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Como se pode ver, o Serviço Social no Brasil surge e se desenvolve a partir da realidade que o constitui, é assim que dá respostas às demandas que estão postas nessa realidade, pois “o fundamento das profissões é a realidade social, parte-se do pressuposto de que as profissões são construções históricas que somente ganham significado e inteligibilidade se analisadas no interior do movimento das sociedades nas quais se inserem” (YAZBEK, MARTINELLI, RAIHELIS, 2008: 6). Nas palavras de Netto (2006),

Os projetos profissionais também são estruturas dinâmicas, respondendo às alterações no sistema de necessidades sociais sobre o qual a profissão opera, às transformações econômicas, históricas e culturais, ao desenvolvimento teórico e prático da própria profissão, e ademais, às mudanças na composição social do corpo profissional.

Por tudo isso, os projetos profissionais igualmente se renovam, se modificam (144).

O percurso histórico da profissão, redimensionando sua inserção na sociedade brasileira, que a constitui e modifica, evidencia processos dos quais resultam novas aproximações, tanto teóricas quanto práticas. “O serviço social brasileiro é uma construção histórica e coletiva da categoria profissional” (Ibid.) é “uma profissão, histórica, instituinte, uma verdadeira construção social, uma vez que a profissão se transforma ao se transformarem as condições em que se dá o seu engendramento histórico” (MARTINELLI, 2009: 150).

Na medida em que se procura olhar para a profissão e fazer essa inter- relação necessária com o momento atual,

É necessário romper com uma visão endógena, focalista, uma visão

“de dentro” do Serviço Social, prisioneira em seus muros internos.

Alargar os horizontes, olhar para mais longe, para o movimento das classes sociais, e do Estado em suas relações com a sociedade; não para perder ou diluir as particularidades profissionais, mas ao contrário, para iluminá-las com maior nitidez (...) para que se possa captar as novas mediações e requalificar o fazer profissional, identificando suas particularidades e descobrir alternativas de ação. (IAMAMOTO, 2007: 20)

Sonia Batista, assistente social do Cras de Parelheiros, tentando fazer esse processo, no seu exercício profissional, de olhar para mais longe, de entender os movimentos dos sujeitos com os quais trabalha assinala:

Eu acho que eu tenho tentado trabalhar de uma forma diferenciada na medida em que a gente está lá no território, estando lá você já tem uma outra visão (...) é um tempo curto mas que me trouxe tanta coisa boa, tanta informação, tanta que quem sabe, vai abrindo sua mente, vai trazendo outras opções, vai traçando outros trabalhos (...) trabalhar no território é você conhecer aquele território, ficar lá o período todo, saber o que está acontecendo, articular com os outros setores que você tem ali na região, é fazer esse trabalho. (depoimento colhido em junho de 2011)

O desafio está em ver esses novos contextos, essas novas realidades e entendê-las de tal forma que se possa “decifrar a realidade e construir

propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emergentes no cotidiano” (IAMAMOTO, 2007: 20).

Os assistentes sociais, ao aproveitar essas demandas e fazê-las propostas de atuação, como pontos de início para o trabalho com as pessoas e comunidades, podem ultrapassar os requerimentos imediatos e burocráticos que o mesmo mercado de trabalho demanda do profissional, assim, quanto à resposta pontual para uma problemática particular, sem sequer aprofundar-se na mesma.

É estabelecer saídas em conjunto com os sujeitos políticos, criando processos e dando continuidade aos mesmos para “ir além das rotinas institucionais e buscar apreender o movimento da realidade para detectar tendências e possibilidades nela presentes passíveis de serem impulsionadas pelo profissional” (Ibid.), porque nessa mesma realidade é que o profissional pode aprender a mobilizar-se, partindo dela é que poderá saber os alcances e limites da sua ação “as possibilidades estão dadas na realidade, mas não são automaticamente transformadas em alternativas profissionais. Cabe aos profissionais apropriarem se dessas possibilidades e, como sujeitos, desenvolvê-las transformando as em projetos e frente de trabalho” (Ibid.). Sonia Batista, uma das técnicas do Cras, o vê da seguinte forma:

Você precisa conhecer para poder propor, para poder dar algumas coordenadas para essas pessoas, então eu acho que o primeiro passo para um trabalho nosso é extremamente esse, você ir, mas desprovida dos seus preconceitos, das suas visões, das suas coisas, porque é lá que você vai criar vínculos e tentar fazer alguma coisa.

(depoimento colhido em junho de 2011)

O aprimoramento da nossa prática profissional, que tem passado por diferentes momentos, mas sempre nesse caminho de procurar um melhor atendimento, de efetivar direitos, de contextualizar os sujeitos e as problemáticas nas quais estão imersos, de construir referências interpretativas da realidade, são tarefas do dia a dia do assistente social, sobre as quais reflete e tenta superar esquemas de assistencialismo e de imediatismo que afetam a prática profissional.

A nobreza de nosso ato profissional está em acolher aquela pessoa por inteiro, em conhecer a sua história, em saber como chegou a esta situação e como é possível construir com ela formas de superação deste quadro. Se reduzirmos a nossa prática a uma resposta urgente a uma questão premente, retirarmos dela toda a sua grandeza, pois deixamos de considerar, neste sujeito, a sua dignidade humana. (MARTINELLI, 2006: 12)

A prática profissional é um espaço com múltiplas possibilidades, onde os sujeitos políticos produzem e reproduzem as suas vidas, e nós, assistentes sociais, estamos chamados a responder às demandas que se reconfiguram nos cenários, resultado dos posicionamentos desses sujeitos, dos seus questionamentos, tendo como ponto de partida a sua interpretação das situações “assim como precisamos saber ler conjunturas, precisamos saber ler também o cotidiano, pois é aí que a história se faz, aí é que nossa prática se realiza” (MARTINELLI, 2006: 15).

É nesse cotidiano que nós aprofundamos as análises, evidenciamos não só as problemáticas existentes se não também as formas de resistência que esses sujeitos no seu dia a dia vão construindo. “Apreender a dinâmica da vida social, os processos de produção e reprodução da vida social como determinantes da cultura, das lutas, dos enfrentamentos dos sujeitos com os quais trabalhamos é crucial para que não retiremos o seu protagonismo, ou os transformemos em vítimas” (Martinelli, 2011). Somo desafiados e interpelados constantemente a

Redescobrir alternativas e possibilidades para o trabalho profissional no cenário atual; traçar horizontes para a formulação de propostas que façam frente à questão social e que sejam solidárias com o modo de vida daqueles que a vivenciam, não só como vítimas, mas como sujeitos que lutam pela preservação e conquista da sua vida, da sua humanidade. Essa discussão é parte dos rumos perseguidos pelo trabalho profissional contemporâneo. (IAMAMOTO, 2007: 75)

A realidade vai, assim, condicionando a prática profissional. É um terreno onde se criam e recriam profundas questões, assim como possíveis caminhos a serem percorridos. A questão social afiança-se e manifesta-se em novas e diferentes problemáticas, situações cada vez mais complexas, sendo

difícil o desvendamento das tramas que limitam o acionar profissional “a preocupação é afirmar a profissão e as particularidades de sua intervenção em face dos novos contornos da questão social e dos novos padrões de regulação com que se defrontam as políticas sociais na contemporaneidade” (YAZBEK, MARTINELLI e RAICHELIS, 2008: 26).

As políticas desenhadas e formuladas para sujeitos específicos da

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