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- NOUVEAUX CONSOMMATEURS DU RHÔNE

en date du 27/28 juillet 2020

- NOUVEAUX CONSOMMATEURS DU RHÔNE

Figura 4 - Uma menina escrevendo 1860-1880/Henriette Browne (1829-1901, França) Fonte: www.peregrinacultural.wordpress.com

Freyre abre a discussão do segundo capítulo de SM ao apresentar os antagonismos da nova paisagem social de fins do séc.XIX entre o engenho e a praça, a casa e a rua. É nesta paisagem que ele começa a falar da menina e escolhe como cenário a casa, o lar, o espaço do privado e da difícil intimidade. Seu relato é marcado pelas questões de gênero quando apresenta uma menina que parece entediada com os papagaios no sobrado a dizer-lhe ―meu bem, meu amor‖ devido à falta ―de voz grossa do homem que lhe acariciasse os ouvidos‖ ou ocupada com os afagos do saguim ou do macaco na falta ―de mãos fortes de varão que agradassem as suas.‖ (FREYRE, 2002, p.750-751) Chega a sugerir, como já o fizera anteriormente, os suspeitos cafunés afrodisíacos entre as meninas e suas mucamas. Cenário que remete à longa espera da menina pelo homem, que marcou a história da mulher em diversas sociedades.

Além do papagaio, a menina entretia-se com as roupas e os chapéus que as lojas mandavam, assunto que Freyre sempre destacou em seu discurso, e prossegue sua análise tocando em outro assunto do universo ―feminino‖ – a comida, o que faz sua análise passar da menina para o cotidiano da mulher na cozinha do sobrado, ―mulheres franzinas o dia inteiro dentro de casa, cosendo,embalando-se na rede, tomando o ponto dos doces, gritando para as mulecas, brincando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela frincha das portas...‖ (FREYRE, 2002, p.806)

O autor fala da menina quando discute as formas de convívio social e a lenta apariação da menina-moça nos bailes e teatros da sociabilidade burguesa em expansão. Do contrário, era a menina na casa, guardada dos olhos masculinos, à qual devota sua análise.

Ao contrário do menino sifilizado, surge a menina cristianizada pela primeira comunhão e trancafiada no sobrado. A menina vigiada, guardada como a menina-dos-olhos, era alvo de uma intensa normatização de sua conduta pelos discursos contidos nos manuais e códigos de comportamento, bastante apreciados e difundidos no Brasil durante o século XIX. Dentre estes, Freyre cita reiteradas vezes os almanaques e manuais de conduta, como os de J. I. Roquete, A

sociedade tem tambem a sua grammatica, o Código do Bom-Tom

(Paris, 1845), o Tratado de Educação Física dos meninos para uso

dos pais de família portugueses, de Francisco de Melo Franco (1790),

o Tratado de educação física-moral dos meninos, de Joaquim Jerônimo Serpa, publicado em Pernambuco em 1828, e As manhãs da

avó:leitura para a infância dedicada às mães de família, de Victoria

Colonna, publicado em 1877.

Estes tratados, escreve a estudiosa das relações de gênero em Portugal, Teresa Joaquim (1997) na obra Menina e Moça: A

construção social da feminilidade, discutiam que o principal objetivo

da educação na sociedade oitocentista dizia respeito aos preceitos morais para uma infância saudável. Para isso, doutrinavam sobre os novos conhecimentos da Pedagogia, Puericultura como os cuidados com a higiene infantil, os banhos frios, os modos de se embalar um bebê e até as maneiras adequadas de se castigar uma criança. Na opinião de Joaquim, os manuais e a literatura moralista do séc XIX foram responsáveis pela laicização da sociedade portuguesa que foi aos poucos afastando-se das instruções religiosas. (JOAQUIM, 1997, p.379)

Não se pode falar o mesmo no Brasil. A educação brasileira oitocentista foi bastante resistente a estes tratados, como observa Freyre a respeito de algumas de suas recomendações como por ex, vestir a criança o mais próximo possível do branco não foi uma recomendação plenamente aceita já que reinava o preto na indumentária infantil, ou ainda, proibir o açoite nas nádegas dos meninos para não ―fomentar costumes funestos‖ mas a vara de marmelo, o cipó, o galho de goiabeira, não eram dispensados na pedagogia sádica da disciplina patriarcal. (FREYRE, 2002, p.549)

Todavia, esta resistência não significava o menosprezo a estes tratados, muito pelo contrário, a sua difusão na sociedade patriarcal revela as tentativas desta sociedade em civilizar o tratamento dado às crianças e seu entendimento da infância, sobretudo em relação aos cuidados com as meninas, como mostra o articulista da Revista Popular (1859) ao condenar os mimos inúteis, a convivência das crianças da elite com os escravos domésticos, o incentivo às futilidades femininas, à

soberba e ao orgulho senhoriais. (MAUAD in DEL PRIORE, 1991, p.150)

Em relação às meninas, Joaquim mostra que o objetivo da educação nestes tratados era torná-las seres razoáveis que pudessem responder pela regeneração das classes dirigentes, e ser uma menina razoável implicava na capacidade de regulação do tempo, de obediência, de responder pelos seus atos e de construir uma boa reputação. (JOAQUIM, 1997 p.291, 292)

No Brasil, as meninas estavam longe de ser ao menos razoáveis, o ideal de mulher delicada e cuidadosa estava longe de ser realidade no ambiente da casa-grande descrito por Freyre e pela maioria dos viajantes europeus82. Imperiosa era a necessidade de transformar as matronas sedentárias83, moles e analfabetas, as baronesas e viscondessas que fumavam como caiporas e cuspiam no chão, em honradas senhoras da sociedade brasileira, em meninas-moça que interiorizassem o dispositivo da regulação.

O tema da menina educada ocupa grande parte de sua discussão sobre o fim da infância da menina e sua formação de menina-moça. Freyre concentra a análise da educação da menina da elite patriarcal apoiado no princípio das desigualdades e diferenças entre os sexos. E o faz contextualizando seu discurso no interior da formação social patriarcal, buscando correlacionar ―as relações que os enunciados mantêm entre si e com acontecimentos técnicos, políticos, sociais e como as verdades, os sujeitos, os objetos são construídos por meio da produção e circulação de discursos‖, como ensina Foucault (2003). Para Freyre, era próprio do regime patriarcal assentar as diferenças entre os

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A exceção do professor português Santos Vilhena que, em sua obra A Bahia no séc. XVIII, retratou positivamente as jovens senhoras não poupando-lhes elogios, reconhecendo nelas o caráter de mulher honesta e virtuosa, inclusive das que se prostituíam por não terem condições de se sustentar. Mulheres ―meigas e chulas‖, que sabem ser ―amigas de suas amigas‖ e valorizam o bom gosto nos trajes. (MATTOSO in NOVAIS e ALENCASTRO, 1997, p.173- 175)

83 A tese de que a mulher da casa-grande era sedentária foi refutada por vários estudos

históricos, dentre eles a obra de Maria Odila L. da S. Dias (1984) e de Jurandir Freire Costa(1999, p.83-110) sobre os afazeres domésticos destas mulheres no gerenciamento da casa-grande, com até 12 quartos e uma média de 15 moradores, como parte dos cuidados para com o patrimônio doméstico do homem, mas aponta que no discurso médico estes afazeres não eram considerados atividades produtivas e nem sequer entendidos como atividades que pudessem combater o sedentarismo. Autora também contrária à imagem do amolengamento das mulheres submissas, recatadas e reclusas, retratadas por Freyre, Priore destaca o papel das mulheres como administradoras e gestoras da vida privada e interpreta a função social da maternidade como a revanche dessas mulheres contra a misoginia da sociedade colonial. (DEL PRIORE, 1995, p.46)

sexos, ―ele, o sexo forte, ela o sexo frágil; ele o sexo nobre, ela, o belo.‖ (FREYRE, 2002, p.805)

Retomando a máxima de Beauvoir de que não se nasce mulher mas torna-se mulher, sigo as pistas discursivas de Gilberto Freyre para entender como a menina-moça torna-se mulher. Começo pelo seu quarto, local secreto da menina da elite patriarcal84, encontro as primeiras pistas selecionadas pelo autor para orientar suas representações. Localizado estrategicamente no centro da casa, Freyre considerava-o ―mais uma prisão que aposento de gente livre. Espécie de quarto de doente grave que precisasse da vigília de todos.‖ Lugar da clausura, do fechamento, do privado. Conservar as meninas nesta clausura era conservar a sua pureza, como se o quarto fosse o invólucro de seu corpo. Nas palavras do autor, a casa era o lugar onde guardar mulheres e valores. (FREYRE, 2002, p.442, 858)

No entender de Teresa Joaquim, o corpo da menina é como um espaço aberto, desprotegido, que é necessário proteger, fechar, controlar, e neste sentido o quarto representa a materialidade deste discurso da

84 Saliento que Freyre trata da menina da elite patriarcal uma vez que foi na casa-grande e no

sobrado que se verificou uma lenta e tímida construção da privacidade doméstica a partir de fins do XVIII e início do XIX, com as salas de jantar e os quartos de dormir, ainda que estes últimos fossem comunicáveis em seu interior. As demais crianças sequer teriam seu próprio quarto.Segundo relatos de estrangeiros, como R. E. Edgecumbe em 1886, ―uma criança brasileira é pior que mosquito tonto. As casas brasileiras não tem quarto para elas e como se considera cruel pôr as queridinhas na cama durante o dia, tem-se o prazer de sua companhia sem intervalos.‖ Sente-se a ironia nesta passagem pelos termos ―queridinhas‖ e o ―prazer de sua companhia‖num claro tom de reprovação por estarem as crianças misturadas com os adultos a maior parte de seu tempo. Esta passagem também é uma boa demonstração da ausência da vida privada e da intimidade na família brasileira, conforme analisa Leila Mezan Algranti (ALGRANTI in NOVAIS e DEL PRIORE, 1997, p.83-154) Em outra passagem, Edgecumbe explicita sua crítica a respeito do tratamento das crianças no Brasil: ―No Brasil, não existem crianças no sentido inglês. A menor menina usa colares e pulseiras e meninos de 8 anos fumam cigarros.‖(LEITE, 1997, p.39) Sobre as meninas pobres, encontro poucos relatos de Freyre na obra Ordem e Progresso, quando trata das brincadeiras e das memórias de menina-moça:―Josefa Maria da Luz, analfabeta, nascida em 1880 no interior da Província de Pernambuco, depõe ter brincado apenas, quando menina rústica ou criança matuta, com boneca e dentro de casa, desde que sua mãe, ainda que pobre, a prendia muito. Dentro dessa meninice, assim caseira e presa, seu grande desejo foi tornar-se um dia ―costureira chique‖. Mocinha, porém, foi-lhe permitindo dançar côco e cantar modinha. Lembra-se bem da modinha Quero casar com a mulher do meu amor. Dançar côco e cantar modinha foram a sua maior alegria de moça – ligada, é claro, à alegria de amar e ser amada(...)Experiência semelhante é que nos transmite a também analfabeta e mulher de cor Francisca Gomes da Silva, nascida em 1875 em Pernambuco(...)Esta não brincou apenas com boneca e dentro de casa mas também no quintal de ―peia quente, de esconder e de La condessa‖. Como Josefa, seu desejo de menina foi ser um dia, quando mulher feita, costureira: ―mas meu pai morreu e eu tive de ajudar minha mãe, acabando sendo lavadeira.‖ Sua mais agradável experiência de menina-môça pobre foi também a que lhe veio à sensibilidade de adolescente, em fase de amar e ser amada.‖ (FREYRE, 2002, p. 109-110)

proteção, dos interditos. Perceber a clausura do corpo feminino é perceber ―como os corpos das meninas e das mulheres são vistos, olhados, manipulados, imaginados de modo diferente consoante as classes sociais a que pertencem‖ e, é claro, consoante as relações de gênero. (JOAQUIM, 1997, p.46)

Mas o quarto também é a possibilidade da menina adentrar no mundo dos sonhos, dos devaneios, dos romances proibidos, lugar da leitura e do silêncio, do recato e do mistério. A postura corporal da menina, fechada em seu mundo privado, é a mesma que se espera da mulher honesta, recatada, que sabe baixar seus olhos ao chão ―quando forem pela rua e se ensinem a não tomar brio de se ver e ser vistas.(...) É a própria postura corporal que a rapariga deve interiorizar que implica não ver, não falar, não desejar ser vista‖ que resulta nesta ―aprendizagem corporal desse recato: do contacto com o exterior, do não encontro com o outro pela fala, pelo olhar, fechada em si mesma.‖ (JOAQUIM, 1997, p. 289)

Fechada em seu quarto, como uma boneca viva a qual lhe recusam a liberdade e as potencialidades da ousadia, da curiosidade e do espírito de iniciativa ―próprios‖ do universo do menino, a menina era cercada por mulheres. Além da mãe, tias, avós, primas, amas, mucamas, professoras, todas, cada uma a seu modo, fazem as escolhas ―certas‖ para as meninas, como os livros, os jogos apropriados para seu sexo, a arte da cozinha, da costura, do cuidado da casa e do corpo. Tornar-se mulher, em primeiro lugar, é pertencer a um universo fechado, ao interior, à clausura de uma intimidade. Em segundo lugar, é dominar a graça da feminilidade circunscrita ao espaço doméstico, dos saberes e tarefas que vão desde o simples cuidado com a casa até à arte da sedução e da conquista. Em terceiro lugar, é estar pronta para exibir a graça de sua feminilidade. Era na sala de jantar que a menina-moça apresentava seus dotes e se exibia para a sociedade, revelando os novos significados que ganhavam os espaços domésticos para a nascente família burguesa e, consequentemente, os novos papéis sociais das mulheres e das meninas, bonecas vivas da burguesia em ascensão85, ou como diria Freyre, bonecas de carne do marido. (FREYRE, 2002, p.806)

Educada para as atividades manuais, a menina recebia instrução na casa-grande a partir dos sete anos de idade até os doze ou quatorze anos quando era entregue ao casamento dando início à sua vida adulta.

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A respeito da sociabilidade feminina, Algranti destaca a prática de fazer e receber visitas entre as famílias da elite colonial, costume presente na sociedade brasileira desde o séc. XVI, com maior vigor no séc. XIX.(ALGRANTI in NOVAIS e DEL PRIORE, 1997, p.116)

Os meninos, já sinhozinhos, letravam-se e diferenciavam-se pela sua condição de classe e gênero, sabiam de cor os nomes das capitais da Europa, os inimigos da alma, o latim e o francês. Quando analisa a educação das meninas em Portugal, Joaquim discute que a função de enviar as crianças à escola estava mais relacionada ao controle do comportamento infantil do que à aquisição de conhecimento, nas suas palavras (1997, p.41):

Quando Ribeiro Sanches (1699-1782) se preocupa com a educação das meninas no séc. XVIII – porque elas são ‗as primeiras educadoras do género humano‘ – estava a propor um outro modelo de sociedade(...) que para nós aparece bem exemplificado nos Tratados de Educação Fysica dos Meninos para uso da Nação Portuguesa de Francisco de Mello Franco e Francisco José d‘Almeida.

Esta passagem me permite observar que a finalidade de se educar as meninas estava voltada para um bem maior que era a educação da humanidade, cuja responsabilidade recaía sobre as mulheres, na opinião de Ribeiro Sanches. Opinião compartilhada pelos iluministas do séc. XVIII que igualmente defendiam a educação das mulheres fundamentada na natureza, a exemplo de Condorcet(1789) que afirmava que a razão das mulheres não é uma razão teórica, daí a necessidade de construir uma educação que as moldasse para a vida, para o costume, e não para a ciência. Como ironiza Joaquim, ―é porque ela produz seres humanos que ela tem dificuldade em produzir conceitos, em pensar.‖ Esta clivagem operada pelos iluministas foi responsável, na opinião de Joaquim, pelo debate ainda presente entre ―os que defendem uma definição pura e simplesmente histórica da ‗natureza feminina‘ e os que defendem uma diferença essencialista, ou de outro modo, entre cultura e natureza.‖ (JOAQUIM, 1997, p.144)

Freyre não escapou a esta polarização embora seu discurso me pareça equilibrado a este respeito. Por exemplo, ao falar sobre a educação de meninos e meninas ele chama a atenção para as diferenças sexuais na definição das identidades masculinas e femininas como resultado de sua construção social, mas em momento algum critica a sexualização desta educação, apenas sinaliza as suas vantagens e desvantagens para ambos os sexos.Como assinala Guacira Lopes Louro, ―os significados de gênero se vinculam com muitos tipos de

representações culturais e estas estabelecem termos através dos quais as relações entre homens e mulheres são organizadas e entendidas‖. (LOURO, 1995, p.207). Inclusive as formas como estas relações resultam em vantagens e desvantagens que foram facilmente naturalizadas pelo discurso patriarcal que Freyre questiona, mas não desconstrói. Em seu estudo sobre gênero e sexualidade, Louro lembra da importância que tinha no Brasil os ensinamentos do livro francês Thesouro de Meninos, de Blanchard (traduzido no Brasil em 1902), referente à educação de meninos e meninas. (LOURO, 1995, p.173) Diz o livro:

O bom pai sabe, então, que é preciso marcar essas diferenças, é preciso fazer com que cada pessoa se fabrique como homem ou mulher de acordo com o que aquela sociedade admite, aceita, valoriza. E preciso ensinar-lhes comportamentos, atitudes, saberes e gestos de tal modo que ele e ela os aprendam também com o coração, e de tal modo que, mais tarde, ele e ela continuem seu próprio processo de formação como homem e como mulher.

Exemplo de um bom pai é a discussão de Evaldo Cabral de Mello a respeito da educação das filhas em sua pesquisa sobre os diários e os livros de assento (ou livros de razão) no Brasil Imperial. Estes livros eram uma espécie de cadernos de registros e anotações do chefe da familia (note que é o pai que escreve e não a mãe) a respeito dos gastos e operações financeiras da familia como forma de controle das finanças, mas também era comum o registro dos principais acontecimentos como os casamentos, nascimentos, batizados, falecimentos, abolição de escravos etc., que revelam a importância que tais eventos passaram a ter no seio da familia burguesa. Num destes livros, Mello analisa a preocupação do barão de Goiania, João Joaquim da Cunha Rego Barros (1979-1874), escrito por seu genro e sobrinho João Alfredo Correia de Oliveira, com a educação de seus filhos e filhas. Aos primeiros, não media gastos e esforços para sua educação na Europa. Às segundas, não media sacrifícios para conseguir-lhes ―os melhores casamentos, mesmo se tivesse de adquirir um engenho para acomodar um genro.‖ (MELLO in NOVAIS e ALENCASTRO, 1997, p.398)

O livro de Blanchard é apenas um exemplo de muitos que se seguiram no Brasil referente aos manuais de comportamento a partir do

modelo de educação européia baseado nos princípios racionalistas e moralistas do séc. XIX, que definiam o que é civilizado ou não em uma cultura.

Para Foucault, estes manuais ―pretendem dar regras, avisos, conselhos, para se comportar como é preciso;textos práticos que são eles próprios objetos de prática na medida em que eram feitos para serem lidos, aprendidos, meditados, utilizados, postos à prova e visavam constituir a armadura da conduta cotidiana.‖ (FOUCAULT,1984,p.19). Armadura que a menina-moça conheceu muito bem, desde a correção de sua postura corporal até à sua pronúncia, com a correção de seus vícios de linguagem e seu modo de falar arrastado, fanhoso e mimoso demais para uma menina da elite. (FREYRE, 2002, p.830).

Também o livro A educação das filhas, escrito especialmente para a educação das princesas (e monitorado pessoalmente por D. Pedro II em seus 36 artigos), discutia desde cuidados com a higiene pessoal, alimentação, brinquedos, até valores morais como o respeito aos pais e à humanidade, a proibição de fazer o mal ao próximo e aos animais a fim de que ―seu coração não se endureça, ensina-lhe a rezar, a ouvir a missa, cozer, bordar e a tudo mais que constitua uma senhora ordinária bem prendada‖ e ainda, proibia que as meninas ―conversem com os pretos ou pretas, nem que brinquem com molequinhos e cuidarão muito especialmente que as meninas não os vejam nus‖ e que tenham pudor e vergonha até mesmo na hora de despir-se diante de suas criadas. (MAUAD in PRIORE, 1990, p.164)

Assim, uma menina educada deveria falar corretamente, ser limpa, asseada, religiosa, ter pudor e discrição. Era preciso diferenciar e afastar as meninas burguesas das molecas e evitar que se tornassem ―meninas perdidas‖.86

Bastava um passo errado para estas adoráveis meninas tornarem-se dissimuladas, perigosas. Daí a necessidade de pedagogizá-las com as leituras freqüentes destes manuais. Afinal, uma família que pretendia freqüentar a Corte não poderia ser rude e grosseira, as meninas deveriam saber comportar-se `a mesa, trajar-se e falar adequadamente. Freyre destaca o comentário do padre Lopes Gama de que as sinhazinhas não queriam mais ser assim chamadas, queriam ser reconhecidas como demoiselles, mademoiselles e madames em detrimento do agora vergonhoso e colonial tratamento de sinhazinhas87.

86 A expressão ―meninas perdidas‖, comuns nas sentenças jurídicas do início do séc.XX,

referia-se às meninas (menores de 21 anos, a maioria entre 13 e 16 anos na pesquisa de Abreu) vítimas do crime de defloramento. (ABREU in DEL PRIORE,1990, p.289-316)

87 Como confirma este relato: ―Isabel Henriqueta de Sousa e Oliveira, nascida na Bahia em

Não é por acaso que o autor continua sua narrativa falando sobre o modo como as meninas-moça passam a desenvolver certas manobras de

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