As causas ligadas ao componente “Fator Individual” estão relacionadas a decisões pessoais que não envolvem, diretamente, questões internas da universidade ou questões sociais e econômicas da sociedade, conforme mostrado na Tabela 15.
Tabela 15 - Componente Fator Individual
Componentes Causas (1) NI (2) PI (3) AI (4) BI (5) MI Impacto Médio
Fator Individual Incerteza quanto à escolha do curso 81 32 30 22 59 2,76 Mudança de endereço/cidade 187 6 6 4 21 1,51 Problemas de saúde 187 5 12 7 13 1,46 Descobri que não
gostava de estudar 199 9 8 4 4 1,24
Casamento 202 5 8 3 6 1,24
Gravidez 219 1 0 2 2 1,07
Fonte: Elaborada pela autora com base nos dados do questionário.
A causa “incerteza quanto à escolha do curso” foi apontada por 64% dos discentes evadidos respondentes com algum grau de influência na decisão pela evasão, sendo: 26% “muita influência” e 38% entre “pouca” e “bastante influência". Além disto, essa causa atingiu o impacto médio, dentre todas as causas em todos os componentes, de 2,76, ou seja, foi a causa que mais
ocasionou impacto na decisão pela desistência em continuar o curso de graduação junto à instituição pesquisada.
Na análise do perfil dos discentes evadidos respondentes identificou-se, com relação à idade, que 41% deles se encontravam na faixa etária entre >18 e 20 anos quando desistiram do curso, como consta do Gráfico 19. A imaturidade para escolher a profissão que exercerá em seu futuro é comprovada, também, pela série que os respondentes estavam cursando quando se evadiram. Identificou-se que 46% estavam cursando o primeiro ano e 27%, o segundo ano do curso. De acordo com Bourdieu (1998), a escolha do curso feita na adolescência é fortemente passível de insucesso. O autor assevera:
[...] há que se admitir que escolhas precoces comprometem muito fortemente as oportunidades de atingir tal ou tal ramo do ensino superior e de nele triunfar. Em síntese, as cartas são jogadas muito cedo. (BOURDIEU, 1998, p. 52).
Gráfico 19 - Percentual dos evadidos respondentes por faixa etária
Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados do questionário.
Sobre a experiência de evasão na Unioeste, de acordo com os evadidos respondentes, com relação ao fato de o curso não ter sido exatamente aquele que eles gostariam de ter cursado, transcrevem-se alguns comentários redigidos por eles mesmos:
“Eu era mais novo e inocente, achava que a faculdade seria muito mais prática, muito mais interessante de se cursar, diferente do ensino médio mais difícil que ela realmente é. E se dar todo o esforço e dedicação, mesmo sabendo que no fim teria um diploma de um curso o qual eu percebi que não era algo com o que eu gostaria de trabalhar é um tanto desmotivador. Até insisti alguns anos, mas acabava
começando a faltar e deixar de lado qualquer esforço antes sequer do segundo semestre do ano” (Evadido 25).
“Desisti do curso de [...] porque não era realmente o que eu queria,
transferi [...] para a Unioeste devido ao custo financeiro mesmo não
sendo bacharel, infelizmente descobri que licenciatura não era o que eu realmente tinha afinidade” (Evadido 58).
“Parece que evasão é algo exclusivamente negativo, mas na realidade pra mim o tempo na Unioeste foi muito bom, mudei drasticamente de área e a ampla perspectiva por ter feito um curso diferente anteriormente me tornou um profissional mais completo. Pós ensino médio eu era muito novo, escolher qual seria a profissão que eu exerceria pro resto da vida era uma decisão importante demais pra tomar com 17 anos. Por mais que tive dificuldades (7 “dps” em 9 matérias no primeiro ano “hah, hah!”). O motivo maior da minha desistência foi minha autodescoberta. Boa sorte no trabalho! (Evadido 132).
“O curso realmente pretendido era o de Letras - Inglês, acontece que a instituição só tem o curso no período matutino, o que é ridículo, uma instituição pública ter um curso que privilegia pessoas dessa forma, não sei se é preguiça que os professores tenham de acordar cedo, ou algo do tipo, mas NADA justifica um curso de licenciatura, ou qualquer outro, estar somente em um período letivo, eu tenho que trabalhar durante a graduação, pois não nasci em uma família abastada, muito pelo contrário, então acabei entrando em dois cursos Ciências Biológicas e Matemática, pois mesmo com os problemas ainda quero ser professor, o problema é que nada disso é com o que eu quero trabalhar, quero poder ensinar sobre literatura, gramática e todos esses tipos de coisas, porém como não posso pagar e a única instituição existente para fazer isso de for gratuita só tem o curso no período diurno eu não tenho o que fazer, esse ano vou entrar em pedagogia, para quando me formar poder trabalhar em um período e cursar a graduação de Letras-Inglês em outro. É ridículo o caminho que eu tenho que fazer quando o filho de um pai rico pode simplesmente ir e cursar à graduação, pois tem total suporte financeiro pra isso” (Evadido 64).
“Não me arrependo de ter desistido do curso, me arrependo de não ter feito o que eu queria” (Evadido 80).
“Não era realmente o curso que eu queria. Estudei mais dois anos, em 2018 [...], mas como em todas as profissões, temos que ter vocação, para que quando inseridos no mercado profissional, possamos fazer o melhor trabalho possível, ainda mais quando se trata de cuidar de pessoas” (Evadido 99).
“Gostava muito de estudar na Unioeste! Não tenho do que reclamar (exceto pelo preço da cantina, kk). Meu abandono foi estritamente por arrependimento na escolha do curso” (Evadido 113).
“Foi a melhor coisa que eu fiz, pois não gostava do curso, nem de alguns professores irresponsáveis que lecionavam no curso” (Evadido 123).
Enfim, a causa que foi indicada pela maioria dos respondentes, e muito bem explicitada pelo evadido respondente 132, nos deixa um alerta de questionamento com relação ao modelo atual de ensino no Brasil, com relação à pressão aplicada pelas famílias e pelas escolas para que o aluno do último ano do ensino médio faça a sua opção pelo curso. Nessa fase da vida, os jovens, na grande maioria, possuem apenas 17 anos de idade. Outro agravante nessa questão, e que bem identificada foi, é que mais de 70% dos respondentes não fizeram nenhum teste vocacional, o que denota, ainda mais, a fragilidade desse momento tão significativo na vida dos jovens.
5.2.6 Classificação das causas de evasão dos discentes evadidos respondentes