Espera-se que o setor de construção no Brasil dobrará de tamanho entre 2009 e 2022 (FGV PROJETOS, 2010). Se as atuais práticas do setor forem mantidas, esse crescimento provavelmente exacerbará os problemas ambientais e sociais relacionados aos materiais de construção. Estratégias de mudança e inovação, portanto, são uma necessidade.
É amplamente reconhecido que a indústria da construção usa mais de 50% dos recursos naturais extraídos do planeta para produzir e manter o ambiente construído (MMA, 2019). Em virtude do crescimento esperado na população mundial e a demanda social por ambientes construídos de boa qualidade para todos, é esperado um agravamento destes problemas ambientais.
Contudo, o consumo de recursos naturais ao longo dos processos de extração dos materiais é apenas o começo da questão, dado que os impactos se estendem ao longo do ciclo de vida dos produtos utilizados no setor também. Após a extração, as matérias-primas são, em geral, processadas industrialmente, transportadas em grandes cargas, utilizadas para a construção, passam por manutenção e são demolidas, envolvendo assim impactos ambientais e sociais consideráveis, tais como uso energético, emissão de gases estufa, toxicidade humana, entre outros.
A perda e desperdício de materiais nas fases de transporte, vendas e construção são agravantes para este impacto. Segundo Matias et al (2009), os desperdícios de materiais na construção civil chegam a 8% e as perdas financeiras chegam a 30% aumentando assim os custos e volume de resíduos produzidos. Essas perdas estão relacionadas a falta de coordenação dos projetos, pelos baixos níveis de industrialização e pelas deficiências de
gestão em todo o processo, relacionando-se também à informalidade profissional muito presente no setor.
De acordo com CBIC (2017) cerca de 2 milhões de profissionais integram o mercado informal da construção civil, aspecto que afeta muitos setores da cadeia produtiva implicando em materiais e serviços de baixa qualidade, o que agrava os problemas ambientais, cria problemas sociais em relação aos direitos do trabalhador e leva à evasão fiscal. Além disso, o setor informal não é afetado por políticas públicas de produção mais limpa, fato que distancia o setor da sustentabilidade.
Outro aspecto do setor é a parte significativa dos resíduos provenientes da construção, manutenção e demolição que é descartada no sistema de lixo urbano ou em aterros ilegais, gerando custos para a sociedade e agravando problemas ambientais. No Brasil, a construção gera cerca de 25% do total de resíduos da indústria (VIVAGREEN, 2019). Sendo que ainda é uma exceção a reciclagem deste lixo, dado que, de acordo com Miranda et al em 2008 apenas 1% das empresas nacionais foram assistidas para a implantação de planos de gerenciamento destes resíduos. Os estudos de Miranda et al, desenvolvidos sobre a disposição de resíduos em obras estudo de caso apontam que cerca de 9% dos resíduos de alvenaria e concreto foram destinados à reciclagem (MIRANDA et al, 2009).
O setor de materiais e componentes de construção envolve desde atividades de extração simples (areia, brita e madeira nativa), até aplicações da indústria química. Mas madeira, materiais de cimento (concreto, argamassa), argila pesada e aço são responsáveis pela maioria dos produtos de construção. Alguns setores, como o cimento e a cerâmica, são dedicados exclusivamente à construção. Outros, como o aço, o plástico e a madeira, alocam uma parte variável de seus produtos para a construção (ABRAMAT, 2007). A figura 10 apresenta a cadeia de produção de alguns dos principais produtos da construção civil.
Figura 10 – Cadeia de produção da construção civil
Fonte: ABRAMAT, 2007.
A seleção dos materiais e componentes mais adequados para cada projeto é uma atividade complexa, pois implica avaliar os aspectos que incluem variáveis de mercado (custo, a informalidade da cadeia de produção) e aspectos técnicos que exigem conhecimentos mecânicos, químicos e físicos (propriedades mecânicas, condutividade, capacidade térmica, durabilidade na aplicação desejada, saúde no trabalho e gestão de resíduos) e aspectos ambientais (processos de extração e beneficiamento, vida útil na aplicação, perdas esperadas no processo, etc.). Dentre estes aspectos ambientais é importante ressaltar que cada material possui uma pegada hídrica e energética incorporada em seu processo, conforme comentado anteriormente.
Sendo que projetos deficientes e pouco detalhados que não selecionam os materiais e componentes mais apropriados para a situação específica, não apenas aumentam desnecessariamente o consumo de materiais usados na construção, mas têm um impacto que dura todo o ciclo de vida da edificação. A seleção de materiais pode afetar a qualidade do ar
no interior dos edifícios e implicar no maior consumo de energia utilizada para condicionamento do ar e de uso de água a longo prazo (CBSC, 2015). Deficiências no planejamento da vida útil dos edifícios e infraestrutura influenciam a necessidade de manutenção e demandam a substituição antecipada da obra, renovando, assim, com mais frequência os impactos ambientais e aumentando a geração de resíduos. Essa baixa durabilidade além de aumentar o impacto ambiental, também reduz a produtividade e elimina recursos econômicos escassos que poderiam ter outros fins.
Assim, compreende-se que o ciclo de vida dos materiais da construção civil pode ser dividido, de forma básica, em quatro fases: fase de produção, extração e fabricação, fase de construção, logística de transporte e obra, fase de uso, vida útil da edificação, e fase de disposição final, demolição e reciclagem.
2.2.3.1 Fase de produção
A fase de produção envolve os aspectos fabris dos materiais, assim, possui o seu início na extração da matéria-prima, seja através mineração de metais ou não-metais ou madeireiras, o material extraído, na maioria dos casos, é tratado e transportado para uma fábrica, onde ocorrem os processos de transformação da(s) matéria(s)-primas(s) para o produto final. Nesta etapa, em geral as principais empresas adotam as práticas de gestão ambiental padrão ISO 14000 e apresentam seus relatórios de responsabilidade social e ambiental. Em setores como cimento e aço, uma proporção significativa das empresas produz um inventário de gases de efeito estufa; alguns, como o setor de cimento, são integrados em um esforço global, com dados diretos de emissão (valores médios) que são auditados e divulgados publicamente em seus relatórios. Algumas empresas participam de programas voluntariamente, enquanto outras ainda não cumprem os aspectos mínimos da gestão ambiental e até operam sem licença ambiental (CBSC, 2015).
2.2.3.2 Fase de construção
A fase de construção é definida aqui como um adendo à fase de uso, dado que, normalmente, uma vez que o produto saiu do portão da fábrica já ocorreu o início da fase de
uso, mas devido a características que devem ser ressaltadas, foi definida uma fase distinta. Assim, a fase de construção pode ser compreendida como a etapa entre o portão da fábrica e o término da obra, tendo seu início na logística de transporte da fábrica para o revendedor e do revendedor para a obra e encerrando com o uso dos materiais na obra. Conforme comentado anteriormente, parte do consumo pesado de materiais e geração de resíduos está associada à perda de materiais nos canteiros de obras (SOUZA et al., 1998).
2.2.3.3 Fase de uso
A fase de uso, por sua vez, é definida como a vida útil da construção ou do material dentro da construção (o período que a tinta utilizada nas paredes levará para descascar, por exemplo). Ao contrário do que se imagina, que os impactos destes materiais ao longo uso são inertes, visto que estes se apresentam aparentemente inertes ao longo dos anos, o seu impacto também pode ser grande. Alguns materiais, como tinta à base de água, painéis de madeira e sistemas que usam adesivos têm a capacidade de emitir compostos orgânicos voláteis, COV’s (UEMOTO; AGOPYAN, 2006). Dependendo da natureza das substâncias voláteis, da quantidade liberada e da concentração no ambiente (que depende da ventilação), o ambiente interno do edifício pode estar contaminado e os usuários expostos a situações que representam um risco para sua saúde.
Outro possível impacto na fase de uso vem da lixiviação de materiais, alguns produtos como telhados, sistemas de revestimento de paredes e fundações, ao expostos à água, liberam produtos químicos perigosos, contaminando o solo e o lençol freático. A contaminação ambiental tem sido relatada em escala internacional (TOGERO, 2004). Outro aspecto importante para a fase de uso é a durabilidade dos materiais. Quanto maior a vida útil da construção ou dos materiais aplicados nela, menores os custos econômicos e ambientais totais, visto que há menos atividades de manutenção (que também geram resíduos) e menos material precisa ser substituído.
2.2.3.4 Fase de disposição final
É importante considerar que a fase de disposição final não envolve somente a demolição do edifício, o fluxo de materiais ao longo de todo o ciclo de vida de um edifício gera estes resíduos, desde o processo de extração e fabricação, passando pela execução das
obras, até as fases de uso, manutenção e demolição (ou desconstrução) do edifício. No Brasil, em cidades de médio e grande portes, as taxas de geração desses resíduos variam entre 400 e 700 kg/habitante/ano (OLIVEIRA; OLIVEIRA; FERREIRA, 2008). Apesar da Resolução 307/2002 do Conama, que estabelece diretrizes para a gestão de resíduos de construção, instituir a separação de resíduos por classe e obrigar municípios a ter políticas para o gerenciamento desses resíduos, apenas 9% dos resíduos de alvenaria e cimento é destinado a reciclagem (MIRANDA et al, 2009).
A construção civil requer entre 4 e 7 toneladas de material por habitante por ano (AGOPYAN; JOHN, 2009). A escala do uso de recursos na produção de materiais, considerando uma proporção do mundial de ambiente humano construído, torna o impacto ambiental grande, mesmo quando consideramos produtos com o menor impacto. Assim, para o desenvolvimento de novas estratégias de redução de impacto ambiental neste setor são necessárias formas e ferramentas para definir qual a melhor estratégia a seguir. Dentre estas, a análise do ciclo de vida é de grande utilidade para mensurar impactos e colaborar para o desenvolvimento de estratégias sustentáveis para o setor.