Foi através da Lei nº 11.646, publicada em 10 de julho de 2001, que a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) foi criada. Conforme o seu Estatuto, Decreto nº 43.240 de 15 de julho de 2004, a Uergs está organizada sob a forma de fundação de direito privado, multicampi, com sede e foro em Porto Alegre. A instituição, que foi criada e é mantida pelo
poder público estadual, está vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia.
Ilustração 18 – Fotos Uergs Montenegro e Porto Alegre
Fonte: Site da Uergs9
Conforme o artigo 2º do Decreto nº 43.240, a Uergs tem como objetivo
[…] ministrar o ensino de graduação, pós-graduação; e de formação tecnólogos; oferecer cursos presenciais e não presenciais; promover cursos de extensão universitária; fornecer assessoria científica e tecnológica e desenvolver a pesquisa, as ciências, as letras e as artes, enfatizando os aspectos ligados à formação humanística e à inovação, à transferência e a oferta de tecnologia, visando ao desenvolvimento regional sustentável, o aproveitamento de vocações e de estruturas culturais e produtivas locais.
Os cursos da Uergs encontram-se sediados em 24 municípios do estado, sendo distribuídas em sete regiões: 1) Alegrete, 2) Bagé, 3) Bento Gonçalves, 4) Botucaraí, 5) Cachoeira do Sul, 6) Caxias do Sul, 7) Cruz Alta, 8) Encantado, 9) Erechim, 10) Frederico Westphalen, 11) Guaíba, 12) Litoral Norte - Osório, 13) Montenegro, 14) Novo Hamburgo, 15) Porto Alegre, 16) Sananduva, 17) Santa Cruz do Sul, 18) Santana do Livramento, 19) São Borja, 20) São Francisco de Paula, 21) São Luiz Gonzaga, 22) Tapes, 23) Três Passos e 24) Vacaria.
Especificamente no âmbito de Montenegro, a instituição é sediada na Fundação Municipal de Artes de Montenegro, a Fundarte, que por meio de locação do espaço físico e de
9 À esquerda: prédio que sedia os cursos de Artes da UERGS, em Montenegro. À direita, prédio da reitoria da
118
serviços básicos, como limpeza, segurança, biblioteca, utilização do teatro, entre outros, abriga os quatro cursos da área de Artes: teatro, dança, artes visuais e música. Neste mesmo espaço em que ocorrem os cursos de graduação da Uergs, a Fundarte mantém também seus cursos de ensino básico nas mesmas quatro áreas artísticas, permitindo uma real integração entre acadêmicos da Uergs, estudantes da Fundarte, comunidade local e a TV Cultura do Vale. Ilustração 19 – Campus da Uergs no estado
Fonte: Site da Uergs
Entre os anos de 2001 a 2010, os cursos de Graduação em Artes da Uergs (Música, Dança, Artes Visuais e Teatro) eram administrados pela Fundarte por meio de concessão e convênio entre as instituições. Cabe registrar que nas primeiras turmas do curso de Graduação em Música da Uergs existiu um grupo de flautas doces composto por licenciandos da Uergs e também estudantes de flauta doce do curso básico de Música da Fundarte. O grupo que era coordenado pelas professoras Maria Cecília de Araújo Torres e Marília Stein e chamava-se Bloco de Vento.
Ainda hoje, durante todo o ano, muitos espetáculos de dança, teatro, concertos musicais e exposições são realizados pela Fundarte e disponibilizados aos estudantes da Uergs. Além disso, são realizadas parcerias entre as duas instituições para a organização de congressos e
encontros sobre temas educacionais, como o Encontro de Arte e Educação, que acontece bianualmente; a Mostra de Flauta Doce Uergs/Fundarte; programas da TV Cultura, como o Comentário de Ensino, onde professores da Uergs podem divulgar o trabalho realizado na Universidade por meio do telejornal local; exposições de artes visuais no Espaço Loide Schwambach/Fundarte; entre outras parcerias.
Por meio do Plano Político do Curso de Graduação em Música (PPC), que foi amplamente revisado entre os anos de 2016 e 2017 e que foi implementado no ingresso de 2019/1, o curso tem por objetivo formar profissionais licenciados em Música, aptos para o exercício das funções de professores nos níveis: educação infantil, anos iniciais e finais do ensino fundamental; nos cursos de ensino médio e na modalidade Educação de Jovens e Adultos. Além disso, o profissional egresso poderá atuar em espaços formais e não formais de educação e em áreas afins em que estejam previstos os conhecimentos musicais e pedagógicos. No que se refere à organização curricular do curso de Música, esta foi pensada de modo a formar um professor de música que tenha amplo conhecimento musical, pedagógico (educação musical) e um conhecimento geral de outras áreas das artes, estabelecendo as relações entre sua área principal de atuação e as demais. Entre os eixos de saberes compreendidos na matriz curricular do curso, estão: “os específicos das práticas no fazer musical; os específicos da formação pedagógica; os de história e teoria musical; os interdisciplinares; entre eles os eletivos e os complementares” (UERGS, PPC, 2019, p. 28).
Em relação à formação prático-musical, mais precisamente nas disciplinas de prática instrumental, estas foram organizadas de forma a contemplar o estudo sistemático e progressivo de três instrumentos, sendo um dos instrumentos considerado o principal, que será cursado durante oito semestres consecutivos, e dois outros (secundário e terciário) por mais quatro semestres cada um, sendo um deles harmônico e outro melódico. O aluno poderá optar pelos seguintes instrumentos: flauta doce, piano, acordeom, saxofone, violão e percussão. Ao final do quarto e oitavo semestres, o aluno deverá realizar um recital, demonstrando um pouco do que aprendeu neste período.
Em relação ao incentivo da produção de atividades extensivas ao curso de Graduação em Música, segundo o PPC do curso,
A Pró-reitoria de Extensão (PROEX) da Uergs busca articular o Ensino, a Pesquisa e a Extensão de forma indissociável, viabilizando trocas educativas, culturais e científicas com a comunidade regional onde se inserem as Unidades da Uergs. Nelas são realizados projetos, cursos, encontros e debates científicos, eventos culturais e artísticos, entre outras atividades de extensão diversas, destinadas à formação integrada dos alunos, técnico-administrativos e comunidade em geral, promovendo o
120
desenvolvimento sócio-econômico-cultural e ambiental das comunidades. (UERGS, 2019, p. 141).
Neste sentido, os projetos de extensão desenvolvidos pelo curso de Graduação em Música da Uergs são realizados de maneira gratuita à comunidade regional e contemplam atividades como: “apresentações de espetáculos, performances, intervenções musicais; mostras de trabalhos; seminários, oficinas e encontros em escolas do município com foco na educação musical dentro do contexto educacional” (UERGS, 2019, p. 141).
O projeto de ação de extensão “Concertos Didáticos para Estudantes da Escola Básica”, que é realizado através do Conjunto de Flautas Doces da Uergs, está oficialmente registrado em 2017 em sua segunda edição e conta novamente com o apoio de um bolsista remunerado através do Edital Probex/Uergs. No entanto, com exceção ao trabalho de um bolsista, a realização prática e logística do projeto é feita totalmente voluntariada, ficando sob responsabilidade de cada integrante o custeio de seus gastos com locomoção até Montenegro, refeições durante as viagens do grupo e também aquisição de materiais pedagógicos necessários para os concertos, como o xerox de partituras, produção de arranjos musicais, entre outros. Na atual crise financeira vivida pelo estado do Rio Grande do Sul, os cortes orçamentários estão cada vez maiores, resultando em poucos recursos para este tipo de produção. Diante desta situação, é como um milagre fazer um trabalho assim funcionar.
6. METODOLOGIA
O trabalho desenvolvido nesta pesquisa teve origem na minha atuação docente na Uergs, inicialmente como professora da disciplina de prática instrumental da flauta doce, no curso de Graduação em Música – Licenciatura. Desde 2014, com a atuação de estudantes da graduação e pessoas da comunidade, a criação do Conjunto de Flautas Doces da Uergs vem despertando o desejo em seus participantes de ampliar o trabalho, por meio da extensão e da pesquisa.
Assim, antes de iniciar a apresentação da metodologia de pesquisa, considero necessário ressaltar os três importantes momentos que compreenderam a sua construção. O primeiro diz respeito à formação do grupo de flautas doces da Uergs: os integrantes da primeira formação; o desejo de fazer música além da obrigatoriedade curricular e acadêmica; os momentos de ensaio e a realização dos primeiros concertos didáticos. Já o segundo está relacionado à organização da Ação de Extensão “Concertos Didáticos para Estudantes da Escola Básica”, onde o trabalho realizado pelo grupo de flautas doces ganha foco e continuidade. Nesse momento, o trabalho passa a ser registrado como atividade de extensão e ganha incentivo por meio de bolsa para dois estudantes pelo edital Probex/Uergs. Além disso, o grupo começa a escrever relatos de experiências sobre o trabalho realizado e a apresentá-los em encontros da área de educação musical. No terceiro momento é que ocorre uma mudança em meu olhar diante das narrativas destes estudantes/integrantes. Com isso, estas primeiras observações configuram- se em uma pesquisa formação, pelo viés da metodologia (auto)biográfica, mais precisamente pela corrente Histórias de vida e formação.
Procuro compreender de que forma os estudantes do curso de Licenciatura em Música significam as experiências narradas nesta pesquisa, sendo estas integrantes de sua formação profissional. Como professora formadora, acredito na potencialidade que as atividades práticas no espaço escolar têm para os acadêmicos, uma vez acompanhadas por profissionais experientes, para de fato oportunizar uma entrada segura na profissão. Acredito que, a partir do contexto apresentado nesta pesquisa, não é de um artista solista, mas de um trabalho realizado em conjunto, onde a experiência está em se apoiarem mutuamente e tocarem juntos, que os estudantes se tornam professores que dialogam, que aprendem a trabalhar coletivamente, que definem conteúdos musicais e informativos de maneira interdisciplinar, entre outros aspectos desenvolvidos ao fazerem música juntos.
122
6.1 NEGOCIAÇÃO COM OS PARTICIPANTES DA PESQUISA E CONSIDERAÇÕES