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: Normes transitoires et finales

Com o fim do “Projeto Libras” na turma comum de Educação Infantil que tinha uma aluna com surdez, demos sequência ao nosso trabalho fazendo uso de imagens que tinham potencial para promover uma interação mais qualificada entre aquela aluna e os ouvintes da escola. Com o tempo, todos deixaram de sinalizar (Libras).

No período em que eu ensinei Libras numa turma de Educação Infantil que tinha uma aluna com surdez, constatei que a presença de uma pessoa que sabe Libras nas atividades escolares, possibilita o ensino dessa língua a todos os que se relacionam com o aluno que tem surdez, em atividades que nada se assemelhavam a aulas de Libras.

Defendi que o ensino da Libras deveria acontecer na espontaneidade das relações, durante as manifestações curiosas e inquietas de cada criança, e na resolução dos conflitos que se dão cotidianamente entre elas, durante todas as atividades escolares.

Eu e a coordenadora do Programa de Educação Inclusiva decidimos contratar tradutores e intérpretes de Libras para acompanhar todas as atividades de uma turma que tivesse um aluno com surdez. Esse profissional teria como função ensinar Libras a todos da escola, conforme as atividades propostas pelo professor comum fossem desenvolvidas.

Aquela experiência “frustrada” com a aluna que se adaptava ao implante coclear nos encorajava ainda mais a buscar alternativas acessíveis e inclusivas, que contribuíssem para que um a um dos alunos surdos da rede se desenvolvesse plenamente.

Num primeiro momento, para se candidatar à vaga de tradutor e intérprete de Libras e atuar no ensino comum, era preciso ter concluído o Ensino Médio e ter

fluência na Libras. Criamos um processo seletivo que consistia na análise de currículos, entrevistas e uma atividade prática de sinalização. Eu e a coordenadora do Programa de Educação Inclusiva conduzimos este processo em todas as suas etapas. Antes disso, contamos com o apoio e a mobilização dos trâmites administrativos e burocráticos necessários, para que essas contratações fossem possíveis. A secretária de educação da época, bem como a equipe que trabalhava mais diretamente com ela, estava sempre disposta a ouvir os nossos posicionamentos, contribuições e proposições. Estava ainda disposta a dinamizar os processos administrativos e burocráticos, a fim de que esses não comprometessem o andamento do trabalho educacional e pedagógico realizado com os alunos que têm surdez nas escolas comuns.

Resgatei em meus arquivos o primeiro comunicado desta rede que divulgou as vagas para tradutores e intérpretes de Libras.

Seleção de INTÉRPRETES DE LIBRAS

A Secretaria Municipal de Educação (SME) comunica que está recebendo currículos para seleção de INTÉRPRETES DE LIBRAS para atuarem no Programa de Educação Inclusiva, nas escolas municipais. Os currículos, que devem conter dados pessoais e experiências relativas a LIBRAS, devem ser entregues na SME, localizada a XXXXX, no período de 03 a 14 de março de 2008.

Após a análise de currículos, os candidatos selecionados serão convocados para entrevista e prova prática. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (XX) XXXX-XXXX.

Conforme estudamos os casos em nosso grupo de “formação sobre o ensino de alunos com surdez”, identificamos na rede alguns alunos que não eram considerados surdos, mas que tinham uma especificidade auditiva que os desfavorecia em ambientes pouco acessíveis, como o da escola comum, por exemplo. Nosso objetivo era tornar acessíveis os conteúdos sonoros que não estavam disponíveis a esses alunos. Diante disso, passamos a estudar todos os casos da rede que viviam situações de privação, em decorrência da especificidade auditiva que tinham, e que estava sendo desconsiderada.

Com a inserção dos tradutores e intérpretes de Libras nas escolas comuns, o nosso grupo de “formação sobre o ensino de alunos com surdez” se tornou um “grupo de estudos e práticas sobre o ensino de alunos com surdez”. Não foi possível manter nesse grupo as professoras comuns, o que considero uma grande perda.

As professoras comuns participavam do grupo no horário em que estavam em aula, portanto, seus alunos, no dia em que nos encontrávamos, eram conduzidos por uma professora substituta. Tal professora pouco conhecia as especificidades do trabalho com aquela turma, fato esse que não contribuía para que atendesse as solicitações das crianças de maneira mais apropriada. Avaliamos que os alunos ficavam muito desorganizados na ausência da professora comum.

Sem a presença do tradutor e intérprete de Libras, que participava do grupo de estudos e práticas sobre o ensino de alunos com surdez, a professora substituta não conseguia se comunicar com o aluno que tem surdez. Além disso, não conseguia compreender e intervir devidamente quando outras crianças da turma sinalizavam espontaneamente.

A professora regente da turma, como ia aprendendo Libras ao longo do ano letivo sentia-se mais confortável nas situações em que o tradutor e intérprete de Libras participava do grupo de estudos e práticas sobre o ensino de alunos com surdez.

Esta rede de ensino não conhecia o trabalho de um tradutor e intérprete de Libras no ensino comum, pois essa era a primeira experiência dessa secretaria com esse profissional. Avaliamos que era necessário acolher o tradutor e intérprete de Libras em nosso grupo, para orientá-lo e coletar informações que mobilizariam outras ações de formação e conscientização feitas com diretores, coordenadores pedagógicos e professores comuns atuantes nas escolas.

A vida nos favoreceu com a competência dos tradutores e intérpretes de Libras que passaram a compor a nossa equipe de trabalho. Empenhados, eles buscavam construir uma parceria com a professora comum da turma na qual havia um aluno com surdez. Uma construção nem sempre fácil e amistosa, pois não é habitual um professor comum compartilhar o seu ambiente de trabalho e a sua turma com outro profissional.

A professora comum estava recebendo alguém que conhecia uma língua que ela desconhecia (Libras). Algumas dessas professoras não estavam dispostas a aprender Libras, mesmo que o convívio diário com um tradutor e intérprete pudesse fazer com que elas se tornassem fluentes nessa língua ao longo do ano letivo.

Fascinadas pela Libras, as crianças no início deste trabalho, fixavam os olhos no tradutor e intérprete, uma situação que também incomodava certas professoras comuns. Nunca compreendi o porquê desse incômodo, pois olhar para o tradutor e

intérprete de Libras não impedia as crianças de ouvir o que a professora comum falava.

Alguns tradutores e intérpretes de Libras não conseguiram construir uma relação de parceria com a professora comum com a qual trabalhavam, chegando a se desligar da rede. Outros encontraram formas de driblar as indisposições diárias vividas com algumas professoras comuns, pois apreciavam o trabalho que estavam tendo a oportunidade de realizar na escola. Poucos tradutores e intérpretes de Libras conseguiram estabelecer uma relação efetivamente colaborativa e produtiva enquanto trabalhavam com uma professora comum.

Para além da sinalização feita pelo tradutor e intérprete de Libras, era preciso que as atividades realizadas com a turma toda fossem planejadas pela professora comum, de maneira que ela identificasse as singularidades da Libras e da Língua Portuguesa. Caso não identificasse tais singularidades, não teria condições de trabalhá-las com as crianças.

Eu contava com certa “curiosidade” e “disponibilidade” das professoras comuns que a meu ver, poderiam dialogar constantemente com os tradutores e intérpretes de Libras, a fim de que agregassem conhecimentos teóricos e práticos relacionados à Libras, às suas aulas.

Nem sempre isso aconteceu. Durante a assessoria, observei que os tradutores e intérpretes de Libras, conscientes de que havia muito a ser trabalhado com as crianças sobre as particularidades da Libras e da Língua Portuguesa, passaram a produzir alguns recursos com sinais da Libras e imagens, e compartilhá-los com as professoras comuns.

Comumente essas professoras entendiam que esses recursos eram exclusivos dos alunos com surdez, e que deveriam ser trabalhados pelo tradutor e intérprete de Libras. As professoras comuns “permitiam” que o tradutor e intérprete produzisse recursos didático-pedagógicos que contassem com imagens e sinais da Libras. “Permitiam” também que ele trabalhasse com esses recursos enquanto interagia com os alunos que têm surdez, mesmo que essa conduta os afastasse das atividades que estavam sendo realizadas pelos demais alunos da turma.

Foram poucas às vezes em que me deparei com a situação na qual a professora comum, espontaneamente, dialogou com o tradutor e intérprete de Libras, a fim de que juntos avaliassem a melhor maneira de inserir aqueles novos recursos nas atividades escolares, de forma que ficassem disponíveis a todos os alunos.

Algumas professoras comuns diziam: “Nós temos um momento em que a tradutora e intérprete de Libras ensina alguns sinais a todas as crianças da turma”. Tal proposta revelava que essas professoras não haviam compreendido que a aquisição da Libras se daria no dinamismo das interações entre todas as crianças, minuto a minuto.

Havia ainda algumas professoras que me questionavam sobre a existência de cursos de Libras, pois desejavam inscrever-se em algum deles. Eu me perguntava: Por que essas professoras desejam realizar um curso de Libras quando estão tendo a oportunidade de viver uma imersão nessa língua?

É certo que nem todas as pessoas contam com a destreza necessária para que se tornem fluentes na Libras. Porém, quando um professor tem um aluno com surdez na turma que está sobre a sua responsabilidade, e este professor conta com a presença integral de um profissional fluente na Libras, cabe a ele, no mínimo, tentar adquirir essa língua.

Durante os nossos encontros no grupo de estudos e práticas sobre o ensino de alunos com surdez, eu orientava os tradutores e intérpretes de Libras para que apresentassem e disponibilizassem a todos os alunos da turma, os recursos que produziam. Nos momentos em que eu me dirigia às escolas para observar as turmas que tinham alunos com surdez, verificava se as orientações construídas no grupo estavam sendo seguidas.

Os tradutores e intérpretes de Libras buscavam colaborar com as professoras comuns no sentido de inserir os sinais da Libras nos recursos didático-pedagógicos por eles utilizados. Esse profissional pesquisava sinais em dicionários, tirava cópias, os recortava, colava, fixava nas paredes e nos mobiliários da escola, numa tentativa de tornar as situações de comunicação vividas pelo aluno com surdez e pelos ouvintes mais acessíveis.

Produzir recursos didático-pedagógicos não é uma tarefa fácil nem mesmo para um professor. Ao acompanhar o trabalho comprometido de boa parte dos tradutores e intérpretes de Libras com os quais trabalhei nesta rede, percebi que eles estavam realizando uma atividade sem que tivessem uma formação adequada para tal.

Acredito que um tradutor e intérprete de Libras têm mais condições de contribuir com o professor comum na construção de recursos didático-pedagógicos que incluam a Libras, quando também é professor. Além disso, dois professores

trabalhando juntos, mesmo com atribuições distintas como era o caso, tenderiam a não hierarquizar as relações, o que poderia minimizar as indisposições e conflitos entre os mesmos.

Estudamos esse novo cenário com a equipe do Programa de Educação Inclusiva e decidimos oferecer uma formação em “Libras e surdez” aos professores efetivos dessa rede de ensino. Desse modo, ao final desse curso, teríamos profissionais disponíveis sempre que um aluno com surdez se inserisse em uma turma comum. Levamos essa proposta à Secretaria Municipal de Educação que acolheu a demanda e deu sequência aos trâmites necessários para que a formação acontecesse. Uma formação que seria feita por mim. Disponibilizarei a seguir, no quadro 2, o plano de trabalho da formação em “Libras e Surdez”.

Quadro 2

LIBRAS e pessoa com surdez - Módulo I

Língua e Linguagem (teórica) 20 h

Introdução à LIBRAS (prática) 60 h

Carga horária do módulo I 80h LIBRAS e pessoa com surdez - Módulo II

Ensino e aprendizagem da leitura e da escrita para surdos (teórica) 20h Conversação, tradução Interpretação em LIBRAS/Língua Portuguesa (prática) 60h

Carga horária do módulo II 80h LIBRAS e surdez para professores - Módulo III

Estágio Supervisionado em LIBRAS (Prática) 20h teóricas, 60h práticas - Total: 80h

Carga horária total dos três módulos 240h

Organizei o curso de formação e durante três semestres ministrei aulas noturnas aos professores efetivos da rede que manifestaram interesse em aprender Libras, nos anos de 2011 e 2012. Um trabalho difícil, que exigiu muito de mim, e que foi concluído a contento.

Nesse período em que ministrei essas aulas de Libras, sabia que em breve abriria mão de excelentes tradutoras e intérpretes de Libras com as quais vínhamos trabalhando, mas que não eram professoras. Ou melhor, apenas uma delas havia realizado o curso Normal Superior. Esperávamos que ela se concursasse e desejasse seguir trabalhando conosco. Isso não aconteceu.

A cada passo dado na construção desse trabalho do qual os alunos com surdez vêm se beneficiando, um desafio se coloca diante de mim. A alegria do encontro e o pesar pelo rompimento me acompanham. Decisões importantes a serem tomadas sem o respaldo de uma teoria que não se distanciasse dos propósitos de “uma escola para todos”.

Quando concluímos o curso de formação (gratuito) em “Libras e surdez”, destinado aos professores efetivos da rede, dispensamos as tradutoras e intérpretes de Libras, e passamos a atribuir as turmas que tinham alunos com surdez a dois professores.

Exporei abaixo um trecho do documento intitulado “Inserção do Professor, Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais/LIBRAS nas unidades escolares”, de 23 de fevereiro de 2012, retirado dos meus arquivos relacionados à assessoria prestada a esta rede municipal de ensino.

A inclusão de estudantes surdos no ensino regular prevê-se a inserção do tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais/LIBRAS e Língua Portuguesa, a fim de promover a acessibilidade comunicacional. O artigo de número 14 do decreto nº 5626/05

estabelece que as instituições de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas

surdas acesso à comunicação, à informação e à educação, nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação, desde a educação infantil até à superior.

A Secretaria Municipal de Educação de XXXX/SP, disposta a acolher todos os alunos em suas unidades escolares, e empenhada no desenvolvimento de ações educativas de qualidade, mobiliza procedimentos com o intuito de se aproximar cada vez mais das diretrizes de um ensino inclusivo por meio do Programa de Educação Inclusiva.

Ao atender as demandas cotidianamente, o trabalho realizado por este Programa, bem como o aprofundamento dos estudos realizados sobre a educação de pessoas com

surdez pela assessora atuante nesta área, revelou a necessidade de inserir profissionais que atuem como tradutores e intérpretes de LIBRAS/Língua Portuguesa nas unidades escolares, mas que também, tenham formação na área da educação, logo, sejam professores, isso porque as especificidades do contexto escolar são inúmeras.

Algumas destas singularidades referem-se ao fato de que para realizarmos um trabalho com ainda mais qualidade junto aos alunos com surdez e demais de suas turmas, faz-se

necessário que: atuemos intensamente na construção dos Projetos Político Pedagógicos de cada unidade, na elaboração dos semanários, planos de aula, definição de instrumentos e critérios de avaliação, dentre outros aspectos que envolvem a constituição humana, por meio de relações que devem ser oportunizadas em um espaço solidário, fraterno, digno, de criação de conhecimentos e de respeito à diferença. Além disso, para atuar efetivamente como tradutor e intérprete de LIBRAS/Língua Portuguesa faz-se necessário ter conhecimentos profundos e atualizados não só na composição da LIBRAS, mas também da Língua Portuguesa. Neste sentido, um profissional que não tenha

formação no campo educacional encontrará inúmeras dificuldades para atuar neste contexto, o que poderá resultar em um trabalho limitado ou até mesmo equivocado.

Tais fatores se agravam quando consideramos que o professor responsável pela sala de aula, muitas vezes, desconhece a LIBRAS, o que o impede de intervir e de orientar o tradutor e intérprete em situações inapropriadas.

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