15. Loop Filter
15.3. Normal Filter
dia 13 de maio do ano de 1935, no então gover- no intervencionista de Juracy Magalhães, volta- da para a educação pré-escolar, na cidade baixa, no Largo do Papagaio, em Salvador, em terre- no doado pela Baronesa de Sauípe e seguindo o modelo alemão. Iniciou com duas salas ape- nas, depois 4, duas pela manhã e duas à tarde, respeitando-se a idade dos alunos. Iniciou em uma casa comum e tempo depois sofreu gran- de reforma1 que consistiu na demolição da sede inicial para dar lugar a uma construção nova e adequada, comportando 10 salas e atendendo a uma clientela de cerca de 340 alunos2.
Jardim de Infância
Numa época em que competia ao Estado oferecer educação às crianças a partir dos 7 anos de idade, tendo a finalidade de ensiná-las a ler e escrever, Angelina criou um jardim de infân- cia e na rede pública de ensino. Sua finalidade era preparar as crianças na fase que precedia a
[...] mas, graças à transmutação dos valores, Cupido é uma criança e para uma psicóloga a sublimação veio ao seu encontro, e [...] conseguiu que para essa criança que tanto amava, construíssem, não uma escola, mas um templo: a famosa Baronesa de Sauípe, e lá, como deusa e como criança, reinou absoluta, dona e senhora do fenômeno educacional chamado pré-escolar que lá teve sede e floresceu. Leda Jesuíno,
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entrada na escola, para que despertassem o gosto e a curiosidade para a leitura e para a escrita.
Essas idéias foram defendidas em fóruns científicos, nos cur- sos e palestras ministradas e postas em prática no seu fazer peda- gógico. Também, visando difundi-las, sistematizou-as em forma de texto, como o publicado na Revista do Ensino, de Porto Alegre, no ano de 1959. Nele, define os objetivos do Jardim de Infân- cia, afirmando que ele deveria ser menos formal do que a esco- la a partir da primeira série. Por exemplo, as crianças deveriam aprender brincando e jogando espontaneamente, segundo seus próprios interesses. Lá não deveria existir espaço para a leitura e a escrita, tarefas de responsabilidade da escola primária.
A defesa da pré-escola como momento da brincadeira, vinha acompanhada de informações importantes sobre o desenvolvi- mento emocional e psicológico da criança e das conseqüências que a ruptura com essa orientação poderia acarretar, dentre elas, a repetência na primeira série. Como escreveu, o êxito da apren- dizagem da leitura e da escrita dependeria:
[...] boa coordenação motora visual e auditiva, memória e atenção bem desenvolvidos, um bom vocabulário oral, ampla e variada ex- periência, sem as quais a criança não será capaz de dominar técnicas da leitura e da escrita. Um dos problemas que mais preocupa as pessoas que lidam com assuntos educacionais é o da repetência no 1º ano, certamente, esta aprendizagem prematura há de ser uma das causas desse insucesso. (Assis, 1959, p. 62)
Pregava, quase que isoladamente na Bahia, a necessidade dos poderes públicos darem atenção a essa faixa etária3, atitude, sob
45 sua avaliação, urgente e grandiosa, considerando-se a carência em que vivia grande parte das crianças nos primeiros seis anos de vida, o que dificultava, senão impedia, o seu desenvolvimento. Dada a grandiosidade da missão, apesar de considerá-la de res- ponsabilidade dos poderes públicos, não eximia a sociedade de sua parcela de contribuição. Todos deviam somar esforços em prol da questão: pais, políticos, administradores, assistentes so- ciais, administradores e demais agentes sociais.
Sua proposta contemplava a criança de idade inferior aos sete anos, independente da raça, classe social, credo ou sexo, entre- tanto, priorizava aquelas da camada trabalhadora, por serem as mais prejudicadas pela pobreza de estímulos e oportunidades. Por isso, sua luta se dava na esfera pública, junto às autoridades constituídas e sua prática também em escola da rede do governo. A Escola Baronesa de Sauípe era considerada o melhor Jardim de Infância da cidade de Salvador e do país, inclusive referencia- da em revistas de outros estados como o Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Nos anos 50, com apenas duas salas de aula, havia grande con- corrência dos pais para conseguirem uma vaga na escola, pois além de ser considerada da mais alta qualidade, também era o início do deslocamento das mulheres para o mercado de trabalho e a escola representava, na ausência de creches, a solução para as mães.
A disputa por uma vaga ensejava insatisfações em quem não a conseguia, chegando até mesmo aos meios de comunicação de massa, como vimos anteriormente, na qualidade de uma queixa acusatória. Acusação que era prontamente rechaçada pela opinião pública, conhecedora da qualidade moral de sua diretora e do de-
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sejo dos pais de conseguirem passar pelo fino crivo do processo seletivo. Como relembra uma mãe: “[...] aquela escola era uma escola de sonho”.
Seu conceito de jardim de infância, como dissemos, rompia com o que os pais e a sociedade esperavam ver realizados com as crianças que fossem para a escola: que aprendessem a ler e a escrever. Ela argumentava contra essa proposta para crianças menores de 7 anos, idade que ela definia como da brincadeira, sem espaço para as lições formais ou a aparelhagem simbólica utilizada na escola normal.
Seu conceito de jardim de infância era compreendido e aceito por muitos pais que, com segurança, falam que seus filhos não iam para lá aprender a ler, mas ganhar gosto e vontade de fazer isso. Como confirma o depoimento seguinte:
[...] as crianças iam à escola aprender a ler e escrever, e lá não se falava de ler nem de escrever, preparava-se para que nascesse esse gosto, essa curiosidade pela leitura e conseqüentemente pelo ensino. A criança era respeitada nas suas características de crescimento, de desenvolvimento, tratadas com muito carinho, muito carinho. (De- poimento de uma mãe)
Clientela
Quando a Escola foi criada na década de 30, a Cidade Baixa, em Salvador, e seus bairros como Penha, Mont Serrat, a Penín- sula Itapagipana era habitada por famílias de alto poder aquisiti- vo, assim como por engenheiros, médicos e advogados, e foram os filhos delas que constituíram ao longo de 15 anos a principal clientela da Baronesa de Sauípe.
47 A escolha não partiu da Escola nem dos seus dirigentes, e sim das próprias famílias, que mesmo não entendendo muito bem o valor da pré-escola, confiavam na competência de Angelina de As- sis.Os filhos de famílias de padrão econômico mais baixo concen- travam-se na escola Luiz Tarquínio, situada no mesmo bairro, po- rém dentro do conjunto de casas oferecidas aos trabalhadores das fábricas existentes no local, devido à proximidade das residências, não sendo necessário portador para conduzir as crianças, e por ser mantida pelas fábricas, oferecia alimentação e fardamento.
Com o passar dos tempos, o crescimento do bairro, a cons- trução de conjuntos habitacionais próximos à escola e o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, sua clientela tornou-se mista, incluindo alunos das camadas trabalhadoras, ao lado da- queles de camadas média e alta, numa convivência harmoniosa.
Como afirmam os entrevistados (pais, alunos e educadores) não havia nenhuma forma de discriminação na escola, nem de classe, nem de raça, nem de gênero, nem religiosa. A todos eram ensinadas as mesmas coisas e eram tratados igualmente. A fim de evitarem constrangimentos, já que existiam alunos de camadas sociais diferentes, a Escola trabalhava com a simplicidade e obje- tos e trajes de pouco valor econômico.
A proletarização da Escola também foi uma decisão da sua direção que não se contentava em não prestar um serviço a quem mais necessitava dele. Nesse intuito, ao lado de suas colabora- doras, fazia visitas às famílias carentes, a fim de convencê-las a mandarem os filhos para a escola, ao tempo em que realizava atividades visando arrecadar fundos para garantir o fardamento e o lanche dos mesmos.
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A qualidade da escola aliada às mudanças sociais fez com que a mesma passasse a ser super-procurada, a ponto de pais dormi- rem na fila para garantirem uma vaga. Angelina ficava chocada, pois seu desejo era atender a todos. Isso forçou o crescimento da escola, que saltou de duas classes para quatro, para oito e depois para dez, atendendo uma média de 340 alunos por ano. Situação que enchia de orgulho sua diretora-fundadora, especialmente por estar prestando um serviço a camadas menos privilegiadas, a quem ela colocava em primeiro plano. Estratégias para privi- legiá-los eram usadas, tais como: efetivar em primeiro lugar a matrícula dos alunos carentes, como os oriundos da comunida- de dos Alagados4.