2. Les découvertes : berceau de l'utopie
2.1 Les Découvertes : une révolution intellectuelle et sociale
2.1.1 Une nouvelle conception de l’espace, du temps, de la société
Com efeito, os media não se limitam a informar e aproximar os indivíduos. Dada a complexidade e a distância de diversas realidades sociais, eles realçam “«pacotes» do real” que os indivíduos não vivem directamente mas exclusivamente em função e através da mediação simbólica dos media” (Grossi citado por Schmidt, 1999, p. 113). Desta forma, os media possuem o poder de realizarem uma “descodificação mediática”, isto é, de tornarem compreensíveis “realidades problemáticas” (Hall et al, citado por Schmidt, 1999, p.112). Por isso mesmo, podem funcionar como «pontes» para a maioria da população.
O aspecto positivo deste fenómeno reside no facto de os media possibilitarem aos actores sociais estar em contacto permanente com uma multiplicidade de mundos que se situam fora do horizonte da sua percepção espontânea. Aliás, quanto mais é notório o peso crescente das ciências e das tecnologias no funcionamento das sociedades modernas e na velocidade que estas imprimem à sucessão de novos acontecimentos (Bertman, 1998), tanto mais parece necessária esta função dos media: a de traduzirem problemas sociais complexos, tornando-os perceptíveis e compreensíveis para o público em geral. Neste sentido, os meios de comunicação social podem funcionar como verdadeiras fontes de divulgação de diversas representações da realidade social, nomeadamente das que são produzidas pela comunidade científica.
Porém, «o reverso da medalha» reside justamente no facto de os actores sociais se encontrarem cada vez mais dependentes da descodificação previamente realizada pelos media para construírem as suas representações sociais sobre o mundo global e para interpretarem e gerirem as normas sociais sob as quais se devem reger (Wagner, 1996). Se a omnipresença dos media transmite a ilusão de “«se saber tudo sobre tudo»”, este conhecimento alargado da realidade é, no entanto, extremamente mediatizado, ou seja, ligado a informações, e cada vez menos dependente da experiência directa (Wolton, 1995, p.171).
Está, assim, em causa, o facto de a maioria dos indivíduos depender da mediação exercida pelos meios de comunicação de massas para deterem contacto com importantes fatias da realidade com as quais não têm contacto directo. Como assim é, muitas zonas da realidade “mediático-dependentes” constituem uma espécie de “realidades em segunda mão” (Beck, citado por Schmidt, 1999, p. 113) às quais os indivíduos apenas acedem por intermédio dos meios de comunicação social.
O problema residirá, portanto, no facto de grande parte do conhecimento que os actores sociais possuem sobre a realidade social ser totalmente derivado do modo como a comunicação social os representa. Se os media poderão ampliar o quadro cognitivo dos
actores sociais, não deixam, assim, por outro lado, de delimitar os seus quadros de referência de percepção da realidade social, uma vez que condicionam o modo como é cognitivamente apreendida a vida social que se situa fora da esfera de acção imediata dos indivíduos.
Para isso, muito contribui o facto de os meios de comunicação social desempenharem um papel activo na construção e difusão de determinadas representações e visões sobre a vida social. Como Gaye Tuchman sistematiza, “as notícias não espelham a sociedade. Ajudam a constitui-la como um fenómeno social partilhado, dado que no processo de descrição de um acontecimento, as notícias definem e moldam esse acontecimento. Enfim, ao imporem um conjunto de significações, as notícias estão permanentemente a definir e a redefinir, a construir e a reconstruir os fenómenos sociais” (Tuchman, 2002, p.92-93). Rodrigues, por sua vez, corrobora estas afirmações ao afirmar que, por entrarem na própria definição dos acontecimentos, os media “elaboram a própria representação da realidade” (Rodrigues, 1993, p. 23 e 24). Os media constituem, pois, uma “espécie de mundo reticular com regras próprias que se sobrepõe ao mundo da nossa experiência imediata” (Rodrigues, 1993, p. 34). Neste sentido, Quéré sustenta que os meios de comunicação social não descrevem acontecimentos ou processos, retirando sim dos acontecimentos fragmentos com que instituem o real, “pondo- os em cena e introduzindo-os nos esquemas pré-construídos em que sentem coerência” (Quéré citado por Marcos, 1989, p.106). Os media permitem, assim, por um lado, a tomada de conhecimento de determinadas matérias e personagens que, de outro modo, permaneceriam votadas ao silêncio, do mesmo modo que silenciam outras que poderiam ser ouvidas.
O reconhecimento de que os media influem decisivamente nos “processos pelos quais qualquer corpo de conhecimentos chega a ser estabelecido como realidade” (Berger e Luckmann, 1973, citado por Correia, 1998, p.114) foi assumido pelo paradigma do agenda- setting. Trata-se de um modelo teórico claramente construído ao “arrepio da ideia mítica da notícia como espelho da realidade”34 e que, entre outras questões, chama a atenção para o recurso a enquadramentos (Frames), enquanto padrões que estabilizam a cognição, interpretação e apresentação de um acontecimento (Correia, 1998, p.115).
Como veremos, as conclusões dos autores do agenda-setting salientam claramente a importância dos media no que respeita ao estabelecimento de um significado comum e inter- subjectivo acerca da vida social, devido aos efeitos cognitivos que exercem nos actores sociais.
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O conceito «construção social da realidade» proposto por Peter Burger e Thomas Luckmann em 1967, no qual se inspirou o paradigma do agenda-seeting, deriva do trabalho de Alfred Schütz e da sua perspectiva segundo a qual todos os actores sociais constroem activamente significações sociais (Tuchman, 2002, p.93).
Por efeito cognitivo entende-se o “conjunto das consequências que derivam da acção mediadora dos meios de comunicação de massas sobre os conhecimentos públicos partilhados por uma comunidade” (Saperas, 1993, p. 11). Estes efeitos prendem-se com os mecanismos de formação e funcionamento da opinião pública e determinam, de acordo com Saperas, o modo como a opinião pública percebe, organiza o seu conhecimento sobre o mundo e orienta a sua atenção para determinados assuntos, ou seja, reflectem a capacidade de os media estabelecerem uma agenda pública (Saperas, 1993, p.12).
É este poder simbólico dos meios de comunicação de massas que lhes permite determinar, na opinião de Saperas, as formas de orientação da opinião pública, a agenda de temas dominantes que reclamam a sua atenção e discussão, a hierarquização da relevância desses temas e a sua capacidade de discriminação temática (Saperas, 1993, p.49).
Exposto pela primeira vez na década de setenta, o paradigma do agenda-setting sofreu, entretanto, uma considerável evolução. A hipótese inicial foi desenvolvida em 1972, por McCombs e Donald Shaw e baseava-se na premissa que os meios de comunicação de massas, pelo simples facto de prestarem atenção a certos acontecimentos e ignorarem outros, produziam efeitos no público que os consome. A preocupação inicial destes autores, situava- -se ao nível do estudo do papel dos media na formação e mudança de cognições (Traquina, 1995, p.192), sendo a comunicação social encarada como o elemento que determinava, ao público em geral, os temas importantes da actualidade, porque eram aqueles que os jornalistas consideravam importantes debater.
Todavia, como afirma Nelson Traquina, a hipótese de uma relação causal entre a agenda mediática e a agenda pública tinha sido já sugerida por Walter Lippmann, em 1922, quando este autor defendeu que os media eram a principal ligação entre os acontecimentos no mundo e as imagens desses acontecimentos na nossa mente (Traquina, 1995, p.193).
Por sua vez, Cohen, em 1963, nas investigações que realizou sobre os efeitos da imprensa, concluiu que esta poderia, na maior parte das vezes, não conseguir dizer às pessoas como pensar, mas tinha, no entanto, uma capacidade espantosa para dizer aos seus leitores sobre o que pensar. O mundo parecia, assim, diferente a pessoas diferentes, dependendo do mapa que lhes era desenhado pelos redactores, editores e directores do jornal que liam (Traquina, 1995, p.193).
Ainda assim, foi efectivamente o trabalho de McCombs e Shaw que forneceu os primeiros dados empíricos que sustentaram a hipótese de Cohen e lhe atribuíram a designação de agenda-setting. De acordo com Traquina, estes autores abriram novas linhas de investigação que motivaram a produção de mais de 200 artigos e livros (Traquina, 1995,
p.193). Por exemplo, tal como é referenciado por Santos, McClure e Patterson descobriram que o agenda-setting variava em função dos meios de comunicação, havendo diferenças entre a televisão e a imprensa escrita. O seu estudo revelou que a informação televisiva é demasiado breve e heterogénea para produzir um efeito significativo, ao contrário dos jornais, que fornecem uma visão sólida e aprofundada dos temas em debate. Ainda assim, consideraram que a televisão tem demonstrado, em várias áreas, uma poderosa capacidade para agendar temas. A representação do real (através das imagens) tornou-se, segundo estes autores, muitas vezes mais importante do que o próprio real (Santos, 1992, p.98).
Em relação aos temas “agendados”, a dependência do público em relação aos meios de comunicação de massas será inversamente proporcional ao seu conhecimento directo de um determinado tema (Santos, 1992, p.99). Deste modo, quando os temas abordados pelos jornais não respeitam à sua experiência directa, a dependência daqueles em relação a estes será seguramente maior.
Mas, paralelamente, a capacidade dos jornalistas em perceber quais são as questões que interessam ao seu público poderá ser responsável pela hierarquização dos temas. Assim, se nalguns casos é o público que, pela violência da sua reacção a uma determinada política ou acontecimento, atrai a atenção dos jornalistas, noutros casos é a comunicação social que chama a atenção do público para um problema (Santos, 1992, p.100).
A noção de que os meios de comunicação de massas exercem uma influência considerável sobre a população foi reforçada por Sandra Ball-Rokeach e Melvin De Fleur, em 1976, quando estes autores propuseram o modelo da dependência dos efeitos dos meios de comunicação de massa.
Muito sucintamente, esta teoria parte da premissa de que nas sociedades modernas, os indivíduos dependem da comunicação social para obter informações e explicações sobre o que sucede na sociedade. Quanto mais a sociedade estiver sujeita à instabilidade, mudança e conflito, maior será esse grau de dependência. A dependência será ainda mais intensa se os meios de comunicação de massas forem a única fonte de informação disponível. Como descreve Santos, Ball-Rokeach e De Fleur identificaram três tipos de efeitos produzidos pelos media: cognitivos, afectivos e comportamentais. Como se trata de um modelo interactivo, cada um destes efeitos está relacionado com os restantes (Santos, 1992, p.101 a 104).
Os efeitos cognitivos - que são os que nos interessa aprofundar e, por isso, os únicos que iremos desenvolver - estão relacionados com a percepção da mensagem e podem ser considerados a três níveis. O nível relativo à "ambiguidade", que suscita uma grande dependência dos indivíduos perante as informações dos meios de comunicação e se verifica
quando existem informações insuficientes ou conflituosas sobre um acontecimento importante ou na ocorrência de acontecimentos inesperados e dramáticos; o nível que respeita aos "valores sociais" em relação aos quais os meios de comunicação exercem alguma influência e, finalmente, o nível que respeita à "formação de atitudes" (Santos, 1992, p.102).
Relativamente aos valores sociais, estes constituem um grupo de crenças fundamentais de uma sociedade que os meios de comunicação de massas raramente conseguem alterar, actuando sozinhos. Porém, dentro da estrutura social, a informação veiculada pela comunicação social poderá conseguir provocar alterações, se introduzir valores novos que chocam com os já estabelecidos. A apresentação destes novos valores dever-se-á à sociedade, mas terão sido os meios de comunicação de massas que difundiram informações que permitiram a sua implementação. Nesta medida, a percepção do mundo poderá resultar dos efeitos cognitivos exercidos pelos meios de comunicação junto dos actores sociais. Quanto à “formação de atitudes”, está em causa o facto dos indivíduos dependerem dos meios de comunicação de massas para saber o que pensar sobre novos problemas e personalidades públicas, já que, nestes casos, a comunicação social poderá fornecer informações essenciais para que as pessoas façam juízos sobre eles (Santos, 1992, p.104).
A este propósito, os autores da premissa inicial do agenda –setting, mais de vinte anos depois de terem avançado com a primeira hipótese, ao efectuarem um balanço da evolução do seu paradigma, chegaram a uma conclusão decisiva, como refere e cita Nelson Traquina: “o agenda-setting é consideravelmente mais que a clássica asserção que as notícias nos dizem sobre o que pensar. As notícias também nos dizem como pensar nisso. (...) O clássico somatório de Bernard Cohen do agenda-setting – os media podem não nos dizer o que pensar mas são incrivelmente bem sucedidos ao dizer-nos em que pensar – foi alterado. As novas investigações que exploraram as consequências do agenda-setting sugerem que os media não só nos dizem em que pensar, mas também como pensar nisso e, consequentemente, o que pensar” (McCombs e Shaw, 1993, p.65 citado por Traquina, 1995, p.204,205).
Neste sentido, poderemos concluir que os meios de comunicação de massas noticiosos exercem uma influência notória sobre a população que resulta da sua própria natureza e organização, provocando efeitos cognitivos consideráveis nos públicos que os consomem. Na verdade, e de acordo com o próprio McCombs, “os atributos enfatizados pelo campo jornalístico podem influenciar directamente a direcção da opinião pública. Tanto a selecção das ocorrências e/ou das questões que constituirão a agenda, como a selecção dos enquadramentos (Frames) para interpretar essas ocorrências são poderes importantes que o
paradigma do agenda-setting agora identifica” (McCombs, 1992, p. 820 citado por Traquina, 1995, p.211).
Noelle-Neuman, por sua vez, assume que a maioria dos investigadores, actualmente, considera que os meios de comunicação têm um efeito decisivo na concepção que os indivíduos formam da realidade. De facto, afirma a autora, “quanto mais distantes estão as pessoas ou os acontecimentos retratados em relação aos meios de comunicação que os reportam, maior é o interesse destas na cobertura e menor é a importância das suas atitudes previamente estabelecidas” (Noelle-Neuman, 2002, p.151).
Parece-nos possível concluir, deste modo, que a forma como os indivíduos participam na sociedade, nomeadamente no espaço público mediatizado, será sempre condicionada pelo seu “conhecimento prático” mas, também, pelo conhecimento mediatizado que sobre ela vão adquirindo.