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A natureza de Intervenção Precoce como processo é influenciada pelos sistemas e contextos nos quais ela ocorre (Thurman, 1997).

A considerável atenção dada à importância dos aspectos físicos do ambiente e

aos seus efeitos na situação e progressos da criança (Bronfenbrenner, 1979 cit. por

Bagnato e Neisworth, 1991) faz com que os contextos de intervenção, devam ser igualmente considerados ao analisarmos as práticas em Intervenção Precoce.

Ao avaliar-se a "ecologia" da vida da criança, devem considerar-se variáveis como contextos sociais, psicológicos e físicos. A avaliação destes componentes pode ser levada a cabo, segundo Bagnato e Neisworth, (1991) através de:

- Avaliação do funcionamento familiar geral, relações entre os pais e a criança, necessidades da família, preocupações ou questões directamente relacionadas com a criança;

- Avaliação dos aspectos físicos do ambiente (domicílio ou centro) nos quais é esperado que criança a funcione e se adapte com sucesso.

Os profissionais de Intervenção Precoce trabalham numa variedade de contextos pelo que o conhecimento das características únicas de cada contexto é importante para a eficácia da intervenção. Como tal, iremos debruçar-nos sobre os contextos de intervenção onde habitualmente decorre o apoio a bebés e crianças com necessidades especiais: domicílio, creche/infantário, jardim de infância e unidade de intervenção precoce.

6.1- Apoio domiciliário

De uma forma abrangente, podemos definir a intervenção domiciliária como uma abordagem na qual os serviços de apoio são prestados em casa da criança com necessidades educativas especiais, (Bailey e Simeonsson, 1988). A frequência das visitas pode variar entre uma vez por mês a uma ou duas vezes por semana, dependendo da disponibilidade dos técnicos e das condições da criança e família. Estes serviços são

habitualmente prestados a crianças com menos de 36 meses de idade embora em casos excepcionais se possa ultrapassar este limite de idade.

Verificam-se evidências consideráveis do valor dos serviços domiciliários especialmente nos E.U.A. Um exemplo é o Projecto Portage, que foi o primeiro modelo de Intervenção Precoce, domiciliária que demonstrou a sua eficácia na prestação de serviços (Shearer e Shearer, 1972).

Bailey e Simeonsson (1988) referem que a questão colocada por Gray e Wandersman em 1980: "Serão os programas domiciliários eficazes?", deverá ser reformulada para: "Quais as características das intervenções domiciliárias que são mais eficazes nas diferentes áreas de competência, para que membros das famílias e em que contextos sociais?"

Assim o autor citado refere que o racional para o apoio domiciliário abrange três ordens de factores: características-chave do domicílio, participação das famílias no processo de intervenção e questões práticas levantadas pela implementação do programa e pela prestação de serviços.

Características-chave do domicílio

Tal como a família é actualmente vista como o centro dos serviços de Intervenção Precoce, o domicílio é visto como o centro da vida familiar (Mott, 1997). Os profissionais aos quais é dada a possibilidade de entrarem em casa das famílias têm a oportunidade de observar e participar em alguns dos momentos que ocorrem no seu círculo interno, no microssistema principal tal como é referido por Bronfenbrenner (1979). O domicílio é mais do que um espaço físico, é sobretudo um espaço social e emocional que reflecte valores, crenças, costumes e atitudes da família. Estas variáveis integram e sofrem mudanças ao longo do tempo e todas juntas proporcionam um contexto para a Intervenção Precoce tornando-se, muitas vezes, o enfoque dessas intervenções.

As características chave do espaço físico da casa incluem a sua localização na comunidade, os recursos materiais de que dispõe (mobília, brinquedos, livros), acessibilidade à comunidade, acessibilidade para pessoas com deficiências, espaço disponível, níveis de ruído, temperatura e questões relacionadas com a higiene, saúde e segurança. Cada uma destas características pode pois ter um impacto significativo na

capacidade da família para responder às necessidades específicas da criança e para beneficiar do apoio prestado pelos profissionais de Intervenção Precoce (Mott, 1997).

Para além dos aspectos físicos do ambiente familiar, as características sociais e emocionais tais como tamanho do agregado familiar, os padrões de interacção e os hábitos são também factores cruciais a considerar. Um avaliação cuidada e construtiva que tem em conta estes aspectos pode proporcionar uma maior funcionalidade na intervenção tornando-a consistente com o estilo de vida da família.

O autor citado indica aspectos logísticos que não devem ser descurados tais como a marcação das visitas domiciliárias em momentos convenientes para as famílias, a implicação de todos os prestadores de cuidados principais incluindo o pai bem como a identificação atempada de questões burocráticas, por vezes essenciais para a qualidade de vida da família.

Participação das Famílias

Segundo Bailey e Wolery (1992), o facto de os programas domiciliários disporem de curtos períodos de tempo para o contacto directo com as crianças leva a dar uma maior importância ao trabalho com os pais, no sentido de lhes fornecer linhas de orientação para a intervenção com os filhos. A este propósito, Zigler (1977), comentando a análise dos resultados de alguns programas de Intervenção Precoce referia: "(....) Sinceramente não acredito que 2 horas por semana façam alguma diferença na vida de uma criança. A verdadeira alavanca que produz estes efeitos está naquilo que o programa estimula a mãe a fazer com o seu filho".

Alguns técnicos de Intervenção Precoce encaram o tempo com os pais como uma oportunidade para lhes dar informações sobre o modo como devem ensinar ou brincar com o seu filho. Noutros modelos, existe uma perspectiva mais abrangente sendo o profissional encarado como um prestador de apoio à família que explora as necessidades e prioridades do ponto de vista familiar. Como resultado, o profissional de Intervenção Precoce pode dispor de menos tempo para a intervenção directa com a criança.

Tal como já foi referido anteriormente, é essencial no trabalho com as famílias em casa que se respeite o papel que os pais querem assumir neste processo bem como as suas tomadas de decisão.

Considerações Práticas

Segundo Bailey e Simeonsson (1988) há diversas razões práticas para a opção por um apoio domiciliário. Estes autores referem questões como a dispersão geográfica das famílias, as características de saúde dos bebés e, ainda, as condições económicas das famílias como os principais obstáculos a deslocações frequentes destas a centros de intervenção. Os autores apontam também os custos mais baixos dos apoios domiciliários como uma vantagem relativamente a apoios dados em centros, na medida em que há uma menor despesa com materiais e uma maior rentabilização de recursos humanos.

Mott(1997) indica algumas estratégias que não devem ser descuradas quando se presta apoio domiciliário: uma identificação atenta de questões relacionadas com a diversidade cultural, a utilização de técnicas de comunicação eficazes e, claro está, o enfoque na família como um todo.

Bailey e Wolery (1992) apontam algumas desvantagens que podem estar inerentes ao apoio domiciliário. Por um lado, há normalmente um acréscimo de "trabalho" para os pais que podem não querer assumir tal responsabilidade ou simplesmente não disporem do tempo necessário. No entanto podem surgir sentimentos de culpa ou ansiedade nos pais que é necessário ponderar devidamente. Por outro lado, dado que as crianças permanecem em casa, os pais são poucas vezes "libertados" das suas responsabilidades como prestadores de cuidados. Também a necessidade de interacção social com os pares pode tornar o apoio domiciliário mais restritivo. Por último, os autores referem que os profissionais de Intervenção Precoce que prestam apoio domiciliário dispendem bastante tempo nas deslocações, tempo esse que poderia ser útil para a planificação do trabalho, fazer registos ou intervir com mais crianças.

Bailey e Simeonsson (1988) levantam ainda a questão das competências necessárias a um profissional que preste apoio domiciliário. Segundo os autores, deverá ter-se em conta que o apoio domiciliário implica habitualmente uma interacção mais próxima e frequente com os pais pelo que os profissionais são frequentemente confrontados com tarefas de educação de adultos, responsabilidades de aconselhamento acrescidas e exigências de gestão, nos casos mais complexos.

6.2- Apoio em creche/jardim de infância

As creches ou infantários e os jardins de infância, são outros dos contextos onde os profissionais de Intervenção Precoce podem exercer a sua prática. A inclusão de bebés e crianças pequenas com deficiência nestes contextos prende-se com diversos factores. Em primeiro lugar, tal prática deve enquadrar-se num modelo de natureza relacional do desenvolvimento da criança Craig (1997). As relações entre os indivíduos e o meio ambiente são transaccionais, influenciando-se mutuamente num processo contínuo e dinâmico. Para crianças com deficiência, as características dos contextos pré-escolares podem afectar a forma como os défices em determinadas competências poderão ter impacto na participação destas crianças nos seus contextos naturais. Por outro lado, a inclusão desta crianças nos contextos regulares de educação põe quase sempre o problema das interacções entre pares.

É pois muito importante que os profissionais de Intervenção Precoce procurem obter um conhecimento profundo acerca dos contextos e dos cenários onde as crianças com necessidades especiais se encontram, quer no que diz respeito aos aspectos físicos quer às expectativas (por vezes negativas) que os educadores de infância têm acerca destas crianças.

Um outro aspecto a considerar é a necessidade de conhecer o ritmo e as rotinas características da sala e do grupo de crianças, procurando articular de uma forma integrada, a intervenção com a dinâmica própria dos cenários de inclusão.

A colaboração entre profissionais implicados neste processo também exige tempo para planificação conjunta, avaliação, aconselhamento e apoio aos educadores (Craig, 1997). Deste modo, para além de uma intervenção directa com as crianças com necessidades educativas especiais, o papel dos profissionais de Intervenção Precoce alarga-se á intervenção com outras crianças e ao apoio ao pessoal da instituição.

Bailey e Wolery (1992), apontam algumas exigências específicas que se relacionam com a inclusão de crianças com deficiência. Em primeiro lugar, referem as dificuldades de transporte que se torna por vezes dispendioso dado que exige equipamento especial e pessoal suplementar para acompanhar as crianças. Por outro lado, o custo da frequência de uma creche também deve ser ponderado, sobretudo se tivermos em conta que as mesmas se encontram quase exclusivamente entregues a instituições privadas. Por último, a participação das famílias no processo de avaliação/intervenção pode ser reduzida, pois a disponibilidade de tempo é menor e há

maior dificuldade em compatibilizar os horários de trabalho dos pais com os horários dos técnicos.

Os autores acima citados referem também aspectos positivos da prestação de serviços de Intervenção Precoce em contextos regulares. Para além de um acréscimo de oportunidades de interacção com as outras crianças, o facto de as crianças com deficiência participarem em actividades de grupo e integrarem as rotinas da vida diária e de jogo da sala, irá facilitar a sua transição para os contextos escolares. Por outro lado, a opção pela inclusão em contextos formais pode ser a alternativa possível no caso de ambos os pais trabalharem.

6.3- Apoio em Unidades de Intervenção Precoce

O apoio em Unidades de Intervenção Precoce tem sido alvo de algumas polémicas e parece apresentar-se em contradição com alguns dos fundamentos conceptuais que hoje em dia se defendem em Intervenção Precoce: serviços centrados na família, prestação de serviços em contextos naturais e utilização de recursos da família e da comunidade na prestação de serviços.

A existência de Unidades de Intervenção Precoce parece enquadrar-se numa perspectiva segregadora, na medida em que estes contextos apenas existem devido às diferenças e necessidades especiais que determinadas crianças apresentam.

Segundo Karabinos (1997), uma Unidade de Intervenção Precoce abrangente é um espaço especialmente equipado com profissionais especializados que trabalham com crianças com necessidades especiais. Estes especialistas geralmente incluem educadores de infância, terapeutas, psicólogos, assistentes sociais, médicos e enfermeiras. Após uma fase inicial de avaliação, em equipa, são programadas sessões individuais de intervenção com o técnico de Intervenção Precoce considerado como o mais indicado pela equipa. A participação dos pais nas sessões de intervenção destina-se sobretudo à aprendizagem de actividades desenvolvimentalmente apropriadas, posicionamento correcto, técnicas de alimentação e outras competências que possam ser utilizadas em casa.

Numa tentativa de ultrapassar o carácter segregador muitas vezes atribuído a este tipo de contextos, algumas Unidades de Intervenção Precoce procuram integrar nas suas actividades crianças com desenvolvimento normal, procurando deste modo normalizar as expectativas e possibilitar um ambiente mais integrado.

Capítulo III - Intervenção Precoce - Contributos da

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