesferapolíticadopaís.

Nesse período, o sistema público de ensino ainda não dispunha de um grande contingente feminino escolarizado, que pudesse preparar pedagogicamente outras mulheres para atuarem na rede de escolas públicas. Ainda de acordo com a autora:

A Escola Normal é que ia assumindo a função de preparar profissionais para atuarem na rede de escolas primárias públicas, em expansão, tão necessárias ao novo modelo político, econômico e social, sem contudo perturbar a sua ordem. O número de escolas normais, como esclarecemos anteriormente, vai sendo gradativamente ampliado. Essas escolas sofrem, também, uma grande reforma curricular, porém sem perder o velho objetivo: a formação para a moralização e o exercício da obediência. A educação das mulheres nas escolas normais passou a ocupar lugar de destaque na agenda das políticas públicas. Em 1906, o governador João Pinheiro, com sua equipe, empreendeu uma grande reforma da instrução pública. Essa reforma estabeleceu a criação dos primeiros grupos escolares do Estado e da Escola Normal da Capital, destinada exclusivamente ao sexo feminino. O discurso oficial fazia a apologia da dignidade do trabalho educativo e enfatizava o sagrado, o divino e o caráter de vocação natural daqueles que se destinavam à “nobre missão”. Esses apelos discursivos foram sendo articulados aos ensinamentos das escolas normais e às práticas legitimadoras de uma nova cultura escolar, que se organizava no interior das escolas, tão necessária aos interesses capitalistas em expansão (CHAMON, 2006, p. 12).

Por essa perspectiva, caberia às mulheres a tarefa do ensino não apenas como uma profissão ou ofício, mas como uma “missão”. Porquanto consideradas como detentoras de habilidades para a organização, higienização e disciplina das crianças, o papel das professoras foi assim definido: construir uma novacultura escolar capaz de formar cidadãos obedientes e aptosparao trabalho urbano e rural. Desta forma, para Lima, aescola:

[...] assumirá o papel de instância formadora de mentalidades voltadas para o exercício da cidadania, mas com destaque especial para a divisão do trabalho social, determinadas pelas relações sociais de produção: tem-se a preocupação de formar elites pensantes, engajadas com a gestão da produção econômica, bem como voltadas também para as diretrizes políticas da nação. Por outro lado, a preocupação é também formar uma nova classe de trabalhadores, cuja formação escolar também se tornou real necessidade, no sentido de adaptar a mão-de-obra disponível para a execução das atividades, no interior do novo modelo econômico, que vem surgindo gradativamente, baseado no processo de industrialização. (2009, p. 04).

3Como os valores que se difundiam diziam respeito também à política, fortaleceu-se a mística de que a política mineira humanizava-se em diálogo com a criação libertária e com a cultura. Os estudiosos dos anos 20 estenderiam tal particularidade a outras unidades da Federação, mas dificilmente discordariam do papel crucial que intelectuais mineiros desempenharam na definição de políticas culturais do pós -30. Nomes como Gustavo Capanema, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Francisco Campos e Carlos Drummond de Andrade estarão definitivamente associados à montagem do projeto educacional e cultural do futuro governo Vargas. Sem dúvida trata-se de projeto de longa duração, de presença até hoje inconteste na sociedade brasileira (BOMENY, 1994, p. 17).

Com o iníciodo período republicano, váriasreformas educacionais foram aprovadas no país. Porém, até 1920, não ocorreram alterações significativas para o ensino primário e normal. Entre as reformas do período, podemosmencionar: a Reforma Benjamim Constant (1890), a ReformaEpitácio Pessoa(1901), a ReformaRivadávia Correa(1911)4. A maioria delas tratou especificamente do atendimento do Ensino Primário e Secundário. Destaca-se, excepcionalmente, a Reforma Educacional Carlos Maximiliano, de 1915, naquela época já considerada inovadora por cancelar as alterações da Reforma de 1914 e por instituir os exames vestibulares para ingresso nos cursos superiores. Não obstante, em suma, não apresentou mudanças quantoàformaçãode professores eao ensino primário.

4 A Reforma educacional Rivadávia Correa de 1911 garantiu maior liberdade e autonomia aos estabelecimentos de ensino que optaram por retornar ao ensino parcelado. A certificação de conclusão do ginásio não garantia acesso ao ensino superior, somente serviria como atestado de frequência e aproveitamento nos estudos superiores. A admissão nos cursos superiores seria administrada nas próprias faculdades.

É importante lembrar que a década de 1920 foi um período de intensa movimentação social, em especial daclasse operária, contra a situação política, econômica e social vigentes. Era desconcertante, dentre outras mazelas, o país não dispor de um sistema educacional de qualidade e disponível atodaa população. Em pronunciamentos de intelectuais, manifestou­ se a crítica junto ao desejo depromover novas políticas, capazes de reverter as situaçõesde descasoeabandonovivenciadas pela educação brasileira.

Emdezembrode 1920, foi sancionadaa Reforma Educacional de Lourenço Filhono Estado de São Paulo, pela Lei n° 1.750. Essa reforma previa a redução do curso primário de quatroparadois anos, a diminuição dos conteúdosnagrade curricular, a não reprovação como estratégia pedagógica (para se aumentar o número de matrículas nas escolas públicas), a obrigatoriedade e gratuidade escolar para alunos entre nove e dezanos de idade, a criação do curso médio, formado pelos 3°e4°anosprimários e a criação de uma taxa dematrícula.

A Reforma Educacional de Lourenço Filho também contemplou os cursos de formação docente.Uma das propostas da reforma pautou-se na reorganização docurrículo das escolas normais, conferindo maior autonomia didática para o professor. Além disso, criaram- se laboratórios e conteúdos disciplinares para a prática de ensino, implantaram-se delegacias regionais de ensino e o recenseamento escolar, com o objetivo de identificar carências setoriais na alfabetização das crianças. Segundo Monarcha, a Reforma Educacional de LourençoFilho foi considerada:

[...] um marco inicial do ciclo de reformas estaduais movido pelos propósitos de renovação dos métodos e processo de ensino e finalidades sociais da educação; ciclo este nomeado pela historiografia acadêmica como “movimento Escola Nova”. (2010, p. 34).

Desta forma, a busca de maisprofissionais qualificados paraatuar como docentes na escola primária reacendeu o desejo dese expandir o curso normal. Aofinal dos anosde1920, surgiram propostas de uma reforma educacional nacional, que contemplasse tal objetivo: a ReformaFranciscoCampos.