Evidenciar a visibilidade histórica das canavieiras da Zona da Mata Sul de Pernambuco, nas relações de trabalho e nos distintos espaços de representação política, entre os anos de 1980 e 1988, constituiu o fio condutor da pesquisa.
Ao ressaltar as práticas femininas, inseridas dentro de um contexto de superexploração classista e eivado por relações de gênero patriarcalistas, buscou-se compreender os comportamentos das canavieiras - ações, omissões - a partir das condições socioeconômicas vivenciadas por elas. Porquanto, a pesquisa se fundamentou no levantamento das atividades exercidas diariamente pelas canavieiras não se detendo apenas na busca dos “grandes feitos” realizadas pelas trabalhadoras.
Com efeito, o trabalho buscou evidenciar as estratégias de sobrevivência das canavieiras diante do processo de pauperização dos trabalhadores empregados nas lavouras canavieiras, intensificado a partir da modernização agrícola da produção; as relações de trabalho desenvolvidas pelas trabalhadoras - jornada, remuneração, atividades, condição estatutária; as trampolinagens realizadas pelas mulheres para superar a condição de carência material, através limpeza, manutenção, confecção de um gama incrível de utensílios domésticos; as conquistas trabalhistas através das campanhas salariais e o enfrentamento das classes patronais na Justiça do Trabalho; a formação dos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais, as ações empreendidas pelo movimento a favor da valorização das mulheres e a consequente influência política das assessoras mais comprometidas com a conscientização politica das trabalhadoras, na mobilização dos movimentos de mulheres canavieiras.
Através das análises desses elementos, comprovou-se a efetiva presença e participação das canavieiras na construção dos processos históricos, afastando-as da “tradicional” visão de que as mulheres agiam com passividade frente os confrontos sociais. A despeito de haver pessoas, de ambos os sexos, menos propensos ao embate político, o trabalho realizado permitiu o reconhecimento das trajetórias de vida das canavieiras, contribuindo para a visibilidade histórica das trabalhadoras.
As pesquisas evidenciaram, através das fontes secundárias e da documentação da Federação, a participação política das trabalhadoras canavieiras nas campanhas salariais ao longo dos anos 80. Inseridas em um contexto de superexploração, as mobilizações
organizadas pelo sindicalismo rural, apesar do movimento não valorizar ou estimular a sindicalização feminina, negando-lhes inclusive a participação nas discussões políticas, eram cruciais para toda a classe trabalhadora, conjunturas para conquistar reajustes salariais e garantir a ampliação dos direitos trabalhistas.
Pouco a pouco, ao longo dos anos 80, no bojo do processo da retomada dos espaços políticos pelos movimentos sociais, os movimentos feministas e os movimentos de mulheres trabalhadoras passaram a incluir na pauta de discussões, questionamentos relativos à valorização do trabalho feminino, a valorização das mulheres nos espaços sindicai, a opressão de gênero e a exploração de classe que recaiam sob as trabalhadoras e a inclusão de direitos referentes às mulheres gestantes nas reivindicações trabalhistas apresentadas pelo sindicalismo rural.
Graças ao posicionamento político e a obstinação das assessoras sindicais, as campanhas salariais passaram a reivindicar a aprovação e o cumprimento de direitos fundamentais para as famílias canavieiras como a licença da mulher gestante, a estabilidade empregatícia após o parto, o salário família e o salário maternidade, pausas de 30 minutos para cada turno de trabalho para amamentar os filhos menores de 6 meses e a aposentadoria rural.
A organização dos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais e de mulheres canavieiras foi importante para impulsionar tanto a conscientização de classe das trabalhadoras quanto o reconhecimento da opressão de gênero vivenciada na zona canavieira, os principais objetivos dos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais.
Através das reuniões e dos encontros de mulheres trabalhadoras, as canavieiras socializavam experiências de vida, se solidarizavam umas com as outras devido aos semelhantes problemas enfrentados no ambiente do trabalho e nas relações famílias. Os eventos possibilitavam às mulheres, sobretudo, comunicar-se, expressar-se, falar sobre a condição da mulher trabalhadora rural, através do compartilhamento de histórias de vida.
As mulheres canavieiras ao propor discussões relativas às condições adversas do cotidiano, os problemas enfrentados na relação conjugal e a opressão de gênero imposta à elas tanto no ambiente do trabalho quanto no interior das famílias, assumiam um posicionamento politico diante descriminação vivenciada na Zona canavieiras.
Contudo, a exploração empreendida pelas classes patronais aos canavieiros envolvia- os por todos os âmbitos de interação social. Não bastassem as jornadas de trabalho
extenuantes, a remuneração irrisória, a violência patronal exercidas nos engenhos, usineiros e proprietários fundiários negavam-lhes o efetivo cumprimento dos direitos trabalhistas, ainda que previstos na legislação e garantidos pelos dissídios e convenções.
A pesquisa evidenciou, através dos processos trabalhistas, o recorrente desrespeito dos direitos trabalhistas pelas classes patronais. Diante do posicionamento irredutível dos empregadores, canavieiros e canavieiras recorriam à Justiça do Trabalho para obter o cumprimento dos direitos trabalhistas.
As ações trabalhistas impetradas pelas canavieiras apontaram para a conscientização das mulheres diante da legitimidade dos direitos e para o posicionamento das trabalhadoras frente aos empregadores. Entre as principais reclamações encontravam-se: o 13º salário; aviso prévio e indenização; férias; dias santos e feriados, horas extras, reposição salarial, salário por produção, pagamento dos dias de greve; salário maternidade.
A conscientização política das canavieiras, como membro legítimo das classes trabalhadoras, iniciou-se devido os condicionamentos históricos de cada sujeito social, de diferentes formas e processou-se em tempos distintos. Através do enfrentamento das classes patronais nas campanhas salariais, com a impetração de processos trabalhistas na Justiça do Trabalho, ao negar-se realizar atividades ou receber aquém do estabelecido pela legislação, por meio de ações no interior das entidades sindicais frente à intolerância de diretorias antidemocráticas, as trabalhadoras foram forjando-se, assim como os demais canavieiros, como classe social.
Ao direcionar olhar para as relações de trabalho, as condições de vida e as formas de representação política das trabalhadoras da “palha da cana”, o caráter desafiador da pesquisa, em virtude de se tratar de uma temática e recorte temporal distintos dos que vinham sendo trabalhados desde então, cedeu espaço para o anseio em compreender historicamente as trajetórias de vida e trabalhado das canavieiras.
Elevar as mulheres canavieiras à condição de sujeitos históricos e demonstrar os papéis desempenhados pelas mulheres nos distintos âmbitos de interação social foram os objetivos da pesquisa, que evidenciou ao longo do texto, a importância fundamental das trabalhadoras canavieiras na socialização dos filhos, na manutenção e conservação da casa, das roupas, dos utensílios domésticos; o assalariamento feminino nas lavouras canavieiras, bem como os enfrentamentos realizados por elas frente à exploração das classes patronais, inclusive na Justiça do Trabalho, aspectos que demonstravam a conscientização das mulheres
enquanto classe social e a gradativa inserção das canavieiras nos espaços sindicais, fruto de posicionamentos políticos de determinadas assessoras sindicais que defendiam a valorização das mulheres trabalhadoras nos sindicatos, inclusive nas direções do movimento e a organização de movimentos de mulheres trabalhadoras para que houvesse além das discussões sobre a dupla opressão que recaía sob as mulheres, a de classe e a de gênero.