2. A JOUTS ET MODIFICATIONS AUX CONVENTIONS COMPTABLES EN VERTU DES PCGR DES
2.2. Nouvelles normes
Todos os fatores técnicos, políticos e socioeconômicos citados anteriormente, juntamente com o poder de sedução e representatividade característicos da televisão, além de sua linguagem simples, coloquial e de fácil entendimento, possibilitaram que o veículo se consolidasse no país, tornando-se um meio popular presente em 97,2% dos lares brasileiros15.
Dessa forma, a TV se estabeleceu como o veículo de comunicação de massa de maior alcance no Brasil, cujo papel foi além da transmissão de informações. Conforme aponta Dominique Wolton (1996), a televisão desempenhou uma função de laço social em nossa sociedade, possibilitando o reconhecimento de seus telespectadores enquanto brasileiros. Além disso, num território onde cerca de 85% da população vive em áreas urbanas, esse meio atuou ainda como “educador”, ajudando os habitantes da cidade a se ajustarem ao dia-a-dia dos grandes centros urbanos (MELO, 2010) e pautando as conversas cotidianas, em função de sua crescente popularidade.
Quem nunca comentou a notícia da noite anterior entre familiares, colegas de escola, de trabalho, vizinhos ou desconhecidos no ônibus de volta para a casa? No espaço público eletrônico proporcionado pela TV, travam-se debates e discussões acerca dos mais variados temas, desde o figurino de uma personagem da novela até os rumos econômicos das potências mundiais europeias. A televisão proporciona um espaço de “conversação”, como diria Dominique Wolton (1996, p.16):
A televisão é um formidável instrumento de comunicação ente os indivíduos. O mais importante não é o que se vê, mas o fato de se falar sobre isso. A televisão é um objeto de conversação. Falamos entre nós e depois fora de casa. Nisso é que ela é um laço social indispensável numa sociedade onde os indivíduos ficam frequentemente isolados e, às vezes, solitários.
Para Wolton, a televisão teria amenizado os feitos negativos da modernidade tardia. Ver TV seria uma atividade coletiva, muitas vezes experimentada individualmente.
A força da televisão está no religamento dos níveis da experiência individual e da coletiva. Ela é a única atividade a fazer a ligação igualitária entre ricos e pobres, jovens e velhos, rurais e urbanos, entre os cultos e os menos cultos. Todo mundo assiste à televisão e fala sobre ela (WOLTON, 1996, p. 16).
15 Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) referentes ao ano de 2012. Material
disponível para download no site http://loja.ibge.gov.br/pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-pnad- 2012-sintese-dos-indicadores-com-cd.html. Acesso em 25/10/2013.
É nesse sentido que a TV, conforme aponta o autor, se estabelece como um laço social em uma sociedade individualista de massa. Com a massificação das cidades e a consolidação de comunidades transnacionais, os vínculos locais e familiares se esvaneceram, tornando os indivíduos cada vez mais isolados. Os laços, antes mantidos pelo contato nos bairros, igrejas, escolas e espaços de lazer e consumo, “hoje, se encontram dispersos geograficamente, mas são celebrados via encontro catódico, à frente da telinha/telejornais” (MUSSE; COUTINHO, 2009, p. 21).
Sendo assim, a TV enquanto laço social poderia ser interpretada a partir de dois sentidos: o primeiro está relacionado ao fato de que o telespectador, ao assistir TV, passa a fazer parte de um público (potencialmente) imenso e anônimo que a assiste ao mesmo tempo, “estabelecendo assim, como ele, uma espécie de laço invisível. [...] ‘Assisto a um programa e sei que outra pessoa o assiste também, e também sabe que eu estou assistindo a ele’. Trata-se, portanto, de uma espécie de laço especular e silencioso” (WOLTON, 1996, p. 124).
Já o segundo diz respeito à televisão enquanto espelho da sociedade. Em outras palavras, a sociedade se vê através da TV; o meio lhe ofereceria uma representação de si própria. “E ao fazer a sociedade refletir-se, a televisão cria não apenas uma imagem e uma representação, mas oferece um laço a todos aqueles que a assistem simultaneamente” (WOLTON, 1996, p. 124).
Vale ressaltar, porém, que essa função atribuída à TV estaria intimamente relacionada ao seu caráter geralista, ou seja, canais abertos de programação diversa e que tentam alcançar o grande público. A TV geralista perderia em definição, mas ganharia em integração, isto é, na manutenção da representação da consciência coletiva de um país, conforme destaca Dominique Wolton (1996).
Entretanto, justamente esse aspecto é duramente criticado pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1997). A busca por um “denominador comum” para se atingir o grande público estaria atrelada à procura por temas que se dirijam a todos – como fazem as emissoras de canal aberto, que por meio de programas diversos tentam alcançar todas as classes sociais e, na perspectiva do autor, reforçar o status quo.
Uma parte da ação simbólica da televisão, no plano das informações, por exemplo, consiste em atrair a atenção para fatos que são de natureza a interessar todo mundo, dos quais se pode dizer que são omnibus – isto é, para todo mundo. Os fatos-ônibus são fatos que, como se diz, não devem chocar ninguém, que não envolvem disputa, que não dividem, que formam consenso, que interessam a todo mundo, mas de um modo tal que não tocam em nada de importante (BOURDIEU, 1997, p. 23, grifo do autor).
Sendo assim, conforme Pierre Bourdieu (1997), em função também de seu evidente potencial em “moldar opiniões e gostos”, a televisão seria um instrumento utilizado para assegurar a manutenção da ideologia e da cultura dominantes. Os conteúdos variados seriam tratados de modo a evitar ao máximo o desencadeamento de conflitos e/ou ir de encontro às normas sociais já estabelecidas.
Todavia, nesse trabalho, adotamos a perspectiva traçada pelos pesquisadores Jesús Martín-Barbero e Gérman Rey (2004), em uma abordagem mais próxima das perspectivas do construcionismo e do interacionismo simbólico, abordados no capítulo anterior. Os autores concordam com o poder da televisão e sua capacidade de moldagem – tanto para o bem, quanto para o mal – “nas dinâmicas da cultura cotidiana das maiorias, na transformação das sensibilidades, nos modos de construir imaginários e identidades” (p. 26, grifo do autor). E afirmam que a atuação do veículo ganharia ainda mais relevo nas nações latino-americanas, como o Brasil.
Segundo Martín-Barbero e Rey, a fascinação provocada com a chegada da TV e sua atual predominância entre os meios de comunicação de massa estariam relacionadas à ausência de políticas culturais, de espaços de expressão política, de negociação de conflitos e não representação no discurso da cultura oficial nesses países. Desse modo, seria diante da tela e por meio das mediações sociais logradas por suas imagens que a modernidade, ou sua representação, se tornaria acessível às maiorias. Esse cenário potencia
desproporcionalmente a cena dos meios de comunicação e, especialmente, da televisão, pois é nela que se produz o espetáculo do poder e do simulacro da democracia, sua densa trama de farsa e de raiva, e na qual adquirem alguma visibilidade dimensões-chave do viver e do sentir cotidiano das pessoas [...] (MATÍN-BARBERO; REY, 2004, p. 25, grifo do autor).
Assim, também para os autores, a televisão se converteria em um “lugar nevrálgico” onde, de algum modo, a nação comparece e se encontra. Aproximando-se da perspectiva do laço social evidenciada por Wolton, na abordagem de Martín-Barbero e Rey, a TV seria muito menos um instrumento de ócio e de diversão do que de “cenário cotidiano das mais secretas perversões do social e também da constituição de imaginários coletivos, a partir das quais as pessoas se reconhecem e representam o que têm direito de esperar e desejar” (MARTÍN-BARBERO; REY, 2004, p. 26)16.
16 Dessa forma, afastamo-nos da abordagem de tom maquiavélico de Bourdieu (1997), apesar das considerações
do autor sobre a homogeneidade e superficialidade no tratamento dos conteúdos veiculados em uníssono para diferentes camadas da população serem de fato importantes.
Entretanto, os autores assumiriam uma postura mais crítica: em uma sociedade onde os indivíduos estariam se incorporando à modernidade principalmente por meio da indústria e da experiência audiovisual, se tornaria necessária uma “segunda alfabetização”, dessa vez, para a televisão.
Viveríamos, atualmente, um “des-ordenamento cultural” graças à crescente e cada vez mais imbricada relação entre modos de simbolização e ritualização do laço social com os fluxos audiovisuais, conforme ressaltado anteriormente, o que geraria novas figuras de sociabilidade e formas de sentir (MARTÍN-BARBERO; REY, 2004). “Se já não se escreve, nem se lê como antes, é porque tampouco se pode ver, nem expressar como antes. [...] A visualidade eletrônica passou a fazer parte constitutiva da visibilidade cultural” (MARTÍN- BARBERO; REY, 2004, p. 18-19).
A experiência audiovisual mudaria nossos modos de se relacionar com a realidade ao transformar nossas percepções de espaço e tempo. A televisão traria para bem perto o que só poderia ser vivido fora de nossos limites cotidianos, possibilitando que, muitas vezes, o distante seja mais reconhecível do que aquilo que cerca nosso perímetro imediato. Tudo isso ocorre no conforto do lar, por meio da virtualidade proporcionada pela tela da TV, e, atualmente, da do computador.
Como bem lembra Gómez, ser audiência implicaria uma transformação no vínculo entre os sujeitos com seu ambiente e os acontecimentos: “as janelas estão sempre sendo suplantadas pelas telas de televisão e do computador” (GÓMEZ, 2002, p. 237). Assim, estabelece-se o que Martín-Barbero e Rey (2004) denominaram de “hegemonia do audiovisual”.
Em função da grande penetração da televisão na vida dos indivíduos, os autores criticam a negação à TV e defendem a necessidade de formar uma visão crítica dos telespectadores para que esses sejam capazes de diferenciar a informação independente daquela atrelada a poderes e interesses econômicos e políticos.
No contexto latino-americano, Martín-Barbero e Rey (2004) ressaltam duas formas de imaginação projetadas pela mídia para a representação dessa “comunidade imaginada que é a nação” (ANDERSON, 1983 apud HALL, 2000) (BAUMAN, 2005): as telenovelas e os jornais de TV. Em função dos objetivos de nosso estudo, voltamos nosso olhar para o telejornalismo, gênero que cumpre uma função pública fundamental quanto ao direito à informação no Brasil, principalmente em um cenário onde a maior parte dos cidadãos obtém quantidade significativa das informações necessárias para o convívio em sociedade por meio da televisão, ainda que em diferentes suportes.