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A entrevistada Orquídea, 33 anos de idade, não lembra muita coisa da infância

“porque não foi boa”, destaca também sérios problemas afetivos com a mãe: “um amor de mãe não tive muito”, o que é complementado pela informação de que aos 12 anos de idade foi

morar com avó. Orquídea diz que se casou muito jovem, aos 15 anos, o relacionamento conjugal durou por 9 anos. Com o término da relação, permaneceu com a guarda da filha que atualmente possui 12 anos de idade, na ocasião, ela voltou a morar com a mãe e os irmãos.

A entrevistada não esconde a indignação com a condenação. Nega que tenha se dedicado ao tráfico de drogas. Em determinado dia a polícia apareceu e prenderam todos os membros da família. Orquídea disse que tentou argumentar com o delegado que apenas morava no mesmo terreno, mas não tinha envolvimento com o tráfico de drogas, ele respondeu que “tu tá junto, mora junto, tu mora dentro”, replicou que não tinha outro lugar para morar, o que não convenceu a autoridade policial:

E: então, acabou caindo nessa….

Orquídea: caindo junto, mora junto, tu mora dentro, o que o delegado disse, tu

mora, tu sabe, não quer eu saia dali, eu vou pra onde?

E: Tu chegavas a acompanhar esse teu familiar, via, ali funcionava a boca, tu sabia

que ali funcionava a boca?

Orquídea: Sim. Mas fazer o quê, dali saia o sustento. E: Era teu irmão esse familiar ou não?

Orquídea: não.

E: O dinheiro do tráfico sustentava a família? Orquídea: Era só pra sustentar a casa. E: E é essa condenação que tu tens?

Orquídea: eu tenho a Operação Salamandra. E: Sim, mas a primeira vez que foste presa? Orquídea: na primeira vez eu não fui presa.

E: na verdade, esta primeira vez que o delegado te leva foste condenada?

Orquídea: Fui condenada a 5 anos e seis meses. Fiquei 8 meses aqui e saí. Saí na

provisória. Tava puxando ela na rua agora, e veio a outra cadeia, foi quando quebraram meu braço. A BOE quebrou, eles entraram batendo em casa, me deram bastante. Quebraram meu braço, foi fratura exposta.

E: Não faz muito tempo? Orquídea: Uns três anos:

E: Depois desta primeira condenação, chegou a te envolver com o tráfico?

Orquídea: Eu tava na casa, eu via o movimento, mas o que eu vou fazer, mas chegar

a vender eu nunca vendi. Mas eu morava ali, eu vi o movimento. Não poderia ser contra. Por isso eu fui no pacote. E assim também meu primo. Nunca traficou na vida. O mal dele era não trabalhar.

A entrevistada Orquídea confirma que o dinheiro da venda das drogas sustentava a família, tinha ciência disso, porém, não participava do comércio de drogas, ela não revela quem conduzia o tráfico de drogas no ambiente familiar. Após a primeira prisão, quando

estava em liberdade, foi alvo de uma violenta ação de policiais militares, “a BOE quebrou”, referindo-se à abordagem policial onde um dos policiais militares do Batalhão de Operações Especiais quebrou o seu braço, a entrevistada mostra a cicatriz da fratura exposta e, mais uma vez, ela externa grande indignação pela prisão por tráfico de drogas e nova condenação. O caso de Orquídea é representativo do poder-saber policial, a verdade construída pela polícia responsável pelo patrulhamento ostensivo, grosso modo, sem a atribuição para investigação criminal, os policiais a partir de critérios internalizados categorizam as pessoas numa única ação policial. Como apontado pela entrevistada Orquídea, alguns familiares vendiam drogas, no entanto, apenas uma investigação policial poderia esclarecer a participação de cada membro do núcleo familiar, inclusive a conduta daqueles que não eram envolvidos com a venda de drogas.

No Gráfico 14,112 é possível notar que as ações policiais desprovidas de investigação criminal são responsáveis pela maioria das prisões, este modus operandi policial evidencia as práticas que contemplam a presença dos chamados elementos tipificadores, tais como o “movimento suspeito”, a “informação anônima” e o “local conhecido como boca de fumo”, todos eles servem de alicerce à construção social da mulher como traficante de drogas, especialmente quando não há uma robusta investigação com o objetivo de individualizar as condutas de cada integrante da família. O ritual de produção da verdade na atuação policial pode ser melhor compreendido a partir de Foucault:

Entendo por verdade o conjunto de procedimentos que permitem a cada instante e a cada um pronunciar enunciados que serão considerados verdadeiros. Não há absolutamente instância suprema. Há regiões onde esses efeitos de verdade são perfeitamente codificados, onde o procedimento pelos quais se pode chegar a enunciar as verdades são conhecidos previamente, regulados. (2015, p. 228).

Orquídea é muito sincera em dizer que presenciava o movimento de compra e venda

das drogas, porém, é categórica ao afirmar que “nunca traficou na vida”, situação idêntica a do primo que também foi preso pelos policiais militares sem nunca ter praticado qualquer conduta relacionada ao tráfico de drogas. A entrevistada Orquídea ainda demonstra esperança na modificação da sentença condenatória, aguarda o julgamento de recurso no Superior Tribunal de Justiça. Ao final da entrevista, ela faz um desabafo: “tô desesperada, tô longe da

minha filha, tava fazendo certo, nada de errado”. O término da pena de Orquídea, caso a

situação jurídica não seja modificada, está previsto para o ano de 2023, no entanto, segundo a entrevistada, existe outra condenação que não foi implantada na guia de execução penal e

pode ser inserida a qualquer instante, caso se confirme, Orquídea externa que a possível retomada do convívio com a filha será um horizonte muito mais distante.