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Une nouvelle approche

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1.3 Nouvelles sources utilisant des atomes froids

1.3.3 Une nouvelle approche

Apesar de em alguns momentos neste trabalho utilizarmos indistintamente os termos jornalismo e imprensa, como uma forma reduzida de referência à expressão “jornalismo impresso”, é preciso não confundir os dois. Para compreendermos melhor essa distinção, vejamos em Rüdiger (1993:7) a seguinte definição de jornalismo:

uma prática social componente do processo de formação da chamada opinião pública; prática que, dotada de conceito histórico variável conforme o período, pode se estruturar de modo regular nos mais diversos meios de comunicação, da imprensa à televisão.

Nesse sentido, compreendemos que a imprensa ganha expressão através de uma concepção gráfica e de um meio gráfico (KOCH, P. 1993; OESTERREICHER, 2001a) de comunicação que gera a prática social do jornalismo. O jornalismo impresso lida, como vemos, com motivações sociológicas, culturais e lingüísticas para retratar a realidade. É nessa perspectiva que inserimos o nosso estudo.

Seguindo os passos dados por Rüdiger (1993), também estamos procurando compreender os conceitos, a rotina, os agentes, os suportes, a linguagem e a tecnologia do jornalismo impresso, com o propósito específico de entender a transformação histórica da tradição discursiva editorial, a partir da gênese do jornalismo impresso.

As mudanças nas tendências, nas práticas e nas estratégias do jornalismo impresso, que acompanharemos neste capítulo, ocorreram porque o modelo anterior envelheceu, surgiram outros meios de comunicação, o modo de vida das pessoas mudou e a modernidade pressionou a demarcação do espaço de atuação dos diferentes domínios sociais.

a) As tendências

Marcado por várias fases vinculadas às concepções que partem do contexto histórico, social, tecnológico e cultural, o jornalismo apresenta diferentes tendências. Autores como Sodré (1999b), Rüdiger (1993), Pessoa (2002b) e Morel e Barros (2003) as descrevem sob diversas perspectivas. Optamos aqui pela sistematização de três tendências amplas que parecem consensuais. Essa escolha tem essencialmente uma motivação estilística, em virtude das marcas lingüísticas que explicitam cada tendência.

Como as tradições discursivas apresentam especificidades de acordo com a função a que se destinam, há textos com maior e outros com menor flexibilidade para o estilo individual. Os textos literários, por exemplo, enquadram-se no primeiro grupo, já os

documentos e formulários oficiais, que seguem um modelo padronizado, estão no segundo grupo. Em um ou em outro caso, “a definição de um estilo em geral e de um estilo individual em particular requer um estudo aprofundado da natureza do enunciado e da diversidade dos gêneros do discurso” (BAKHTIN, 1992a:283).

O editorial, por exemplo, apresenta flexibilidade para o estilo individual, apesar de seguir certas orientações na sua organização retórica. No entanto, não centramos o nosso olhar no estilo adotado pelos diversos editorialistas individualmente, e sim nas tendências estilísticas gerais que influenciaram a produção do editorial em épocas distintas e que caracterizam os três estilos predominantes nas fases do jornalismo: o político-panfletário, o literário-independente e o telegráfico-informativo.

• Tendência político-panfletária– parte da concepção de que a função do jornal é essencialmente opinativa. É a fase que retrata o início do jornalismo e de uma mutação política no Brasil, em meio a um elevadíssimo analfabetismo. Os discursos eram ora áulicos e pomposos, ora pasquineiros, com injúrias e grosserias que entremeavam uma prosa extremamente clássica e beletrista. É marcada por intensas polêmicas pessoais e violência física e verbal. “Até a primeira metade do século XIX não havia preocupação por parte do editor e do leitor, com equilíbrio e imparcialidade” (AMARAL, 1996:25).

O estilo político-panfletário predominou no início da imprensa. Os discursos eram inflamados e a linguagem era usada com veemência, a exemplo dos argumentos ad hominem e ad populum definidos por Garcia (1996) e comentados na página 67 deste trabalho. Segundo Morel e Barros (2003:49):

O estilo panfletário, pasquineiro, dava a tônica, independentemente da coloração política. Por tudo isso, a imprensa da primeira metade do século XIX no Brasil privilegiava o doutrinário, o propagandístico, em detrimento do factual e descritivo.

Os dois exemplos abaixo exemplificam essa tendência, que apresentava uma linguagem vibrante expressa por vocativos, imperativos, repetições, interjeição, um forte subjetivismo, adjetivações e pontuação enfática.

Ex.11: Ó meus filhos, deixai de fazer-vos tão funesta guerra: cessai de lacear as entranhas da vossa Pátria, e de empregar as vossas forças em a destruir. Se a graõ custo conquistamos Liberdade, não queiramos perder por nossa imprudência, e caprixo. Atentemos para o bem geral, sacrificando no Altar da Pátria os vossos ódios, as vossas intrigas, as vossas paixões particulares, e dominados do verdadeiro Patriotismo sejamos unanimes em sustentar a Independência, a cosntituiçaõ, e ao Snr. D. Pedro 2º. (Diario de Pernambuco nº 167, 07/09/1835 – texto 15)

Ex.12: Nós vimos a esse pertido Duque de Bragança a principio fingir-se todo Brazileiro a fim de empolgar o throno do Brasil, nós lemos admirados seus manifestos patrióticos, suas Proclamações, que depontavaõ de livres para demagogicas.

(A Quotidiana Fidedigna nº 132, 07/04/1834 – texto 11)

• Tendência literário- independente – surgiu na segunda metade do século XIX, no momento em que a sociedade civil começa a se organizar em termos intelectuais e culturais e os níveis de alfabetização começam a aumentar. Tinha como parâmetro a conquista do público leitor por meio de temáticas culturais e científicas. Foi a época da conjunção entre os homens das letras e a imprensa. As notícias do exterior ainda dependiam dos vapores e das cartas. Os acontecimentos locais, como corridas de cavalos e saraus eram espalhados em folhetins, que também propagavam romances, como os de José de Alencar no Diário do Rio de Janeiro: O Guarani, em 1857, e a Viuvinha, em 1860. As crônicas também são freqüentes e sinalizam o jornalismo cultural45. Nessa fase o jornalismo

noticioso46 supera o panfletário, o que a caracteriza como transitória para a tendência telegráfico-informativa.

O fragmento abaixo ilustra bem essa tendência literária rica em detalhes descritivos, figuras de linguagem e poeticidadade, mesmo na abordagem de uma temática política. Daí a semelhança vista entre os primeiros editoriais e os ensaios literários.

Ex.13: O agricultor amanha o terreno, rega-o com | o suor de seu rosto, entrega-lhe a semente e | espera a sua fecundação. O mesmo faz o pes-|cador. Prepara sua rede; toma-lhe as malhas; | enlaça-lhe os fios, e, arremessando-a sobre o | lago dos peixes aguarda a sua colheita. São | actos successivos, é verdade; mas há sempre | um respiro, um intervallo de cessação. ||

Os partidos políticos vivem sob as mesmas | condições. (O Paiz nº 2, 04/02/1856 – texto 38)

Nesse mesmo jornal encontra-se o registro da fase de sensibilização e de mobilização com a finalidade de estimular a mudança de tendência em virtude da saturação dos combates. Percebe-se, então, a crítica dirigida à tendência anterior.

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“Aqui, porém, cabe lembrar o papel da crônica na história do jornalismo cultural brasileiro. Se a tradição

local em jornalismo literário – reportagens mais longas e interpretativas, perfis etc. – é pequena, o gosto nacional pelas crônicas, até certo ponto, sempre foi uma forma de atrair a literatura para o jornalismo, praticada por jornalistas, escritores e sobretudo por híbridos de jornalista e escritor. De Machado de Assis a Carlos Heitor Cony, passando por João do Rio, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Ivan Lessa e outros, a crônica sempre teve espaço fixo nas seções culturais de jornais e revistas brasileiros e, portanto, é uma modalidade inegável do jornalismo cultural brasileiro. (PIZA,

2003:33). A propósito, a primeira revista literária brasileira foi As Variedades ou Ensaios de Literatura (1812). Publicada na Bahia, na Tipografia de Manuel Antônio da Silva, o nº 1 compreende 30 págs. e os números 2 e 3 continham, reunidos, 67, com artigos políticos, históricos, morais, anedotas etc. (VIANNA, 1945: 9-11). 46

Verifica-se neste período a complexificação do conceito de jornalista, que deixou de ser aplicado exclusivamente ao proprietário de periódicos e passou a designar também quem confecciona a notícia (RÜDIGER, 1993).

Ex.14: Os nossos proprios | adversários, pondo de parte algumas manifestações de odio pessoal que lá uma ou outra vez | surgem em seus periódicos, revelam sem du-|vida muita tendência a repudiarem esse gênero | de combate, com impróprio de cavalleiros | que disputam o futuro; parece mesmo que se | vão envergonhando desses transbordamentos ir-|racionais, que, alem de contratarem com a | indole e caracter deste gande povo, saõ ver-|dadeiros anachronismos.

(O Paiz nº 2, 04/02/1856 – texto 38)

• Tendência telegráfico-informativa – Nesta fase o serviço telegráfico torna-se a base das seções noticiosas e a informação objetiva47, que atende às necessidades do leitor moderno, supera a opinião. Percebe-se, então, uma “despolitização” do jornal, com a redução do espaço para os artigos políticos. Os jornais passam por uma modernização tecnológica, gráfica e editorial, influenciada pelo telégrafo, pelo rádio e pela televisão, que teve início no final do século XIX e se estende até os dias atuais, com a influência da Internet. Esta fase faz ver a passagem do estilo detalhista literário para o estilo simplista, telegrafês; a passagem do jornalismo de crônica para o jornalismo de reportagem; a passagem de uma imprensa romântica para uma imprensa mercadológica; enfim, uma passagem para a funcionalidade, com a inserção do lead (resumo que inicia a notícia) e do copy-desk48 (redator encarregado de acabar com a literalice), ambos vindos dos Estados Unidos.

Pela novidade de passar as informações por telegrama, os textos passaram por adaptações para se enquadrar em um novo sistema de comunicação. Como assevera Pessoa (2002b:6), “o telégrafo impunha a necessidade de maior concisão por causa das taxas, levando muitas vezes à eliminação de opiniões e textos de natureza literária”. Esse estilo foi, aos poucos, dando corpo ao texto de notícia, com ênfase informativa, que difere do texto editorial, com ênfase opinativa. Os editoriais que seguem esta tendência são concisos, objetivos e, em muitos casos, o tópico introdutório é a opinião assumida pelo jornal, como fez o Diario de Pernambuco nº 257, de 14/09/2003 (texto 95).

Ex.15: Está certo o atual Governo da República em tirar | o proveito que lhe for possível, na conjuntura por | que passamos, a fim de estimular o Congresso | Nacional a votar agora e, não, depois, as refor-|mas estruturais do país, dentre elas a da Previdên-|cia e a Tributária.

O editorial contemporâneo, em síntese, apresenta os seguintes atributos: a topicalidade, expressão precisa de um tema cuja opinião a respeito está em formação; a condensalidade, caracterizada por uma linguagem direta, com mais afirmações que

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A noção de objetividade começou a ser incorporada a partir de meados do século XIX com a discussão dos princípios de imparcialidade e equilíbrio como fatores determinantes da ética profissional de coleta e transmissão de notícias (AMARAL, 1996:25).

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Amaral (1996:75) comenta que alguns escritores reagiram contrariamente à busca pela objetividade. Por exemplo, “Nelson Rodrigues (...) passou a considerar os copy-desk os idiotas da objetividade (...) Se o copy- desk já existisse naquele tempo – dizia – os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”.

demonstrações e com repetições reguladas; e a plasticidade, que confere flexibilidade ao caráter persuasivo do texto. Essas características denotam visíveis mudanças ao serem comparadas com o Diario de Pernambuco nº 263, de 19/11/1889 (texto 70).

Ex.16: Se alguns espiritos menos desilludidos ou | mais crentes, por ventura ainda se aninhavam fa-|gueiras e linsongeiras esperanças n’uma reacção | monarchica, que á nós, desde os primeiros passos | da revolução democrática, se nos afigurou mais | que problematica, irrealisavel por impossivel no actual momento historico; se em algum de taes | espiritos optimistas ainda restam algumas scen-|telhas dessa chamma divina chamada esperan-|ça, ultimo apego do coração humano ás terreni-|dades sempre cruciantes; que esse alguem, que | esses espiritos bonacheirões tirem a venda dos | olhos, e vejam, sem as nevoas da illusão, taes | quaes se estão passando, os precipites aconteci-|mentos que trazem agitada a alma da patria. ||

Para uma melhor compreensão dos traços característicos de cada tendência, foram dispostos no quadro abaixo alguns atributos que se referem às três tendências mencionadas.

Quadro1: Síntese das tendências do jornalismo impresso

TENDÊNCIAS CARACTERÍSTICAS

Político-panfletária

- contexto inicial da imprensa, com elevadíssimo analfabetismo; - função essencialmente opinativa;

- discurso pomposo e veemente;

- fase de polêmicas pessoais e violência física e verbal;

- linguagem marcada por vocativos, imperativos, repetições, interjeições, subjetivismo, adjetivação e pontuação enfática.

Literário- independente

- contexto de organização intelectual e aumento do nível de alfabetização;

- temáticas culturais e científicas;

- conjunção entre os homens das letras e a imprensa; - propagação de acontecimentos sociais;

- linguagem composta de detalhes, figuras e poeticidade.

Telegráfico-informativa

- contexto de modernização tecnológica; - superação da opinião pela informação objetiva;

- passagem de uma imprensa romântica para uma imprensa mercadológica;

- substituição do estilo detalhista literário pelo estilo simplista telegrafes;

- linguagem direta, com mais afirmações que demonstrações e com repetições reguladas.

Observando a sucessão desses estilos pode-se perceber que realmente a forma como as pessoas escrevem hoje os diferentes textos é fruto de uma tradição que apresenta mudanças e permanências.

b) As práticas

Na estrutura de trabalho do jornal contemporâneo, a passagem de um acontecimento para as páginas do jornal passa pelo crivo polissêmico do verbo “caber”: primeiro, se cabe no espaço a ocupar na página e segundo se cabe (no sentido de ser compatível) na ideologia do jornal, na aprovação do anunciante e na apreciação do leitor (BERGER, 2002). Esse é o

primeiro mito de neutralidade jornalística que pode ser eliminado, na medida em que recebe a influência da transição artesanal para a mercadológica.

Essa percepção crítica acerca da sujeição do jornalismo ao poder econômico e ao poder ideológico que ele também exerce, os Manuais de Redação tentam superar através das esferas normativas da prática jornalística, que compreendem: uma esfera ético-política (agindo sobre a profissão do jornalista, em sua atuação na sociedade); uma esfera dita estilística (agindo sobre o texto jornalístico); e a esfera gramatical (como norma geral da língua) (SILVA, T., 2001). Em síntese, essas esferas remetem exatamente às concepções de jornal como isento, responsável, independente, objetivo e claro. Entretanto, não dá para aceitar uma isenção total, pois a imparcialidade é uma tentativa, ao nosso ver, vã, de retirar o homem da semântica da comunicação no jornalismo (MELO, 2005). De acordo com Berger (2002), o jornal pode tomar posição implicitamente por meio da legenda de uma foto, de uma palavra que designe o acontecimento, da edição da página, entre outros.

Do seu início à prática atual, a atividade da imprensa pautou-se em diferentes concepções existentes no mundo e, evidentemente, foi influenciada por diversos aspectos ideológicos. Amaral (1997:13-19) apresenta quatro dessas concepções:

- a concepção capitalista de imprensa – corresponde à formação de empresas com os grupos de divulgação, fazendo do público um mercado, da notícia uma mercadoria e do leitor um cliente. Esta é a concepção própria do Regime norte-americano.

- a concepção política – entende que a imprensa é um meio de organização da coletividade. Está vinculada ao Regime soviético.

- a concepção instrumental – os meios de informação servem exclusivamente a uma causa, a um regime, sem qualquer iniciativa de oposição. É o tipo característico dos Regimes nazista e fascista.

- a concepção estatal – é a que determina um controle estatal para que a imprensa periódica não atinja os princípios fundamentais do Estado. Como exemplo, o Regime espanhol.

De acordo com o nosso ponto de vista sobre a história da imprensa no Brasil, verificamos que a prática do jornalismo impresso brasileiro teve como fundamento, em diferentes momentos, as quatro concepções mencionadas. A concepção política foi a inicial, a que fez despertar na imprensa artesanal o grito das lutas internas em diversas províncias, estimuladas pelos panfletos que circulavam. A concepção estatal tem grande representação na imprensa áulica, a que partia dos governos para abrandar o espírito revolucionário, preservar o status quo e divulgar os feitos governistas. A concepção instrumental serviu ao Estado Novo,

período no qual a imprensa ou comungava com os interesses do governo ou era obrigada a calar-se. Podemos dizer que a concepção capitalista é a que mantém a prática jornalística de hoje, pois as empresas de jornais buscam conservar a fidelidade dos leitores, por meio de adaptações para atender aos interesses diversos, ao pragmatismo e ao dinamismo modernos, como também reservam um grande espaço publicitário em suas páginas, ambos responsáveis pelo retorno financeiro que sustenta essas empresas.

Durante toda a existência do jornalismo impresso, desde o seu início, suscitam-se críticas e elogios de filósofos e literatos, por exemplo. Berger (2002:275) cita um fragmento do diário de Soren Kierkegaard, em 1848, que diz o seguinte:

De fato, se a imprensa diária, tal como acontece com outros grupos profissionais, tivesse de pendurar um letreiro, seus dizeres deveriam ser os seguintes: aqui homens são desmoralizados com a maior rapidez possível, na maior escala possível ao preço mais baixo possível.

Nascimento, L. (1962:16), por outro lado, menciona uma lista de definições favoráveis a respeito da imprensa. Dentre elas encontra-se o pensamento de Castro Alves:

A Imprensa é um topo. Os sacerdotes fazem dela um altar: os carrascos, um pelourinho. O Sinai e a rocha Tarpeia são gêmeos e diferem apenas em que ali tendes o profeta, aqui o algoz; dali rolam relâmpagos e verdades, daqui sangue e cabeças decepadas” (A Luz, 1866, “Introdução”).

Apesar das divergências, o que de fato define a prática da imprensa é a sua inserção num determinado espaço/tempo histórico e o seu propósito interativo por meio da “produção e recepção” de textos vários num processo dialógico entre os sujeitos históricos. Assim, é natural, como vimos, que diferentes interesses estejam em jogo nessa prática social.

Nesse caso, o jornal é mais um operador sócio-simbólico, porque tem o sentido construído a partir do momento em que os leitores acionam o seu campo mental em correlação com o ambiente cultural (MOUILLAUD, 2002a:51).

Voltando ao século XIX, a inovação tecnológica das redes de informação, com função de troca e não de uso, provocou uma mudança no sistema de circulação da mensagem com rupturas na enunciação e na organização retórica da informação. Dentre as conseqüências estão as alterações nos dois níveis de enunciação e na elaboração do texto. A origem dessa mudança está na mobilidade da unidade comunicativa efetuada nos despachos das agências de informação. Nesse caso, de acordo com Mouillaud (2002 a:58), o ato de “expedir uma informação é desviar a fala de seu destino primeiro, onde possuía um valor de uso, para enviá-la a receptores para os quais não estava destinada”.

O autor explica que, no nível da enunciação, a primeira transformação ocorre quando o discurso inicial entre os interlocutores é passado para o despacho da agência e veiculado como uma citação. A segunda ocorre quando a mensagem é passada dos emissores (agências) para receptores (clientes) sem que, com isso, assumam o papel de interlocutores da comunicação primeira. Nos dois casos, o resultado é a neutralidade desses despachos de agências, pois os comunicadores não são os enunciadores da comunicação inicial e os reais enunciadores49 não são revelados.

Além disso, o envio da mensagem pelas agências modifica também a constituição textual, na medida em que a retórica é quebrada com a fragmentação do texto em unidades breves e móveis. Em termos estilísticos, essas modificações dão origem ao estilo telegráfico, como foi comentado.

Tanto o anonimato enunciativo quanto o estilo telegráfico caracterizam os textos jornalísticos do final do século XIX. O primeiro pode ser considerado como um traço de ruptura, pois já não é uma prática utilizada nos jornais contemporâneos, cuja identificação autoral é exigida. Já o segundo permanece ditando as estratégias organizacionais dos textos.

Outra prática bastante comum no século XIX era a transcrição ou a colagem de artigos. Nascimento, L. (1962:17) menciona um caso em que houve esse tipo de ocorrência:

Quase noventa anos atrás, sentenciava a República, do Rio de Janeiro, em artigo transcrito pelo O Diario Liberal, do Recife, na sua edição de 19-5-1872:

“O mister da Imprensa pode ser sacerdócio ou mercancia, conforme for um homem de bem ou um bandido aquêle que exercer a nobilíssima profissão”.

Em geral essa transposição de textos ocorria com o artigo de fundo, designação correspondente ao editorial. A ocorrência nesse texto deve-se a sua essência opinativa, o que desencadeava os debates entre jornais e a colagem de fragmentos ou de textos na íntegra como um recurso argumentativo. É possível que essa tenha sido uma prática utilizada para que, indiretamente, um jornal pudesse expor a sua posição diante de um acontecimento fazendo uso da voz de outro jornal. Essa colagem de textos da forma que ocorreu, se não for inexistente, é uma prática de rara freqüência hoje e isso representa mais um traço de mudança

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