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NOTES ON THE CONVERSATION

Dans le document PHILIPPINES fOR (Page 30-45)

No contexto da juventude atual, tecer afirmações totalizantes é, no mínimo, arriscado ou prejudicial, para não dizer irreal ou impossível. Mas uma ideia pode ser generalizável (embora não totalizável): o cotidiano dos jovens, em geral, está permeado por tecnologias midiáticas. No entanto, vale ressaltar a necessidade de criticidade no uso de tais aparatos, mas o enfoque nesta seção versará sobre a possibilidade (ou não) de pensar uma cultura juvenil em meio a tantas influências e possibilidades advindas dos meios. Ainda neste capítulo teceremos considerações sobre usos midiáticos pelos jovens.

Verificamos anteriormente como a Cultura da Convergência (JENKINS, 2008) propicia outras formas de participação na contemporaneidade. Os meios de comunicação atuais possibilitam aos indivíduos novas noções de tempo e espaço, o que amplia suas oportunidades de compreensão e participação no mundo. Considerando a epistemologia cultural (HALL, 1997), ou seja, a relação entre cultura e a forma como os seres humanos desenvolvem seus conhecimentos, podemos afirmar que a confluência midiática, ao aumentar o número de sistemas de significação, amplia também as culturas que circundam os indivíduos, oferecendo mais opções para se identificarem (ou não), tornando a formação identitária um processo amplo e complexo. Seria incongruente, assim, pensar que os jovens estão alheios a tal processo. Ao contrário, são eles os que mais se permitem experimentar culturas e, assim, (re) formular suas identidades.

Quando o sociólogo português José Machado Pais (2003) discorre sobre Culturas Juvenis, ele aborda a pluralidade do termo, pois não considera a existência de apenas uma cultura ou de um pequeno número delas, mas entende que os paradoxos da juventude fazem emergir diversas. Para o autor, que também utiliza técnicas antropológicas, é necessário superar o exercício de “encaixar fatos empíricos em teorias pré-estabelecidas” (PAIS, 2003, p.65).

Desta maneira, Pais discorda da chamada Teoria Geracional, que considera a juventude como um período fixo de transição entre a infância/adolescência e a idade adulta. Entendendo que tal fase não é homogênea, mas varia conforme interpelações de diferentes instâncias (como família, origem e gênero; ou seja, conforme as culturas que circundam o indivíduo), o autor considera necessário entender e respeitar as “diferenças sociais que existem entre os vários grupos de jovens, em termos de expectativas, aspirações e consumos culturais” (PAIS, 2003, p. 29). Assim, a Teoria Classista, que defende a juventude enquanto dividida conforme desigualdades sociais, também é combatida pelo autor.

Pais (2003) entende que as culturas juvenis são múltiplas e complexas e, portanto, não podem ser definidas conforme termos fixos ou totalizantes. Defendendo uma articulação entre a Teoria Geracional e a Teoria Classista, ele considera aspectos das duas abordagens e compreende a distinção entre juventude e idade adulta através da utilização diferenciada que os jovens fazem do tempo. Assim, as experiências e vivências, influenciadas por este consumo de tempo particular, concede à juventude formas específicas de sociabilidade. O autor enfatiza a necessidade de discutir o cotidiano juvenil dando voz a estes indivíduos, para compreender elementos específicos que constituem a cultura de determinado grupo.

Nesta perspectiva, o autor analisa a relação entre identidade juvenil e expressividades (PAIS, 2006). Considerando o “espaço estriado” aquele cujas estruturas são caracterizadas por normas e regras pré-definidas e “espaço liso” os locais de experimentação criativa da juventude (onde destacam-se as performances), o autor discorre:

[...] nos tradicionais estatutos de passagem da adolescência para a vida adulta os jovens adaptavam-se a formas prescritivas que tornavam rígidas as modalidades de passagem de uma a outra fase da vida. Diríamos, então, que essas transições ocorriam predominantemente em espaços estriados. No entanto, entre muitos jovens, as transições encontram-se atualmente sujeitas às culturas performativas que emergem das ilhas de dissidência em que se têm constituído os cotidianos juvenis. Ou seja, as culturas juvenis são vincadamente performativas porque, na realidade, os jovens nem sempre se enquadram nas culturas prescritivas que a sociedade lhe impõe. (PAIS, 2006, p. 7).

Nos espaços lisos, portanto, ocorrem produções culturais juvenis que superam a estrutura social estabelecida e as culturas já existentes. Relacionando esta perspectiva às culturas da convergência, verificamos que as tecnologias ampliam os locais de produção dos jovens, oferecendo a eles a oportunidade de criarem elementos de constituição de suas próprias identidades. A antropóloga Margaret Mead (2006), quando diferencia as sociedades pós-figurativas, cofigurativas e pré-figurativas, nos ajuda a compreender, através dos processos de transmissão de conhecimento, este movimento de produção performativa juvenil. Conceituando as primeiras (pós- figurativas) como aquelas em que os mais velhos ensinam aos mais jovens, estas culturas são caracterizadas pelo tradicionalismo, na medida em que o conhecimento adquirido pelos adultos e anciões serve como base ou herança para ações dos mais novos. Nas sociedades cofigurativas, em que geralmente não se tem a figura dos anciões, o conhecimento é desenvolvido em pares, através de comparações práticas de condutas, que acabam por moldar comportamentos futuros. Por fim, as pré-figurativas podem ser ilustradas com a seguinte citação: “Nenhum adulto de hoje sabe do nosso mundo o que dele sabem as crianças nascidas no decorrer dos últimos vinte anos” (MEAD, 2006, p. 108). Entendidas enquanto sociedades em que os mais novos ensinam aos mais velhos, a autora defende que atualmente vivemos em tal configuração e explica de que forma as tecnologias midiáticas contribuem com esta característica social (MEAD, 2006, p. 94):

Hoje, subitamente, em razão de que todos os povos do mundo formam parte de uma rede de intercomunicação com bases eletrônicas, os jovens de todos os países compartilham um tipo de experiência que nenhum de seus parentes mais velhos teve ou terá jamais. Ao contrário, a velha geração nunca verá repetida na vida dos jovens sua própria experiência singular de mudança. Essa ruptura entre gerações é totalmente nova: é planetária e universal.

Portanto, quando Mead entende que a experiência dos mais velhos não será replicada pelos jovens, mas que estes produzirão suas próprias culturas, ela identifica na juventude a função de criar o futuro, mas um futuro pautado pelo incerto. Entendendo a “rede de intercomunicação com bases eletrônicas” como a estrutura que oportuniza aos mais novos as experiências que lhes concedem a diferenciação em relação aos indivíduos mais velhos, ela enfatiza o que entendemos ser a característica de “espaço liso” (PAIS, 2006) inerente às tecnologias, sobretudo à internet.

Mas é importante ressaltar que embora haja um predomínio do conhecimento dos jovens, que através das mídias experimentam o mundo de formas diferentes que seus ascendentes, eles não podem ser considerados precursores absolutos do futuro, pois não estão necessariamente preparados para utilizar os conhecimentos que possuem. A internet deve ser compreendida enquanto um espaço liso em potencial, mas não garantido, na medida em que suas possibilidades para produção cultural juvenil são amplas, mas a simples replicação online de sistemas de significação prescritivos confere à rede o caráter de espaço estriado com interface tecnológica. Ainda neste capítulo discutiremos este tema problematizando a noção de autossuficiência dos jovens diante das mídias.

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