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Várias vezes, durante as entrevistas, os sujeitos fizeram alusão ao mundo

gay, um ambiente onde a cultura homossexual se cria e é difundida. Autores, como

Trevisan (2000) e Antunes (2003), referem-se a esses espaços como gueto. Discordo desse termo porque gueto pode denotar significados negativos: aqueles

que são relegados aos guetos são sempre os marginalizados, os excluídos socialmente. Ao ler essa palavra, me vem à mente a idéia de subjugação, humilhação. Lembro-me sempre da Segunda Guerra Mundial e do gueto de Varsóvia, quando os judeus precisavam andar com a Estrela de Davi presa em suas roupas, num lugar visível, para mostrar que não pertenciam à raça ariana. Considero mais apropriada a concepção proposta por Nunan (2003) de que existiria uma subcultura homossexual: um fenômeno construído socialmente para auxiliar os indivíduos a lidarem com a alienação e o preconceito.

Apesar de o termo subcultura sugerir que há uma prática cultural hegemônica, ele também pode ser compreendido como um espaço de resistência à opressão que favorecere mudanças sociais. As subculturas são características de sociedades complexas onde não existe um sistema único de valores para todos. Incluem significados, códigos, linguagem, normas, valores, costumes, pontos de encontro e tradições. Para Nunan (2003), “espaços gays provêm um sentimento de comunidade, território, ordem, controle e poder, podendo ser compreendidos como lugares de resistência cultural com um enorme significado simbólico” (p. 143).

Andrade (1999) esclarece que, como muitas vezes o espaço público é negado à comunidade gay, esses espaços são muito importantes para a construção da identidade social, além de possibilitar o exercício da sexualidade e a convivência entre os pares. Dessa forma, pode-se inferir que esses locais são espaços de aprendizagem e as vivências que nele ocorrem são determinantes para a constituição da identidade homossexual desses indivíduos. A maioria dos sujeitos deste estudo cita a convivência com outros homossexuais como decisiva para o processo de assumir-se:

Ele morava duas quadras da casa dela. Aí eu fui. Aí ele me disse que ele me achou enrustido, que eu não era feliz, que eu tava preso trancado. E começou a conversar comigo. E dali em diante eu me assumi. Comecei a usar cabelo comprido, usar anel, usar brinco. Usava o que eu queria usar e não o que o pai queria que eu usasse e aí foi indo (RENATO).

Daí eu comecei a freqüentar também, mas era um povo do bem, assim. Um pessoal legal, não tinha droga, não tinha nada, como hoje em dia. Na época não tinha, a gente ficava ali conversando, tomava vários sucos, bebida alcoólica não rolava também conosco (JEAN).

Eu também conhecia outros meninos, ia à casa deles, sem nenhum contato físico no início (NEI).

Eu conheci um... eu tinha um colega que também era gay... eu já sabia, já tinha transado e tudo mas eu ainda não me admitia socialmente como gay, eu não tinha nunca... bah! Até se chegassem eu ia ficar brabo, se dissessem “tu é gay”. Eu transava, eu gostava e tudo mas se alguém chegasse e dissesse “tu é gay”, bah! Eu ficava louco! Eu não tinha nenhum referencial, eu não tinha nenhum outro amigo. Aí no internato eu conheci um menino que era gay e assumido, sabe? E daí nós começamos a conversar e tal, ficamos amigos e um dia ele me perguntou “você é gay?” e eu disse “sou!” (LAURO).

E então a Vania foi me explicando muitas coisas do mundo gay porque ela tinha bastante amigos gays (OSCAR).

Se considerarmos que a identidade homossexual é estigmatizada em nossa cultura, pertencer a um grupo que rejeita os valores heterossexuais permite a afirmação de sua individualidade e normalidade perante a sociedade que o condena (ARONSON, 1999). Entretanto é preciso ter presente:

Nesses lugares também se classifica, se define, se impõe identidade e se assusta. Não como uma agressão tão explícita, mas seguindo a mesma lógica: utilizando o desejo e um entendimento do que é ser homossexual, para ao mesmo tempo definir uma identidade e trazer o classificado para o grupo (FERRARI, 2005, p. 33).

Esse talvez seja um dos motivos pelos quais alguns sujeitos deste estudo rejeitem a idéia de conviver com o chamado mundo gay: na tentativa de encontrar um denominador comum entre os sujeitos do grupo, ele também acaba segregando. A fala de Lauro a esse respeito é significativa:

Acho que o mundo gay tem que ser o mundo de todo mundo. Se eu vou ficar criando preconceito para mim mesmo, porque que eu não vou permitir que os outros sejam preconceituosos. Se há um preconceito de ambiente gay, se eu não quero ser preconceituoso eu tenho que ter acesso livre a todos os lugares, com todas as pessoas. Trevisan (2000) acredita que a introdução da idéia de GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) permitiu a flexibilização das fronteiras e, na menor das hipóteses, uma expansão do mundo gay. Nesse conceito, o principal foi a introdução da idéia de simpatizante, coerente com o convívio pluralista das sociedades democráticas modernas, que tende a unir num mesmo espaço físico ou ideológico pessoas antes

excluídas da normalidade social. Dessa forma, um/a simpatizante pode conviver seguramente num local GLS sem se sentir agredido, desde que também esteja disposto/a a aceitar as diferenças comportamentais presentes, em clima de tolerância mútua. Para esse autor, o conceito de GLS:

Potencializou a ruptura do gueto homossexual, considerando que qualquer pessoa pode freqüentá-lo sem apresentar carteirinha comportamental determinada, o que tende a diluir o gueto, que pode abranger uma boate e um bar GLS, mas também uma loja e até mesmo um festival de cinema (p. 376).

É preciso ter presente que estabelecimentos direcionados ao público homossexual tornaram-se não apenas lugares para encontrar parceiros, mas servem a um tipo específico de socialização num contexto parcialmente livre de discriminação e preconceito (NUNAN, 2003).

Não obstante essas considerações e contrariando o que foi percebido por Nunan (2003) e por Ferrari (2005), alguns sujeitos deste estudo referem que não gostam de conviver com o chamado mundo gay:

Ah eu vejo assim porque o mundo gay é... ele não tem amizade, entendeu? É sempre fofoca, um fala mal do outro, uns querem ser melhor que os outros, sabe? Essa função que tem, eles não são unidos, se eles fossem unidos ia ser bom, mas não é (FREDDIE). Hoje em dia tu entra num grupo de homossexuais, é difícil, assim, tu achar um grupo que não tenha droga porque as drogas estão junto com eles sempre (JEAN).

Aí eu falei pra Vania, “não sei se é o que eu quero pra mim. Se o mundo gay é isso...” Ela me disse que era muito cedo, que eu recém estava entrando em contato (OSCAR).

Uma das explicações possíveis para esse fato é que a inserção na subcultura gay lhes dá maior visibilidade e esses sujeitos preferem ocultar sua identidade sexual.

No discurso dos sujeitos, também se nota a exclusão imposta às travestis e a homossexuais que se prostituem. Em cidades do Estado, é possível perceber que os espaços ocupados pelos homossexuais mais abastados diferem consideravelmente do ocupado pelos mais pobres. Os mais ricos costumam freqüentar clubes, boates,

bares onde o público GLS é bem recebido, muitos desses locais freqüentados predominantemente por heterossexuais. Aos mais pobres sobram as ruas, as praças da cidade e bares. Jean refere sua preocupação com a atitude interesseira de alguns homossexuais:

Amizade por conveniência. Se o fulano se veste bem, sabe, ele tem dinheiro, bah, ele anda de carro, esse é ótimo, né? Agora se tu já é mais retraído, assim, não tem tantas condições e tal, já se afastam assim, sabe? Te excluem, é automático isto. Talvez seja uma constatação local, aqui na cidade, pelo menos, é assim. E eu não tenho contato com gays de outras cidades.

Na visão desse sujeito, há algum tempo o mundo gay deixou de preocupar- se com o afeto, procura apenas o prazer em suas relações. Pode-se dizer, no entanto, que essa não é uma constatação que diz respeito apenas à relações homossexuais. No universo heterossexual também é perceptível uma preocupação muito maior com a satisfação sexual do que com o envolvimento amoroso.